OPINIÃO
01/12/2015 16:06 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

Meu Chatô particular

Divulgação

A estreia de Chatô, o Rei do Brasil, de Guilherme Fontes, tem um significado especial para mim. Quando o filme começou a ser produzido, em 95, Guilherme disse: "Fabio, quero que você faça a caracterização dentária para o Marco Ricca, que vai interpretar Chatô. Quero aquela dentição projetada!".

Para você ter ideia, o sorriso do Chatô era marcado por dentes grandes e para frente. Ele tinha lábios carnudos, coisa que o ator não tem. Para um jovem dentista era um grande desafio!

Eu sabia fazer tecnicamente, mas tinha pouca consciência do quanto o trabalho de um dentista impacta na vida de uma pessoa ou, até mesmo, de um ator que interpreta um personagem não ficcional.

Fiquei pensando sobre como o sorriso de um personagem é essencial para a percepção que as pessoas terão da história. Um bom exemplo é o filme Os Miseráveis, com os personagens Jean Valjean e Fantine. São atuações, figurinos, maquiagem incríveis, mas a força está na caracterização dentária dos personagens.

Se as duas bocas destruídas por conta da fome, miséria e do não acesso à saúde bucal estivessem fechadas, duvido que causaria o mesmo incômodo nas pessoas. Afinal, uma má saúde bucal incomoda de ver, não é? Imagine para quem convive com esse problema diariamente e não tem acesso a um tratamento digno?

E o que falar da personagem Aileen Wuornos, de Monster? A atriz que fez o papel precisou ganhar mais de 10 quilos para interpretar uma ex-prostituta que assassinava homens. Para ficar mais parecida com a pessoa, também usou uma prótese dentária, com dentes manchados e cariados.

Isso tudo foi surgindo na minha cabeça depois que dei de cara com o sorriso projetado de Chatô na telona... aquele sorriso também me fez voltar para 1995.Naquela época, eu buscava outras coisas para minha carreira, sonhava com outro futuro para o Brasil e, como todo jovem sonhador, acreditava que iria mudar o mundo participando daquele filme tão arrojado para a época, que contaria de forma crítica uma parte muito importante da história do Brasil... de quando a TV chegou no país!

Depois de 20 anos de produção, o filme estreou ... o Brasil não é nada daquilo que eu sonhava quando era jovem.... mas, hoje, sei do verdadeiro papel que um dentista tem na sociedade. A técnica que eu sabia quando jovem e que fui aprimorando com o tempo é importante, mas não é tudo porque quem mais precisa, muitas vezes, não pode pagar por ela.

Sai do cinema anestesiado... para mim, o ator Marco Ricca entrega para a audiência o que eu chamaria de momento mágico do cinema. Aplausos de pé ainda não conseguiriam traduzir o meu sentimento de orgulho por todo o projeto final. O filme não foi lançando na época em que eu era um jovem sonhador, mas foi assistido por alguém que ainda tem sonhos...muitos sonhos.

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