OPINIÃO
03/04/2015 12:13 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Por que um acordo interessa ao Irã

As negociações sobre o programa nuclear iraniano tiveram um novo capítulo nesta quinta-feira, 2 de abril. O grupo composto pelas cinco potências do Conselho de Segurança mais a Alemanha (conhecido como P5+1), em conjunto com o Irã anunciaram um plano de ação a ser desenvolvido nos próximos meses, com previsão para um acordo final em 30 de junho. A declaração oficial ainda carece de mais detalhes, mas o Irã deverá limitar sua capacidade de enriquecimento de urânio e seu estoque de urânio enriquecido em troca da suspensão das sanções. É verdade que toda cautela é necessária nessas negociações, mas não há dúvidas de que o anúncio representa um enorme avanço.

Seiedhamed Mirhosseini/500px

As negociações sobre o programa nuclear iraniano tiveram um novo capítulo nesta quinta-feira, 2 de abril. O grupo composto pelas cinco potências do Conselho de Segurança mais a Alemanha (conhecido como P5+1), em conjunto com o Irã anunciaram um plano de ação a ser desenvolvido nos próximos meses, com previsão para um acordo final em 30 de junho. A declaração oficial ainda carece de mais detalhes, mas o Irã deverá limitar sua capacidade de enriquecimento de urânio e seu estoque de urânio enriquecido em troca da suspensão das sanções. É verdade que toda cautela é necessária nessas negociações, mas não há dúvidas de que o anúncio representa um enorme avanço.

Ao contrário do que vem sendo ventilado por boa parte da grande imprensa ocidental nos últimos anos, o regime iraniano não é irracional e ideológico, determinado a obter a bomba atômica de qualquer forma. Esta percepção equivocada ignora o fato de que as estratégias de política externa adotadas pelo Irã buscam fundamentalmente atender a seus interesses nacionais - o que leva o país a agir de forma pragmática para alcançar esses objetivos. O Irã só aceitou prosseguir com as negociações porque o acerto está alinhado com seus interesses nacionais mais imediatos. De modo geral, é possível dividir tais interesses em três pilares básicos, interdependentes:

Segurança nacional e sobrevivência do regime

Este é o pilar fundamental da estratégia do Irã. Após a Revolução Iraniana, em 1979, o país vem superando grandes desafios para sustentar a República Islâmica e o regime teocrático do Estado iraniano - desde a guerra com o Iraque (1980-1988) até o isolamento internacional imposto pelas grandes potências. Boa parte da elite política de Teerã é influenciada pela percepção de que a estratégia dos Estados Unidos (EUA) é promover uma mudança de regime no Irã. De acordo com esta perspectiva, as sanções que se iniciaram com a crise dos reféns, entre 1979 e 1981, e foram ampliadas com o desenvolvimento do programa nuclear, visam a enfraquecer a capacidade econômica do país e gerar distúrbios sociais que possam provocar a derrubada do aiatolá.

Um acordo firmado entre o Irã e as potências ocidentais não seria garantia de que os EUA jamais irão movimentar suas peças para tentar derrubar o regime - vide o exemplo de Kadafi na Líbia, que, mesmo após alinhar-se com o ocidente, foi bombardeado pela Otan ao primeiro sinal de fragilidade de seu governo, em 2011. Mas é inegável que o acordo entre o P5+1 e o Irã irá abrir uma janela de oportunidade para um engajamento maior entre as partes e o retorno dos iranianos paulatinamente à comunidade internacional. Esta situação é bem mais segura para o Irã do que a produção da bomba nuclear, que poderia levar a um conflito no qual o regime passaria a sofrer sérios riscos.

Desenvolvimento econômico e científico

O Irã acredita que o desenvolvimento econômico e o progresso científico são fundamentais para que o país consolide sua soberania e sua independência. Ao promover o crescimento da economia, o governo também acredita que pode controlar tensões sociais e movimentos oposicionistas internos capazes de desestabilizar o regime. Para isso, o Irã conta com recursos provenientes da quarta maior reserva mundial de petróleo, com 157 milhões de barris em 2013, segundo a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). Além disso, a evolução do país em matéria de ciência e tecnologia também atende a essa busca por um modelo econômico mais autossuficiente, capaz de depender menos das importações. O país é a décima potência mundial em termos de tecnologia e a produção científica iraniana só cresce, o que tem sido motivo de orgulho nacional e uma forma de resiliência do regime frente às pressões econômicas.

Neste sentido, o acordo atende aos interesses iranianos ao garantir o fim das sanções, permitindo ao país retomar as exportações de petróleo e voltar a fazer parte mais ativamente do fluxo do comércio internacional. Isso abre a perspectiva para que a economia do país retome o crescimento de modo a reequilibrar as contas públicas, a balança comercial e combater a inflação. O reconhecimento do direito de enriquecer urânio irá permitir ao país produzir isótopos medicinais, além de propiciar diversas aplicações industriais. A possibilidade de gerar eletricidade a partir de usinas atômicas, também beneficiará o país no sentido de diversificar sua matriz energética, atualmente altamente dependente de fontes como petróleo, gás e carvão. O programa nuclear também reduzirá a dependência de petróleo, liberando o produto para ampliar as exportações ou para ser utilizado em produtos petroquímicos também destinados à exportação e que contam com maior valor-agregado.

Projeção regional

Desde a Revolução Iraniana, o país tenta projetar-se como um ator influente no Oriente Médio, capaz de ser respeitado regionalmente. O Irã deseja servir como modelo político, econômico e social, e constituir-se como uma alternativa viável de modernização sem submeter-se a um alinhamento passivo com os EUA. Por isso, sempre que se sentam à mesa para tratar da questão nuclear, os chanceleres iranianos reiteram que as negociações devem partir da premissa do respeito mútuo, sem que os norte-americanos coloquem-se numa posição de superioridade.

Sob a perspectiva doméstica, o Irã pode convencer a opinião pública nacional que não se dobrou à potência norte-americana e que teve seu direito ao enriquecimento de urânio respeitado, conforme prevê o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, do qual o país é signatário. Com o acordo, abre-se ainda a perspectiva de que as relações entre Irã e EUA evoluam - apesar de uma normalização total ainda estar longe do radar, haveria condições para cooperações mais efetivas no combate ao Estado Islâmico ou mesmo em negociações sobre a questão palestina. Tudo isso favorece a capacidade de projetar seu poder regionalmente e integrar-se de forma mais efetiva na comunidade internacional.

Um único porém a respeito deste aspecto: a projeção regional do Irã deverá mexer com o equilíbrio de poder no Oriente Médio. Afinal, Israel e Arábia Saudita não ficarão assistindo passivamente o Irã ganhar influência regional. Ainda assim, o Irã está ciente de que esta sua ambição de desafiar a hegemonia de israelenses e sauditas causará uma reação de seus rivais. Mas este é o preço que os aiatolás estão dispostos a pagar.