OPINIÃO
18/08/2015 15:54 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

'Que horas ela volta?' é um delicioso soco no estômago

Reprodução

Na última terça-feira (11), eu assisti a uma obra-prima, daquelas de fazer chorar, literalmente. Um delicioso e necessário soco no estômago.

Que Horas Ela Volta?, o novo filme de Anna Muylaert, é simples e delicado e, somado a atuação brilhante de Regina Casé, tem uma força arrebatadora.

Regina Casé está perfeita no papel de Val. Além de excelente atriz, Regina conhece como ninguém a vida das pessoas simples do Brasil. Até mesmo os críticos do atual programa comandado por Regina, o 'Esquenta', terão de se levantar para aplaudir essa atuação inspiradíssima. A obra atinge o mesmo nível de qualidade da tão elogiada produção argentina atual ao conquistar a atenção do público com personagens e sentimentos, sem apelar para violência, nudez ou efeitos especiais.

Depois de muito trabalho em nossas casas, toda 'Val' torna-se 'quase da família'. E esse 'quase' tem um peso gigantesco. Alguns detalhes no filme que me fizeram refletir sobre essa relação humana tão complexa e ainda pouco discutida. Quando a empregada faz um café, ela toma o café? Ela pode? Deve? Certamente ela come a mesma comida feita para nós, mas por que se senta a mesa sempre depois de nós? Isso não lembra os tempos da escravidão?

Os prédios da cidade provam como essas questões vivem conosco há décadas. O apartamento paulistano 'padrão' é pequeno, tem dois quartos e vêm com um 'quartinho de empregada'. É 'quase' um quarto. 'Quase' pois foi feito para ser menor; não somente o menor quarto, mas o menor espaço da casa. Menos conforto para quem mantém nosso lar confortável. Nesse espaço onde mal cabe um colchão vive alguém 'quase da família'. Se você achar isso coisa do passado, peço para olhar com atenção aos novos prédios da cidade. Não é difícil achar designs modernos e arrojados com um 'quartinho'. E quando o 'quarto' já vem com um 'banheiro de empregada'? Alguém limpará o principal banheiro da casa e não poderá usá-lo; se quiser usar o banheiro, que use o seu. Menor.

Somos ensinados a tratar nossas empregadas como se fossem menos que nós. Menos que qualquer um.

Muitos dos jovens atendidos pelos dentistas voluntários da Turma do Bem são 'quase' órfãos. Suas mães, assim como a personagem vivida por Regina Casé, estão cuidando dos filhos de outras mulheres, em outras casas, às vezes em outras cidades e estados. Deixam para trás seus filhos para que, financeiramente, não passem pelas dificuldades enfrentadas por elas. Esse ciclo distancia filhos de suas mães e mantém uma mentalidade que não respeita regras básicas de convivência. Que Horas Ela Volta? chega aos cinemas de todo o Brasil no próximo dia 27 e também conta com as atuações de Camila Márdila, Michel Joelsas e Lourenço Mutarelli.

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