OPINIÃO
17/02/2014 11:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Os interesses em comum entre EUA e Irã

Pete Souza

Em setembro do ano passado, a foto aí acima foi parar na capa dos principais jornais do mundo. A princípio, a imagem do presidente dos Estados Unidos (EUA), Barack Obama, ao telefone não tem nada de mais. O motivo de tanto alvoroço é que do outro lado da linha estava o presidente do Irã, Hassan Rouhani. A foto, considerada histórica, é o registro do primeiro contato direto entre os líderes das duas nações desde a Revolução Islâmica, que completou 35 anos na semana passada e marcou o rompimento entre as duas nações.

O fato de uma simples conversa telefônica ser considerada um momento inédito de reaproximação, dá ideia do grau de hostilidade que nutre essa relação bilateral. Mas, quebrado o gelo após o contato, Irã e EUA firmaram um acordo para a redução das atividades nucleares do Irã, dois meses depois, destravando um impasse que já durava dez anos.

Apesar de ainda provisório, o acordo abriu uma janela de oportunidade para a normalização das relações entre EUA e Irã. É verdade que se trata de uma pequena fresta. Mas através dela podemos ver que os dois países compartilham muitos interesses em comum. O reengajamento Teerã-Washington poderia trazer mútuos benefícios em vários temas estratégicos:

Iraque: Irã e EUA apoiam o atual governo no Iraque, liderado pelo premiê Nuri al-Maliki. O fortalecimento da insurgência encabeçada pelo grupo extremista Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isil), ligado à Al Qaeda, reafirma a necessidade da parceria entre os dois rivais e os mantêm unidos no mesmo lado da disputa.

Afeganistão: A instabilidade no Afeganistão não interessa a Teerã nem a Washington -- tanto é que a intervenção dos EUA em 2001 para derrubar o Taliban contou com o apoio do Irã nos bastidores. Com a retirada das tropas norte-americanas previstas para este ano, o governo iraniano tem um papel crucial para não deixar a violência desandar no país vizinho.

Síria: Aqui, a equação é mais complicada, mas ainda cabe uma parceria. O regime de Bashar al-Assad tem a ajuda do Irã. Os EUA apoiam os rebeldes, mas sua fragmentação permitiu que grupos ligados à Al Qaeda dominassem as ações militares. Por isso, os EUA adotam um tom mais cauteloso contra Assad, já que uma vitória dos insurgentes poderia piorar ainda mais a situação na Síria. Mesmo em fronts opostos, EUA e Irã tem o objetivo comum de impedir o avanço de grupos terroristas na região.

Questão nuclear: Ao firmar um acordo que permita ao Irã desenvolver a tecnologia nuclear para fins civis, com limitado enriquecimento de urânio e inspeções mais intrusivas da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), os EUA podem evitar um conflito de consequências imprevisíveis na região, frear o desenvolvimento da bomba pelo Irã e priorizar outros temas de sua agenda externa. Para Teerã, a possibilidade de desenvolver tecnologia para um programa nuclear, ainda que restrito, é motivo de orgulho nacional e reafirmação da soberania.

Economia: Na esfera econômica, as vantagens são mais evidentes. Com o fim das sanções, o Irã poderá recuperar os mercados internacionais para a venda de petróleo e reaver ativos bloqueados no exterior. Empresas europeias e norte-americanas de setores tão distintos como energia, aeronáutico e farmacêutico estão ansiosas para investir no Irã.

Geopolítica: Para o Irã, os benefícios de um reengajamento com os EUA passam principalmente pela sobrevivência do regime e a manutenção da estrutura do Estado Islâmico. O fim do isolamento permitiria a Teerã expandir sua influência no Oriente Médio. Para muitos especialistas, esse efeito também seria vantajoso para os EUA, pois o Irã iria contrabalancear a influência da Arábia Saudita e das outras monarquias do Golfo Pérsico, evitando um desequilíbrio de poderes na região.

Não seria exagero dizer que a chave para a estabilidade no Oriente Médio passa pela normalização das relações entre Irã e EUA. Mas é preciso reconhecer alguns incontestáveis obstáculos para que esta reaproximação se concretize. A começar pela desconfiança entre as duas diplomacias. Os diversos picos de crise nas últimas três décadas, muitas vezes estimuladas deliberadamente pelos dois países para tentar extrair alguma vantagem, força uma posição mais cautelosa em qualquer negociação. Isso sem mencionar a retórica inflamada de ambos os lados - o uso de rótulos como "Grande Satã" e "Eixo do Mal" só nos obrigam a reforçar que a maturidade nem sempre é uma qualidade presente nas relações internacionais.

Além disso, inimigos internos continuam se esforçando para sabotar as negociações: de um lado o Congresso norte-americano, que ameaça com mais sanções; do outro, a Guarda Revolucionária e setores importantes da sociedade iraniana, que se fortalecem com essa polarização exacerbada. Isso sem falar em atores externos como Israel e Arábia Saudita, que rejeitam mudanças na atual ordem. A aliança do Irã com o Hamas palestino e o com Hezbollah libanês, inimigos de Israel e considerados grupos terroristas pelos EUA, também não facilita as coisas.

Mas o argumento aqui é que, mesmo com toda essa rivalidade histórica e um antagonismo ideológico que contamina qualquer discussão mais sensata, os dois países ainda compartilham muitos interesses em comum. Seus objetivos de longo prazo convergem em diversos aspectos. São razões suficientes para que Irã e EUA não descartem uma solução diplomática para superar esses desafios e deixem para a história algo mais do que uma simples foto de Obama ao telefone.