OPINIÃO
13/03/2015 15:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Tem, mas não tem...

mag3737/Flickr

Quem já recorreu ao posto de saúde por causa de uma dor de dente sabe bem: Há consultórios odontológicos... há dentistas contratados... entretanto, o mais importante: NÃO HÁ o atendimento que as pessoas precisam! Quer dizer: tem, mas não tem!

Exemplo? A TdB, organização social da qual sou presidente voluntário, vive recebendo e-mails de dentistas de postos de saúde perguntando se não poderíamos finalizar os tratamentos de seus pacientes - todos, sem exceção, extremamente preocupados... querendo fazer algo a mais.. e de mão atadas pelo sistema. Ou faltam especialistas... ou, pior, materiais adequados.

Ecos disso estão nos números do Conselho Federal de Odontologia, que estimam que 1/3 dos tratamentos públicos não são concluídos por problema de agendamento. Resultado: a odontologia oferecida no SUS, NA ESMAGADORA MAIORIA DOS CASOS, só dá conta das emergências. "Tá com muita dor? Vem cá que eu aplico um 'remedinho' e arranco o dente estragado... Infelizmente é o que eu posso fazer" (a mesma coisa que chegar no hospital com um braço doendo e sair de lá com ele amputado)...

Como ninguém parece se importar com isso (uma pessoa sem dente não choca tanto quanto uma pessoa sem braço, não é mesmo?!), nada muda! Os responsáveis pela Saúde Bucal nos Estados e Municípios seguem escolhidos por motivações políticas e/ou pessoais, sem o menor conhecimento de Saúde Coletiva. Os orçamentos continuam sendo gastos em ações com quase nenhum planejamento e efetividade. E 68% dos brasileiros continuam sem saber que têm direito a tratamento odontológico público e gratuito.

E quando um dentista tenta romper esse círculo vicioso, não sabe pra quem recorrer. Acaba pedindo para uma organização social, que tem um orçamento anual de R$ 2,5 milhões, fazer o que o Governo não "conseguiu" com mais de R$ 3,6 bilhões.

Eu entendo o desespero desse profissional... em seu lugar eu também pediria socorro para quem estivesse por perto. E fazer isso é um p. ato de resistência (digno de meu aplauso!). Entretanto, para resolver o problema quem DEVERIA pedir ajuda é o próprio poder público... e refletir sobre nosso modelo de trabalho para buscar alternativas mais sustentáveis para a saúde bucal. Por exemplo: por que não firmar parcerias com clínicas odontológicas particulares para que elas ofereçam um percentual de sua agenda para o atendimento de usuários do SUS? Por que não distribuir gratuita e regularmente escova, pasta e fio dental para reduzir a demanda por tratamentos de alta complexidade?

Um sonho... eu sei!