OPINIÃO
23/04/2014 13:55 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:24 -02

China, o país dos protestos

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Lin Fei-fan, a student leader, chants slogans during a demonstration against a controversial Taiwan-China trade pact outside the Parliament in Taipei on April 2, 2014. Protesters took to the streets of Taipei in a bid to pressure embattled President Ma Ying-jeou to retract the service trade pact and introduce a law to monitor all agreements with China. AFP PHOTO / SAM YEH (Photo credit should read SAM YEH/AFP/Getty Images)

O episódio é típico desses nossos tempos: centenas de pessoas saem às ruas para protestar. A repressão policial tenta interromper a marcha, mas incita ainda mais os manifestantes. Ao final, as forças de segurança conseguem conter a massa e 18 pessoas são presas. Esta cena, ocorrida no início de abril, não teve como cenário São Paulo, Caracas, Kiev, Cairo ou Atenas. O palco das manifestações foi a cidade de Maoming no sul da China.

Apesar das restrições às liberdades individuais e do rígido controle que o governo exerce sobre a imprensa e a internet, o protesto descrito acima está longe de ser um fato isolado na China, muito pelo contrário. De acordo com o relatório da Human Rights Watch (HWR), o país enfrenta de 300 a 500 protestos - por dia. São pelo menos 100 mil por ano! Ou seja, no instante que você lê este post, é muito provável que haja um chinês envolvido em algum tipo de manifestação.

É verdade que a maioria dos protestos são de pequeno porte. Segundo a Academia Chinesa de Ciências Sociais, grande parte das demonstrações tem adesão de menos de mil pessoas. Mas um terço das manifestações concentra entre mil e 10 mil pessoas e há casos não tão raros de protestos com a participação de mais de 10 mil chineses. Ainda de acordo com a instituição, metade dos protestos é motivada por questões ambientais, como o que ocorreu em Maoming - a população estava contestando a construção de uma indústria química. Outras razões que frequentemente mobilizam os chineses são disputas trabalhistas. No momento que escrevo este post, uma greve em uma das maiores fábricas de calçados do mundo faz 30 mil chineses cruzarem os braços.

O que mais surpreende nesses protestos é notar como o regime chinês, geralmente associado à forte repressão, lida com a situação. Se até mesmo muitas das ditas democracias ocidentais têm dificuldades em aceitar este tipo de expressão popular, como a China tolera mais de 100 mil manifestações por ano? Algumas ponderações ajudam a entender melhor o que está por trás desta aparente concessão das autoridades chinesas.

A primeira colocação é que a maioria dos protestos tem alcance limitado e tratam de aspectos bem específicos. A cúpula do poder chinês não vê nessas expressões algo capaz de desestabilizar o país. Mesmo em manifestações mais amplamente difundidas, como as mencionadas acima, não há uma contestação à legitimidade do regime.

Muitos analistas creem que estes protestos fazem parte do jogo político-social conduzido pelo Partido Comunista para dar sustentação ao próprio poder. Ao tolerar que vozes descontentes canalizem esta insatisfação para temas cotidianos, o governo restringe a amplitude dessas demonstrações ao mesmo tempo que mostra uma certa condescendência capaz de dar ainda mais legitimidade à autocracia chinesa. Na ausência de canais democráticos de expressão, boa parte da sociedade chinesa parece aceitar essa troca. Já no caso de alguma afronta mais direta ao sistema, como a exercida pelo Nobel da Paz Liu Xiaobo, não há conversa: cadeia nele.

Outro fator capaz de limitar as vozes contrárias ao regime é o crescimento obtido nos últimos anos. Desde o massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989, quando o protesto de 100 mil estudantes resultou na morte de mais de 800 civis, o governo chinês entendeu a necessidade de manter o desenvolvimento econômico para garantir a estabilidade social. Neste pacto implícito, o controle que o governo exerce em amplos aspectos da vida social e política da população é barganhada pelas altas taxas de crescimento econômico, que tem sido capaz de elevar o padrão de vida de muitos chineses nestas últimas duas décadas.

Mas esta estratégia de manutenção da ordem é cada vez mais colocada à prova. Muitos especialistas chineses acreditam que o país viveu uma década perdida durante a Presidência de Hu Jintao (2003-2013), quando o governo postergou reformas vistas como necessárias para garantir a estabilidade social no longo prazo. Com o crescimento econômico em desaceleração, o novo presidente Xi Jinping mobilizou o Partido Comunista e anunciou no final do ano passado um pacote de reformas que contempla justamente aspectos que foram negligenciados pelo governo anterior - reordenação da urbanização, incentivo ao consumo doméstico, maior abertura a investidores privados.

Se essas medidas serão capazes de manter a coesão social chinesa para as próximas décadas, ainda é cedo para afirmar. Mas, mesmo com esse aparente controle exercido pelo aparato repressor chinês, não seria nenhum delírio imaginar uma dessas 300 fagulhas diárias incendiando o enorme palheiro chinês. É uma possibilidade que tira o sono de muita gente na cúpula de Pequim.