OPINIÃO
10/03/2015 18:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Atenção: este post contém spoilers

Em se tratando de spoilers, nada supera as negociações para se chegar a um acordo definitivo sobre a questão nuclear iraniana. Esses spoilers são tão influentes e múltiplos que chega a ser admirável a assinatura do acordo provisório em Genebra, em novembro de 2013. Tanto é que representantes norte-americanos e iranianos iniciaram conversações secretas oito meses antes, entre outras razões, para isolar os "estraga-prazeres".

Seiedhamed Mirhosseini/500px
Ghods Day

Apesar de o título sugerir, este post não trata de filmes ou seriados. É verdade que o termo spoiler, bastante comum em resenhas televisivas e cinematográficas, vem do termo to spoil (estragar) e caracteriza bem aquele seu amigo linguarudo que não resiste à tentação de adiantar detalhes sobre uma cena bombástica de House of Cards quando você ainda não assistiu ao episódio.

Mas o adjetivo também é usado em contextos, digamos, menos inofensivos - sem querer menosprezar o estrago que uma revelação sobre as falcatruas de Frank Underwood pode provocar. Em política internacional, chamamos de spoilers aqueles líderes, grupos ou segmentos que atrapalham deliberadamente as negociações para a resolução de alguma disputa. Para quase todas as situações de conflito em curso no planeta é possível identificar os atores que se beneficiam da tensão existente e tentam sabotar acordos que possam afetar diretamente seus interesses vitais: do conflito israelense-palestino até as negociações entre o governo colombiano e as Farc.

Mas em se tratando de spoilers, nada supera as negociações para se chegar a um acordo definitivo sobre a questão nuclear iraniana. Esses spoilers são tão influentes e múltiplos que chega a ser admirável a assinatura do acordo provisório em Genebra, em novembro de 2013. Tanto é que representantes norte-americanos e iranianos iniciaram conversações secretas oito meses antes, entre outras razões, para isolar os "estraga-prazeres".

Entre os atravessadores externos dessas negociações, os mais evidentes são Israel e Arábia Saudita, os principais rivais do Irã no Oriente Médio. Para estas duas nações, o isolamento internacional do Irã lhes permite exercer com mais desenvoltura sua influência na região. Para a Arábia Saudita, ao suspender as sanções e trazer o Irã de volta à comunidade internacional, o Ocidente estaria fortalecendo seu inimigo, contrabalanceando o poder que os sauditas detêm no Oriente Médio.

Israel também quer evitar que os persas se fortaleçam e não se cansa de dizer que o Irã não é um negociador confiável. Agindo como um autêntico spoiler, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu discursou esta semana no Congresso norte-americano justamente para reafirmar que um acordo nuclear não é garantia de que o país dos aiatolás não possa ludibriar os Estados Unidos e obter a bomba atômica.

Segundo o jornalista Mário Chimanovic, em artigo para a Folha de S. Paulo, esta aliança informal entre os dois maiores rivais do Irã poderia ir mais além: a Arábia Saudita estaria disposta a abrir seu espaço aéreo para que Israel bombardeasse as instalações nucleares do Irã em troca de avanços nas negociações entre israelenses e palestinos.

Mas além dos spoilers externos, os principais inimigos do acordo agem internamente em ambos os lados das negociações. No Irã, o principal opositor à reaproximação com o Ocidente é a Guarda Revolucionária, que além de ser uma das forças militares do regime, possui influentes braços no Parlamento e no setor empresarial. Além da ferrenha rejeição aos Estados Unidos, muitos de seus membros se beneficiam das sanções internacionais por atuarem em negócios que competem com as importações do Ocidente. Nos Estados Unidos, o papel de spoiler cabe aos congressistas sujeitos à influência do já famoso lobby israelense. Logo após o acordo de Geneva, eles não esconderam sua insatisfação e ameaçaram votar sanções unilaterais ao Irã, além de convidar Bibi para discursar no Congresso, numa clara tentativa de sabotar as negociações.

Em situações como o acordo nuclear iraniano, os spoilers também agem por receio de um futuro incerto. Em seu livro A Single Roll of Dice, o presidente do Conselho Iraniano Americano Trita Parsi define com mais sofisticação um dos principais empecilhos para a obtenção da paz. Em tradução livre ele diz: "As forças envolvidas na disputa calculam que o melhor para seus interesses é manter o status quo; a previsibilidade da inimizade é preferível à imprevisibilidade da construção da paz. Assim, ao longo dos anos, esta antipatia sobreviveu e aprofundou-se porque manter o status quo é menos arriscado do que buscar a paz".

Trita Parsi se refere à questão nuclear iraniana, mas a definição pode ser aplicada a qualquer conflito que enfrenta um impasse atualmente. Por isso é tão complicado superar a complexidade dessas disputas. Como se não bastassem as dificuldades em conciliar os interesses diretamente envolvidos no litígio, em política internacional também é preciso ficar atento com o alerta de spoiler, sempre presente em qualquer negociação.