OPINIÃO
30/01/2015 17:39 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Saídas de Tardelli, Goulart e Éverton Ribeiro mostram que seleção já não é mais objeto de desejo

Breno Peck/Flickr
É, não deu. Quem jogou melhor, ganhou. Les meilleurs ont gagné. Vous avez meritez la victoire! Bonne chance! *2010: não é irônico ver a França voltando mais cedo pra casa?

Jogar pela seleção brasileira sempre foi o objetivo de todo jogador de futebol que levasse a carreira minimamente a sério. Foi. Nos últimos anos, ser chamado para a seleção virou algo tão banal, que qualquer caneludo com um empresário bem relacionado e influente consegue ter seu nome incluído numa lista de convocados com facilidade.

Uma vez que esse objetivo é alcançado, a valorização acontece e o caminho para que o jogador consiga um contrato mais rentável para si e seus agentes fica muito mais fácil. A seleção, portanto, deixou de ser a finalidade e virou um simples meio de se valorizar jogadores medíocres e assim enriquecê-los e a seus interlocutores.

As saídas de Diego Tardelli e Ricardo Goulart para a China e do Éverton Ribeiro para os Emirados Árabes não deixam qualquer dúvida a respeito de qual é o real "sonho" dos caras. Atuando por Cruzeiro e Atlético-MG, eles foram os destaques principais dos seus times e do país nas duas últimas temporadas. Com a volta do Dunga à seleção, conseguiram a convocação. Tardelli, inclusive, vinha sendo titular ao lado de Neymar no ataque. Contudo, na primeira oportunidade que tiveram de embolsar uma boa grana para jogar do outro lado do planeta, onde nem com toda boa vontade e tecnologia do mundo poderão ser vistos em ação, mostraram o que é que os move de fato. O discurso de que esperam ainda ter chances mesmo escondidos em centros "alternativos" do futebol mundial não passa de farofada. Todo mundo sabe que isso não vai acontecer.

É legítimo um profissional querer ganhar mais pelos seus serviços. A questão aqui, no entanto, é perceber que a luta para se chegar à seleção, no fim, é motivada apenas pelo desejo de ficar (mais) rico. Tratam o que deveria ser a grande meta na vida de um jogador de futebol como um réles protocolo, o qual são obrigados a cumprir para que cheguem à sonhada ~independência financeira~. Brilhar com a camisa canarinha em uma Copa do Mundo? É, pode ser. Mas não é essa a prioridade, não.

Não podemos descartar, também, os fatores auto-crítica e bom senso dos envolvidos nessa história. Apesar do sucesso alcançado em solo doméstico, nenhum desses três jamais me empolgou. Para mim não foi surpresa alguma que tenham tomado os rumos que tomaram. São bons jogadores, sim. Mas bons jogadores dentro dessa realidade pobre que vivemos internamente já há um bom tempo. Se fossem bons de verdade, com certeza não estariam indo jogar na China e na Arábia.

O caso do Tardelli é até mais compreensível. Afinal de contas, trata-se de um jogador que já passou dos 30, não alimenta mais qualquer perspectiva de ainda jogar por um clube grande ou mesmo médio da Europa e sabe que o fato de ser titular do atual time do Dunga não significa nada, visto que a próxima Copa do Mundo é só lá em 2018, quando terá 34 anos. Jogar na China era mesmo a melhor opção para ele. Foi uma escolha racional e, ao meu ver, acertada.

Já os casos do Goulart, 23, e do Ribeiro, 25, são diferentes. A situação ali é bem outra. São dois jogadores jovens, que podiam esperar um pouco mais para terem a tal chance de suas vidas. Repito: cada um sabe de si e de quanto dinheiro precisa para viver a vida do jeito que acha que deve. Mas se é apenas pelo dinheiro que você joga futebol, então, meu amigo, tem algo muito errado contigo.

Mas não é só a vontade de encher os bolsos que faz com que nossos jogadores troquem a chance de brilhar com a ~Amarelinha~ por um contrato milionário num submundo futebolístico qualquer. O desprestígio e, principalmente, o descrédito no futebol brasileiro são totais. Qualquer um, hoje, joga na seleção e qualquer um pode ser destaque do Brasileirão, cujo nível técnico fica mais chinfrim a cada nova temporada. O balcão de negócios em que se transformaram as convocações para um monte de jogos absolutamente inúteis e interesseiros sequer é disfarçado. É assim desde antes de Leomar, só que de uns anos para cá os caras chutaram o balde de vez e fizeram daquilo um verdadeiro mercado de peixe. Por mais bobo que seja - e eles não são nadinha bobos -, o jogador, que vive tudo isso na pele dia após dia e sabe como ninguém como é que a banda toca, abraça a primeira boa oportunidade que aparece, porque entende que não vale a pena arriscar uma vida inteira de tranquilidade para servir a quem só pensa em se servir dele.

É esse o tipo de jogador que vem sendo formado aqui, aquele para quem o futebol é pura e simplesmente um meio para ganhar dinheiro e fama. Os princípios, paixões e demais emoções que o jogo envolve não têm a menor importância e sequer são levados em consideração na hora de se tomar alguma decisão. Tudo se resumirá na justificativa tão batida quanto barata do ~profissionalismo~. E conhecendo a fundo aqueles que estão acima dos jogadores, que são os verdadeiros responsáveis por esse cenário degradante, quem é que pode dizer que estão errados?

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