OPINIÃO
04/02/2016 18:48 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Precisa-se de um manual

Este ano a revista Vogue fez uma homenagem à África em seu tradicionalíssimo baile de carnaval. Mas não qualquer África... uma África Pop - gente, é Vogue, né?!

Eu estive lá e vi de tudo um pouco... Desde gente que nem se lembrou da África e foi de smoking (meu caso!), até convidados que estavam à caráter, com pintura corporal tribal, tecidos étnicos e turbantes. Pronto: o tribunal das redes sociais voltou a atacar!

Nunca li tanta coisa sobre "apropriação cultural"... e, juro: tanta atrocidade! Vi gente dizendo que modelo branca que usa turbante é contra a resistência do povo negro... Oi? Era só um baile! Quem é que vai para o carnaval com a intenção de sair por aí levantando alguma bandeira? Todo mundo vai para se divertir! Aliás, pera lá: O turbante não tem origem no Oriente? Quem tá se apropriando de quem aí?

Confesso que para mim, isso tudo ficou com cheiro de briguinha entre quem foi e quem não foi. E ponto!

Mesmo assim, a "patrulha internética" me deixou preocupado. Não quero ficar com a fama de "apropriador da cultura alheia". Só que para isso, preciso saber o que é aceito como meu e o que não é... Onde tem um manual?

Até lembrei de uma das festas que os dentistas do bem, voluntários da TdB, fizeram para receber os colegas de outros países da América Latina. Tinha tequila, música em espanhol, muita bandeirola colorida... Eu achando que tinha sido uma festa incrível, agora, já não sei se foi apropriação cultural ou não. Socorro!

Então, estou aqui pedindo, por favor, para me tirarem algumas dúvidas porque não quero ser condenado pelo STF --- Supremo Tribunal do Facebook.

  1. Por que os bloquinhos de carnaval da Bahia podem fazer uma festa na rua homenageando a África e a Vogue não?
  2. Por que o baile da Vogue é racista mesmo com duas madrinhas negras (Thaís Araújo e Glória Maria)? Quem é que decide se elas estão erradas ou não? Elas não podem decidir por elas?
  3. Se eu fizer oferenda pra Iemanjá, também estou me apropriando da cultura africana?
  4. Posso servir tequila se eu convidar meus amigos para uma festa latina? E se for português, pega mal oferecer sardinha?

É óbvio que temos visões distorcidas dos lugares que a gente não conhece. Ou melhor: até dos que a gente conhece, se fizemos apenas os roteiros turísticos.

E fora do Brasil é a mesma coisa. Já ouvi um "olha lá o brasileiro... Vamos dançar um samba". Estereótipo puro! E o samba? Terrível, muito diferente da nossa música. Mas o que vou fazer? Impedir o estrangeiro de sambar? Ele só está me festejando...

Acho que estou um pouco perdido no meio de tanta polêmica. Sem saber direito o que posso chamar de meu e o que não posso, gostaria de fazer uma última pergunta: como é possível manter a pureza de uma cultura em um mundo globalizado?

Enquanto isso, torço pra Vogue não fazer nenhum baile homenageando a Índia... Com essa minha cara de indiano, se eu colocar uma túnica... já era! A bomba da apropriação cultural vai sobrar é pra mim!

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