OPINIÃO
12/11/2014 15:47 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:45 -02

O outro lado de Haruki Murakami

Em outubro, poucos dias antes de o Instituto Nobel laurear o memorialista francês Patrick Mondiano pelo conjunto de sua obra literária, o japonês Haruki Murakami já figurava novamente entre os favoritos nas bolsas de apostas da Grã-Bretanha. História que se repete entra ano, sai ano, e sempre com o mesmo final.

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Em outubro, poucos dias antes de o Instituto Nobel laurear o memorialista francês Patrick Mondiano pelo conjunto de sua obra literária, o japonês Haruki Murakami já figurava novamente entre os favoritos nas bolsas de apostas da Grã-Bretanha. História que se repete entra ano, sai ano, e sempre com o mesmo final.

Não que o Nobel da Literatura seja uma unanimidade em definir quem são os grandes nomes da literatura mundial - basta lembrar que Borges, Tolstói e Nabokov nunca o receberam; nem que Murakami represente, pelo menos na forma, a perfeição da palavra escrita ou a atemporalidade digna dos clássicos. Entretanto, o termômetro das apostas aponta para a reverberação das obras do japonês em círculos que não necessariamente representem a crítica literária.

Sendo assim, a revista norte-americana The Atlantic pode afirmar, sem remorsos, que "nenhum grande autor escreve tantas frases ruins quanto Murakami", o que não desqualifica a importância dele na literatura mundial - nem deixa de salientar a existência de ótimas frases. Porém, o que importa, na sua obra, é muito mais um "mundo de sombras, que reside em nosso subconsciente ou mesmo em um universo paralelo, e onde estamos livres para dar vida às mais obscuras, violentas e perversas fantasias."

Se a crítica preza pelas obras que, diferentemente de best-sellers (como definiria Paulo Rónai), fazem o leitor refletir sobre a condição humana, levando-o à realidade ao invés de proporcionar que fuja dela, Murakami dá aos próprios personagens a chance de transitar entre diferentes universos. Neles, sublinha a The Atlantic, a morte é apenas uma transição entre mundos. Logo, se não há um fim definitivo, o existencialismo encontra uma nova dimensão. É a fuga, portanto, rumo a outro universo, para personagens ou leitores.

Murakami nasceu em 1949, em Kyoto. Espremido entre o trauma de Hiroshima, a rígida tradição japonesa e a Guerra Fria - na qual o país se viu relegado à posição de mero espectador -, o filho de professores de literatura tentou fugir da vocação enquanto era proprietário de um bar de jazz em Tóquio. Aos trinta, porém, publicou "Hear the Wind swing" (sem tradução para o português) e venceu o prêmio para escritores jovens do Japão.

O livro seguinte, "Norwegian Wood", vendeu três milhões de cópias. O título expõe uma das características de Murakami: as referências à cultura ocidental, seja na música (com os Beatles, John Coltrane ou Ludwig van Beethoven), seja nos enredos que muitas vezes lembram os romances policiais de Raymond Chandler. Isso lhe valeu a rejeição em alguns círculos japoneses, que o classificaram como "por de mais ocidentalizado".

Dos livros lançados em português, "Kafka à beira-mar" (2002) e "O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo" (1985) servem como metonímia para o mundo de Murakami. Em ambos, duas histórias paralelas se desenrolam, com personagens solitários, desolados pela solidão distópica das megalópoles, em busca de algo que lhes é desconhecido, mas que no caminho revela a sobrenaturalidade do universo murakamiano - que se difere do realismo fantástico na medida com que conversa com outros planos de existência.

("1Q84", trilogia lançada recentemente e alardeada como obra-prima, não passa de uma combinação de clichês do autor, diluídos por cerca de mil páginas, com um enredo mal resolvido que tropeça em argumentos confusos e culmina em um final extremamente desnecessário.)

Em rara entrevista, concedida ao semanário alemão Die Zeit no começo de 2014, Murakami sugere incorporar, no processo criativo, características um tanto quanto mediúnicas: "Escrever, para mim, é sempre igual", conta, em seu escritório de seis metros quadrados no Havaí, onde reside como professor convidado universidade local. A motivação? "Recebo notícias do outro lado."

"A primeira vez que vi isso acontecer foi durante o romance 'Caçando carneiros' (1982), há mais de trinta anos. Eu estava sentado junto à escrivaninha quando, de repente, essa criatura estranha apareceu do nada: o Homem-carneiro. Ele veio do outro lado. Eu não sabia quem ele era ou o que queria de mim, mas tinha certeza que precisava dele. Ele era uma notícia para mim, então, o descrevi. Não precisei fazer mais nada."

No decorrer da conversa, Murakami deixa claro que não se separa a sua obra da filosofia de vida que segue. Facilita, assim, a tarefa de tentar entendê-lo:

"Não sou religioso: acredito apenas na imaginação. E na ideia de que existe mais de uma realidade. O mundo real e um outro mundo, irreal, coexistem e são interdependentes. Às vezes, eles se misturam. E, quando quero, se me concentrar bem, posso trocar de lado. Posso ir e vir. É o que acontece na minha literatura: minhas histórias acontecem ora de um lado, ora do outro, e eu quase não percebo mais a diferença."

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