OPINIÃO
06/05/2014 10:54 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Uma obsessão chamada Vladimir Putin

Ao desqualificar o presidente russo como alguém movido mais pela bílis do que pelo cérebro, muitos analistas lançam a ideia de que a Rússia tem um líder que toma decisões sem qualquer componente racional.

Um dos passatempos preferidos dos analistas internacionais atualmente é tentar entender o comportamento do presidente russo Vladimir Putin. Alguns veem suas ações na Ucrânia como uma tentativa de resgatar o império soviético. Outros acreditam que o líder russo age como se ainda estivesse na Guerra Fria. Recentemente, em debate sobre a crise ucraniana promovido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), o acadêmico inglês Taras Kuzio justificou as ações de Putin de forma categórica: "ele é um cara bravo".

Embora a resposta seja decepcionante para quem esperava uma análise mais sofisticada, especialmente vinda de alguém que é expert em política ucraniana, Kuzio não está sozinho em conferir a Putin tal rótulo. Ao desqualificar o presidente russo como alguém movido mais pela bílis do que pelo cérebro, muitos analistas começam a incurtir na opinião pública a ideia de que a Rússia tem um líder que toma decisões sem qualquer componente racional. Obviamente, não se trata aqui de fazer a defesa de Putin, mas sim de questionar se o foco no indivíduo é a melhor forma de entender a crise na Ucrânia.

Felizmente, também há vozes que batem de frente com esta visão mais personalista das decisões em política externa. Para Stephen Walt, um dos mais respeitados acadêmicos norte-americanos, há um exagero em colocar os principais problemas do mundo na conta dos líderes políticos. Waltz diz em seu blog: "Em vez de examinar as raízes históricas do conflito ou os interesses concretos dos vários atores, comentaristas ocidentais tendem a colocar toda a culpa em um indivíduo: Vladimir Putin. (...) A expansão da Otan, o tratado de mísseis anti-balísticos [em referência à tentativa norte-americana de instalar um sistema de defesa na Polônia na década passada], Kosovo e a sombria perspectiva de longo prazo para a Rússia, tudo isso fica em segundo plano em detrimento ao suposto enigma representado por um único líder."

Por mais incrível que possa parecer, esse líder nem é tão enigmático assim. Obviamente, Putin não coloca todas as suas cartas na mesa, mas também faz questão de deixar um recado claro ao Ocidente: "Nós fomos enganados várias vezes, tomaram decisões pelas nossas costas, nos colocaram perante o fato consumado. Foi assim com a expansão da Otan para o leste, com a implantação dos sistemas de defesa antimísseis e com a interminável procrastinação das negociações sobre a questão dos vistos, assim como com as promessas de concorrência justa e o livre acesso aos mercados globais", disse Putin em discurso após a anexação da Crimeia.

Durante o debate da FGV, o professor Guilherme Casarões fez referência a outro analista capaz de ter um ponto de vista mais sóbrio e equilibrado. No livro "A Próxima Década", lançado em 2011, George Friedman já alertava para este retorno da Rússia ao centro da arena global. Em um capítulo inteiro dedicado ao tema, Friedman aborda alguns aspectos que são úteis para nos ajudar a entender o atual movimento das peças russas no tabuleiro geopolítico:

  • A forma como os EUA se aproveitaram da fragilidade russa nos anos 1990 para expandir a Otan e o sistema de alianças rumo ao leste;
  • A estratégia econômica de Putin em priorizar as exportações de recursos naturais e tentar tornar a Europa dependente do gás russo;
  • A importância da Ucrânia para a segurança nacional da Rússia, a estabilidade no Cáucaso e o fluxo de gás;
  • A ação militar na Geórgia em 2008 como demonstração de força ao Ocidente;
  • As fraquezas da Rússia no longo prazo (dependência das exportações de petróleo e gás, população em declínio e falta de conexão entre as principais cidades do país).

Em meio a uma avalanche de informações e artigos sobre o papel da Rússia na crise ucraniana, as análises conjunturais mais amplas, que resgatem o histórico recente das relações entre os países envolvidos na disputa e os interesses em jogo, certamente fornecem uma melhor chave de leitura para interpretar os acontecimentos do que apenas apontar o dedo para Putin. É claro que os líderes mundiais têm seu peso, mas suas decisões são tomadas dentro de um contexto mais abrangente. Putin pode até ser um cara bravo, porém não podemos ignorar que ele age racionalmente, na defesa dos interesses nacionais. A questão fundamental é entender quais interesses são considerados prioritários e até onde o país está disposto a ir para assegurá-los.