OPINIÃO
06/03/2014 11:24 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

A Guerra Fria voltou (só que não)

A deposição do presidente ucraniano Viktor Yanukovich acentuou ainda mais o antagonismo entre a Rússia e o Ocidente. Enquanto a União Europeia e os Estados Unidos fizeram valer seus interesses em Kiev e em grande parte da porção ocidental da Ucrânia, Moscou enviou tropas para a Crimeia, de população majoritariamente russa, e tem reafirmado sua influência na parte leste do país. Esse enredo que tem como fio condutor a disputa por hegemonia no leste europeu soa demasiadamente parecido com o período da Guerra Fria para ser ignorado.

Mas a argumentação de que vivemos uma nova Guerra Fria também é simplista demais para ser comprada sem alguma reflexão. Em muitos aspectos, de fato, muitos dos eventos que estamos assistindo são reminiscências daquele período em que o Muro de Berlim ainda estava de pé. Até mesmo porque as complexas estruturas de poder mantidas por Estados Unidos e União Soviética não podem ser completamente varridas em apenas 20 anos. Nesse período, apesar de a Rússia ter sido obrigada a ver seu raio de ação se retrair, ela jamais abriu mão de manter uma esfera mínima de influência no leste europeu e na Ásia Central. A Cortina de Ferro moveu-se para o leste e tornou-se mais porosa, mas seus pilares ainda continuam de pé.

De todo modo, há pelo menos duas diferenças fundamentais entre a polarização construída durante a Guerra Fria e a atual disputa pela Ucrânia. A começar pelo fortalecimento dos canais de integração entre EUA e Rússia. A despeito da rivalidade, que não deve ser confundida com hostilidade, os dois países estabeleceram nessas últimas duas décadas importantes fóruns de cooperação política e econômica que os aproximaram em temas estratégicos.

Rússia e EUA mantêm de pé o Conselho Rússia-Otan, voltado principalmente para o combate ao terrorismo internacional. Essa integração é fundamental tanto para subsidiar as campanhas militares dos norte-americanos no Oriente Médio, como no combate de Moscou aos grupos separatistas no Cáucaso. Também não é demais lembrar que a Rússia foi admitida em 2012 na Organização Mundial do Comércio e está plenamente integrada à cadeia econômica mundial. Grande parte do gás que chega à Europa vem da Rússia, tanto é que França e Alemanha estão reticentes com qualquer sanção econômica aplicada a Moscou por conta da atual crise na Ucrânia. Isso sem falar da participação de Rússia e EUA em fóruns como o G8 e em grupos para a discussão de crises internacionais, como na Síria, no Irã e na Coreia do Norte.

O outro fator que desmonta a tese de uma nova Guerra Fria é a ausência de um elemento essencial: a bipolaridade. Antes de dividirmos as fichas no tabuleiro entre o Ocidente, representado pelos EUA e pelas potências europeias, e a Rússia, não podemos deixar de reservar um bom quinhão para a China. A incrível ascensão econômica dos chineses nas três últimas décadas transformou Pequim num ator mais relevante do que a própria Rússia. Moscou tem mostrado que continua com uma grande capacidade de projetar poder, mas a China é forte demais para permitir o retorno de uma lógica bipolar como no auge da Guerra Fria. Aliás, os chineses têm se mostrado os únicos capazes de desafiar a hegemonia norte-americana e estão muito atentos aos desdobramentos da crise na Ucrânia.

É claro que devemos considerar a existência de esferas de influência sustentadas por EUA e Rússia e é justamente a alteração deste equilíbrio que está em jogo na crise ucraniana. Mas aceitar passivamente a tese de que vivemos uma nova Guerra Fria é ignorar o fato de que o mundo está mais multipolar e desprezar a importância de outros atores fundamentais na geopolítica internacional.