OPINIÃO
25/11/2014 10:22 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

A violência dos cartéis mexicanos e a brutalidade niilista de Roberto Bolaño

O choque causado pelo desaparecimento dos 43 normalistas em Iguala, em 26 de setembro, fez com que grande parte da mídia ignorasse um episódio, também ocorrido no México, no qual a própria imprensa está diretamente envolvida.

Terry Vine/J Patrick Lane via Getty Images

O choque causado pelo desaparecimento dos 43 normalistas em Iguala, em 26 de setembro, fez com que grande parte da mídia ignorasse um episódio, também ocorrido no México, no qual a própria imprensa está diretamente envolvida. Em 16 de outubro, a cirurgiã-geral María del Rosario Fuentes Rubio, de 36 anos, foi sequestrada e assassinada por membros de um cartel de Reynosa, no estado de Taumalipas, fronteira com os Estados Unidos.

Além de trabalhar no hospital local e prestar assistência em uma maquiladora da região (fábricas que produzem bens para importação, conhecidas pelas más condições a que submetem os trabalhadores), Maria del Rosario era, sob o pseudônimo de "Felina", uma das colaboradoras mais ativas da mídia alternativa "Valor por Taumalipas".

Criado em 2012, "Valor" se tornou o único veículo a noticiar sequestros, tiroteios, bloqueios de vias, aparições de corpos e outras ações praticadas por envolvidos com o tráfico local, alcançando 100 mil seguidores no Twitter e meio milhão no Facebook. Isso levou um dos cartéis a distribuir, um ano e meio atrás, flyers pelo estado oferecendo uma recompensa de 48 mil dólares a quem entregasse o nome dos seus administradores.

Em 2009, um racha interno no tradicional Cartel do Golfo, que ocupa a região há décadas - seu fundador, Juan Nepomuceno Guerra, agiu contrabandeando álcool para os EUA durante a Lei Seca americana -, com a milícia Los Zetas, até então braço armado do grupo, transformou a região de Taumalipas no palco de uma guerra civil. Como medida preventiva, a imprensa local foi silenciada pelos traficantes, sobrando para fóruns, listas de e-mails e blogs a tarefa de avisar à população sobre os locais onde as batalhas estariam acontecendo. A hashtag #ReynosaFollow no Twitter se tornou, por fim, o meio mais eficiente de se divulgar as notícias na cidade.

Em 8 de outubro, uma conta do Twitter com o nome "Laura Garza" (@garzalaura142) enviou uma mensagem à conta de Felina (@Miut3) com o seguinte aviso: "Estamos chegando perto, tenha cuidado". Mesmo assim, Maria del Rosario continuou postando mensagens com a hashtag #ReynosaFollow - a maioria delas, avisos para ajudar moradores a evitar locais com possíveis tiroteios e situações de perigo.

Em 15 de outubro, veio então a seguinte mensagem:

# reynosafollow AMIGOS E FAMILIARES, MEU NOME VERDADEIRO É MARÍA DEL ROSARIO FUENTES RUBIO. SOU MÉDICA. HOJE MINHA VIDA CHEGOU AO FIM.

Momentos depois, outro tuíte alertando amigos e familiares a não fazerem o mesmo que ela: utilizar a rede social para enviar notícias sobre o crime organizado, pois não "há sentido nisso". Logo depois, outra mensagem, avisando os seguidores e três conhecidos colaboradores do "Valor" de que o cerco estava se fechando.

O último tuíte enviado por Felina continha duas fotos. Em uma, ela olha desolada para a câmera. Na segunda, aparece deitada no chão, banhada em sangue e com um tiro no rosto.

A identidade de María del Rosario teria sido descoberta após traficantes a terem sequestrado junto de outros dois funcionários do hospital local, como represália à morte de um jovem de Reynosa. Atendido por Felina no hospital, ele teria recebido uma medicação e sido enviado a outro centro médico, morrendo no meio da viagem. Os traficantes teriam descoberto quem ela era após vasculharem o seu smartphone.

Números do Instituto de Estatística e Geografia do México dão conta que, em 2013, o índice nacional de impunidade atingiu 93%. Segundo o site VICE News, muitos boletins de ocorrência são deixados de lado por causa da percepção de que as autoridades locais e o crime organizado são partes complementares da mesma estrutura de poder.

Ficção?

Tanto o caso de Reynosa quanto dos estudantes em Iguala ecoam facetas do universo niilista concebido pelo escritor Roberto Bolaño. Mais precisamente, da violência e da brutalidade gratuitas que interligam tais episódios ao dos assassinatos das quase quatrocentas mulheres, ocorridos entre 1993 e 2003, na Ciudad Juárez, também na divisa do país com os Estados Unidos.

"2666", livro póstumo e obra-prima de Bolaño, gravita em torno dos assassinatos em série de trabalhadoras da cidade fronteiriça de Santa Teresa (variação ficcional de Ciudad Juárez), reconstruindo as investigações e descrevendo, numa frieza quase jornalística, as características das vítimas e de suas execuções. A maioria encontrada sem roupas, vítima de tortura, mutilação e estupro. Além disso, grande parte delas trabalhava ou havia trabalhado nas fábricas "maquiladoras" locais. Segundo as investigações (que não encontraram nenhum autor que interligasse os crimes), metade das execuções também estaria relacionada ao tráfico de drogas local.

Na ficção quanto na realidade, a violência escancara o esvaziamento de sentido da existência perante o horror. É a extensão de um poder corrupto que necessita do terrível para se afirmar, oprimindo, como metonímias, as mulheres de Ciudad Juárez; os estudantes rurais de Iguala; os cidadãos que abdicam o tráfico em Taumalipas.

Em certo ponto do romance, um dos personagens constata: "A realidade é uma puta drogada". Mas quem a droga? Quem a prostitui? Talvez a fracassada guerra às drogas, que pulverizou os grandes cartéis mexicanos e os transformou em quadrilhas locais que souberam se utilizar da fragmentação burocrática das autoridades policiais mexicanas, divididas em guardas federais, estaduais e municipais.

Enquanto isso, os Estados Unidos observam, por cima dos arames farpados da fronteira, o circo do vizinho pegar fogo - como se todo combustível fosse invisível como o oxigênio.

Texto publicado originalmente no blog O Cobertor.

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