OPINIÃO
25/06/2014 09:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:45 -02

A Copa do Mundo (e o apartheid social) do Brasil

Hoje as pessoas estão mais próximas de um celular de última geração que de seus direitos básicos.

Renato Spencer via Getty Images
RECIFE, BRAZIL - JUNE 24: Fans of Germany national team and German Football Federation (DFB) delegation during a visit at Grupo AdoleScER on June 24, 2014 in Recife, Brazil. (Photo by Renato Spencer/Getty Images)

Faça um breve exercício de memória: nos últimos dias, quantas vezes você leu, em seu Facebook, a palavra "elite" seguida de uma crítica voraz à "desigualdade social do Brasil"? Pois é... aparentemente a "Copa das Copas" evidenciou para o mundo (incluindo os próprios brasileiros, olha que coisa!) o nosso "apartheid social".

Por mais que o Brasil tenha melhorado nos últimos 20 anos (nos tornamos a sétima economia do mundo, não é mesmo?), nossa configuração social sofreu alterações apenas superficiais. Quer dizer, os mais ricos continuam muito mais ricos do que a soma da esmagadora maioria pobre. Claro, alguém pode falar: "Pô, Bibancos, mas a classe média cresceu... As pessoas estão consumindo"... Esse talvez seja o grande problema.

A nossa "justiça social" não se baseou num processo de empoderamento da "ascendente classe C". Pelo contrário, acreditou-se que a pirâmide social se transformaria apenas com o aumento do poder de consumo de quem, antes, simplesmente não tinha condições de consumir. O resto seria consequência... aconteceria automaticamente, quase por milagre.

Resultado: Hoje as pessoas estão mais próximas de um celular de última geração que de seus direitos básicos. Por mais que todos estejamos usando roupas parecidas, de marca, uns ainda não têm o direito de frequentar os lugares que os outros frequentam - como ilustrou brilhantemente a jornalista Eliane Brum na Folha de S.Paulo (clique aqui).

E, infelizmente, não é só isso. A "ascendente classe C" ainda mora a uma distância gigantesca dos grandes centros de poder. E continua horas e horas espremida em transportes públicos precários para chegar ao trabalho - e depois faz o mesmo para voltar pra casa. A "ascendente classe C" continua à margem das melhores instituições de ensino e ainda depende de um serviço público deficiente e catastrófico para ter acesso a seus direitos básicos. E por mais que ostentem aparelhos falsos nos dentes, ela ainda continua com dor de dente e poucas (quase nenhuma?) possibilidades de receber um tratamento odontológico de qualidade.

Com tudo isso, chega a ser engraçado as pessoas precisarem de uma Copa do Mundo, uma Olimpíada ou um Carnaval que seja (lembra da polêmica abadá de R$ 1.000 X pipoca?), para questionar o nosso apartheid social. A Copa nunca foi pra todo mundo... como, por aqui, os direitos não são pra todo mundo. E, sem esse papo chato de elite pra cá, elite pra cá, tudo continua como sempre esteve... só precisávamos olhar nos lugares certos.

Mas, enfim... o Brasil ainda tem chance na Copa. Vai Brasil!

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