OPINIÃO
09/12/2014 11:55 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Vinte anos sem Tom Jobim, o maestro soberano que definiu o Brasil

O Brasil regido pelo maestro era o boto, o saci, a onça e o urubu. Mas também Pixinguinha, João Gilberto e Stan Getz. E, inegavelmente, o Brasil de Tom Jobim foi e é tudo o que veio depois dele

reprodução

Foi em Nova York, em 8 de dezembro de 1994, que Tom Jobim nos deixou. Ou melhor, deixou conosco, que ficamos aqui embaixo (na Terra ou no sul), um conceito chamado Brasil - ao menos musicalmente.

Se, no começo da carreira, Antônio Carlos Brasileiro era "apenas" um arquiteto frustrado que tocava piano na noite carioca para pagar o aluguel, como músico ele projetou uma espécie de Torre de Babel da música brasileira, capaz de dialogar com as diversas regiões - dentro e fora - do país, unindo suas particularidades em uma coisa só. E fazendo uma ponte não só cultural, mas também histórica.

O desenho de Jobim começa bem antes mesmo de ele nascer: seu maestro soberano é Villa-Lobos, de quem literalmente herdou a piteira. Na Semana de Arte Moderna 1922, a ousadia de Heitor em prensar 8 mil km² de Brasil em forma de música parecia impossível. E ecoou nas sonoras vaias do Theatro Municipal.

Mas foi o reconhecimento no exterior que fez os brasileiros se curvarem a Villa-Lobos. E foram nas vaias a "Sábia", no Festival da Música Brasileira de 1968, que Tom Jobim talvez tenha chegado à conclusão de que o Brasil não é para iniciantes.

"Quanto mais você for brasileiro, mas te acusarão de ser estrangeiro", diria Tom a Roberto d'Ávila.

Era o Jobim pós-bossa nova. O tom de Sabiá coincidia com o recorte histórico: a ditadura, a repressão. Na letra de Chico Buarque, a volta também remetia ao otimismo perdido nos anos 1950, em uma Ipanema que se imaginava nos gozo norte-americano do pós-guerra. Sinatra, Gerschwin e Stan Kenton significavam, agora, o outro lado em uma polarização nem um pouco fria.

No exterior, o maestro Brasileiro foi povoando mais e mais o seu país interior. Em 1970, gravou e lançou, nos EUA, o LP Stone Flower. E trouxe a "Aquarela" de Ary Barroso - o discípulo de Cole Porter que "não era mineiro, mas de raízes nordestinas"- e Glauber Rocha ("God and the devil in the land of the sun") para sua música.

Em 1973, também nos EUA, compôs o álbum Matita Perê. Era Villa-Lobos transpirando pelos poros do maestro, agora cada vez mais orquestral. Na atemporal "Águas de Março", que abria o disco, simplicidade e complexidade estiveram estão próximas que se misturam (seria esse o conceito de "beleza"?). No épico homônimo, com letra de Paulo César Pinheiro, Guimarães Rosa se metamorfoseava no pássaro do sertão.

"Porque Tom é isso aí: o vibrátil rapaz da cidade, que leva para Ipanema e Leblon uma alma ressoante de rumores da floresta, perto da qual ele nasceu", escreveu Carlos Drummond de Andrade.

Seguiu-se a obra-prima instrumental de Urubu, 1975. Depois, já no Brasil, Passarim, de 1987.

O Jardim Botânico - mesmo lar de uma emissora que, goste ou não, criou um Brasil que também continha Tom Jobim - cercava o maestro, sentado ao piano, que fumava o charuto na piteira de Villa-Lobos enquanto escrevia músicas para "garantir o uísque dos netinhos", como costumava dizer.

"Minha música vem desse meio aqui. A chuva, o sol, as árvores, os peixes.", disse em entrevista à rede americana NBC.

Mas nas pessoas também. Nos amigos com quem tomava a cerveja, nas moças que passavam pela sua vida e o inspiravam. Nos filhos, nos netos. "Toda pessoa tem essa vivência interna, que não tem muito a ver com o anúncio na televisão. Acho a pessoa humana é rica, riquíssima e que no futuro todo mundo vai ser artista", previu.

O Brasil regido pelo maestro era o boto, o saci, a onça e o urubu. Mas também Pixinguinha, João Gilberto e Stan Getz. E, inegavelmente, o Brasil de Tom Jobim foi e é tudo o que veio depois dele.

"É um laboratório de experiências", ele diria. Um país que, 20 anos depois da morte de quem, ao menos musicalmente, melhor o definiu, canta pra o mundo:

Oh, it's been a long, a very long time

Since a Brazilian has danced with you.

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.

Para saber mais rápido ainda, clique aqui.

MAIS MÚSICA NO BRASIL POST

Galeria de Fotos Jair Rodrigues: a trajetória no samba e na MPB Veja Fotos