OPINIÃO
26/03/2016 21:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

A lista da Odebrecht é um espelho da sociedade brasileira

O Brasil passa por uma das maiores crises éticas da história. E não adianta colocar a culpa apenas na classe política. Eles são um espelho da nossa sociedade. Eles lidam com a coisa pública com a mesma irresponsabilidade com que lidamos com a coisa privada.

MIGUEL SCHINCARIOL via Getty Images
A demonstrator rallies in support of Brazilian President Dilma Rousseff's impeachment at Paulista Avenue, in Sao Paulo, Brazil on March 19, 2016. Brazilian lawmakers relaunched impeachment proceedings against President Dilma Rousseff Thursday and a judge blocked her bid to bring her powerful predecessor Luiz Inacio Lula Da Silva into her cabinet, intensifying the political crisis engulfing her. AFP PHOTO / Miguel SCHINCARIOL / AFP / Miguel Schincariol (Photo credit should read MIGUEL SCHINCARIOL/AFP/Getty Images)

"Dentistas batiam ponto no serviço público e iam atender no consultório particular".

A notícia é de Palmas (TO), onde o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e a promotoria desencadearam a operação Tiradentes.

Entretanto, o modus operandi não é exclusividade de Tocantins. Brasil afora, um monte de gente faz a mesma coisa. E todo mundo sabe.

Como todo mundo sabe que quando um guarda de trânsito para um cidadão no trânsito, R$ 50 reais pode evitar uma multa inquestionável.

E que forjando uma carteirinha de estudante, o preço do ingresso do cinema, do show e do teatro cai pela metade.

E que comprando o "gato net" é possível assistir toda a programação da TV à cabo pagando o preço do pacote básico.

E que com DVD pirata pode-se economizar uma graninha sem deixar de ver o filme que ganhou o Oscar.

E que baixando MP3 da internet, o iPod fica show e a carteira continua cheia.

E que falsificando atestado médico (ou odontológico) a falta é abonada no final do mês.

E que entrando na Justiça do Trabalho contra o ex-patrão, algum dinheiro se consegue, mesmo se ele tiver feito tudo certinho.

E que vendendo serviços e produtos sem nota fiscal, o imposto de renda pode ficar mais barato no final do ano.

Aí aparece a lista da Odebrecht e o pessoal se impressiona: 200 políticos. 18 partidos. Centenas de milhões de reais. Alguns gritam nas ruas: "abaixo a corrupção!". Mas eu pergunto: e aí?

O Brasil passa por uma das maiores crises éticas da história. E não adianta colocar a culpa apenas na classe política. Eles são um espelho da nossa sociedade. Eles lidam com a coisa pública com a mesma irresponsabilidade com que lidamos com a coisa privada.

Limitar o debate na comparação das corrupções dos rivais políticos ("o Lula tem o tríplex", "mas os Marinhos têm a casa na praia", "O PT é corrupto", "mas Aécio também é e ninguém fala nada"), como vem sendo feito, é virar as costas para o verdadeiro problema.

As passeatas verde-amarelas e vermelhas estão lotadas de gente metida em corrupção, de mamadores do Estado, em formas inimagináveis.

No final das contas, os 200 citados da lista da Odebrecht somos todos nós.

Nós que batemos o ponto no posto de saúde de pijama, que pedimos recibo mais alto no táxi para ganhar um dinheirinho no reembolso, que compramos roupa baratinha mesmo sabendo que foi feita por mão-de-obra escrava, que elegemos nossos representantes à nossa imagem e semelhança.

E aí? Quando vamos mudar a história?

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