OPINIÃO
04/06/2015 11:55 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

Como assim, senhor ministro da Saúde?

68% dos brasileiros não sabem que têm direito a tratamento odontológico público... e dos que sabem e recorrem ao serviço, um terço não conclui o tratamento por problema de agendamento (fila de espera, falta de profissionais, infraestrutura, essas coisas).

Conor Lawless/Flickr

"O estudo destaca o papel do SUS na promoção da equidade e os resultados do esforço do governo federal em expandir os serviços a toda a população".

Foi assim que o ministro da Saúde, Arthur Chioro, apresentou o segundo volume da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), divulgado esta semana.

Ao saber disso, me perguntei: será que ele leu a parte da pesquisa (pequena, aliás) destinada à saúde bucal?

Segundo a PNS, enquanto 71,1% dos brasileiros procuram a rede pública de saúde para ir ao médico, 74,3% recorrem a consultórios ou clínicas particulares quando precisam de dentista. Por quê?! A pesquisa não responde à questão... Uma outra, porém, promovida pelo Conselho Federal de Odontologia em 2014, pode nos ajudar a entender o caso.

Segundo ela, 68% dos brasileiros não sabem que têm direito a tratamento odontológico público... e dos que sabem e recorrem ao serviço, um terço não conclui o tratamento por problema de agendamento (fila de espera, falta de profissionais, infraestrutura, essas coisas).

Quer dizer: as pessoas não recorrem à rede pública porque não sabem que o serviço existe e porque, quando sabem, não conseguem o tratamento! Em que lugar do mundo isto é sinônimo de expansão dos "serviços para toda a população?"

Continua indo ao dentista apenas quem pode pagar... E não é preciso ser nenhum gênio para sacar que isso gera um cruel círculo de exclusão social: se não tenho dinheiro, eu não cuido dos dentes... por isso os dentes caem... sem dentes eu não consigo um bom emprego... Sem um bom emprego eu continuo sem dinheiro... e sem dinheiro....

Uma prova? 55,6% da população, quase 112 milhões de pessoas não consultaram um dentista no último ano. E enquanto nas pessoas sem instrução ou com ensino fundamental incompleto (ou seja, com menos $$$) este índice é de 63,4%, naqueles com ensino superior completo ele fica na casa dos 32,6%.

Outra prova? Apenas 29,2% das pessoas com baixa escolaridade utilizam escova, pasta e fio dental, enquanto naqueles com nível superior, o índice é de 83,2%.

Aí, quando o Ministério divulga que investiu R$ 20 bilhões em prevenção, "uma área de atenção prioritária para o governo uma vez que consegue resolver até 80% dos problemas de saúde sem necessidade de encaminhamento do paciente para um hospital ou unidade especializada, tornando a assistência em toda a rede mais eficiente", eu me pergunto: um dinheirinho desse não poderia ser destinado à distribuição de escova, pasta e fio dental para a população de baixa renda, já que essa é a única forma de prevenir doenças odontológicas e diminuir a demanda por tratamentos no futuro?

Cri... cri... cri...

Mas os dados alarmantes não param aí: 16 milhões de brasileiros, segundo a pesquisa, perderam todos os dentes da boca. 33 milhões perderam 13 ou mais dentes. 66,7 milhões utilizam algum tipo de prótese dentária. 2,4 milhões deixaram de fazer suas atividades habituais por doenças odontológicas. Em todos os casos, com a esmagadora maioria proveniente da população de baixa renda. E a expansão, como fica?

Infelizmente eu sou obrigado a discordar do ministro da Saúde. Para mim, a pesquisa não mostrou avanços. Pelo contrário, apenas evidenciou que muito pouca coisa (quase nada?!) mudou! Dentista continua privilégio de uma minoria que pode pagar pelo serviço. A odontologia segue sendo vista como uma "especialidade médica" menor. A falta de saúde bucal continua a ser fator de exclusão social. E (a parte mais triste): pouca gente parece se importar com tudo isso com tudo isso.