OPINIÃO
29/04/2015 16:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Diário de um dengoso

Shutterstock / Kamira

Eu peguei dengue. Bem, tecnicamente, o mosquito me pegou. Não sei se foi na praia do RJ ou nos pântanos de SP. Mas ele foi lá, voando com suas asinhas, pousou na minha pele e me bicou (Picou? Chupou? Não sei o termo preferido do Aedes agora...).

Com certeza você tem um amigo que esteve/está com a doença. E com certeza o ignorou por uma semana enquanto ele ficou lá, deitado, delirando de febre no escuro e sozinho. Eu entendo. Ninguém gosta de ficar perto de gente doente. Em Roma tinham as ilhas dos leprosos. Hoje, temos o nosso quarto e o iPhone.

Aliás, o que o governo está fazendo sobre isso mesmo? Não basta ficarmos sem água e agora, na pouca que restou, nos baldes e caixas d´agua que estamos economizando, o mosquito da dengue está se reproduzindo? 7 X 0 para o Aedes.

Enfim... eu fiz um breve diário, um passo a passo, do que aconteceu comigo. E se nosso governo continuar tentando matar o mosquito como a gente faz com pernilongo, usando aquelas raquetes elétricas na varanda, você pode ser o próximo.

Primeiro dia.

Estou estranho. Tenho umas ondas de calafrio abdominal. "Comi alguma coisa estragada", penso.

Segundo dia.

A dor no corpo geral piora. O calafrio está mais forte. "Nossa, o que eu comi devia estar podre mesmo".

Meu diagnóstico: intoxicação alimentar.

Terceiro dia.

Uma dor na panturrilha aparece. Mal dá para andar. Quem conhece um pouco de sintomatologia pode começar a ficar louco. Como eu.

Leptospirose? Pode ser, mas eu não passei por nenhuma enchente. Trombose? Não, não pode ser porque estou com dor nas duas pernas. E aquela festa que eu fui na marginal? Lá tinha umas poças d'água. LEPTOSPIROSE!

Quarto dia.

Dane-se essa intoxicação, afinal é pascoa. Chamei uns amigos e a família para almoçar em casa (apesar da falta de apetite). Depois de duas horas, com todo mundo lá em casa, aviso: gente, vou ter que ir mesmo até o hospital, mas já volto.

Hospital. O médico dá suspeita de dengue, mas o exame de confirmação só vai sair daqui uns dias

Quinto dia.

Mesmo com a (muito provável) confirmação de Dengue, TODAS as doenças começam a passar pela minha cabeça. As principais são: gripe, mononucleose, meningite, câncer renal... chego a pensar até em metástases pelo corpo inteiro.

Uma coisa é fato: qualquer sintoma que você escreva no Google pode ser câncer.

Oitavo dia.

Eu trabalho dopado de remédio. Meu sangue é uma farmácia. Já emagreci horrores.

Nono dia.

Estou internado de novo. Hidratação.

Os amigos, por pura sugestão psicológica, começam a achar que estão com dengue também e correm para o hospital por causa de um dorzinha de cabeça. Uma pequena felicidade egoísta toma conta de mim quando isso acontece.

Décimo dia.

No meu hospital tem um andar inteiro só de profissionais de saúde internados. Sim, médico também pega dengue. E o clichê está certo: eles são os piores pacientes. Dão mais trabalho, querem alta logo, passam mal.... E eu, como dentista, também me incluo aí. Atormento a coitada da enfermeira.

Pensamentos estranhos aparecem quando não se tem nada para fazer, o celular acabou a bateria e você está deitado em uma horrorosa cama azul-bebê: "preciso escolher alguém para dar as minhas senhas do Face e computador. Just in case".

11° dia.

Quarto. Cama. Água, só água desce pela garganta e mais nada. Deus abençoe a internet e o Netflix.

Meu estado é melancólico. Eu tenho tudo, mas na verdade não tenho nada: é apenas uma virose de um mosquitinho maldito, mas que acaba com você de uma maneira que eu nunca passei igual.

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Hoje, mais ou menos 20 dias depois, meu sono ainda é errático, curto e muito pesado. Somente ontem consegui comer três refeições no mesmo dia.

Procuro repelentes para o Sr. Aedes, mas ele está em falta no mercado. Leio que os hospitais não tem mais vagas. 12 pessoas do meu círculo de amizades estão com Dengue. Chikungunya? Que é isso? O Aedes casou e teve filhos com uma asiática? Que diabos é Chikungunya?

Estou com medo de ser picado de novo.