OPINIÃO
29/06/2015 13:45 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

O que 'O poderoso chefão' nos ensina sobre futebol

divulgação

Meu pai me deu o livro "O chefão" quando eu tinha 11 anos. Estava perdido em meio a um monte de outros livros e revistas, que ele separava para doar depois que minha mãe ameaçou jogar tudo fora para abrir espaço na estreita despensa do nosso pequeno apartamento. Limpou a poeira que cobria a capa branca e o rosto queichudo do Don Corleone, estendeu-o para mim e disse: "Toma, lê isso aqui. Depois que ler, nunca mais você vai precisar me perguntar como é que as coisas funcionam de verdade no mundo.".

Ao longo dos seguintes 29 anos da minha vida, aquilo que meu pai me disse foi fazendo cada vez mais sentido. O modus operandi destrinchado nas páginas do romance do Mario Puzo - e mais tarde no filme do Coppola - se verifica em praticamente todos os setores da sociedade e em qualquer canto do mundo. A diferença me parece estar apenas na intensidade com que isso é praticado. Países como o Brasil, mas não só ele, que têm um histórico de reconhecida fragilidade moral e frouxidão nas leis logicamente são mais suscetíveis às ações dessas máfias. Seus membros se sentem mais à vontade para atuar, pois sabem que estão protegidos por um sistema que, desde que bem pago, lhes é bastante favorável.

E como é que isso se constata no futebol brasileiro, que é o que mais nos interessa? Peguemos como exemplo o atual momento da seleção. Bom, sejamos honestos: tirando o Galvão Bueno, a Globo e quem mais tem na seleção brasileira um dos pilares da sua subsistência, ou investe nela para divulgar sua marca, quem mais tem dado a mínima para o que o time do Dunga faz ou deixa de fazer nos jogos que disputa? Quem é que ainda se importa com quem ele convoca ou deixa de convocar? Quem é que ainda se emociona, vibra, grita, perde a voz, chama os amigos para um churrasco em dia de jogo e se arrepia vendo a seleção? Sério, quem? E nem é de agora, convenhamos. A coisa se intensificou depois da Copa do Mundo, mas a real é que para boa parte dos brasileiros - pelo menos para aquela que gosta mesmo de futebol e o acompanha de perto - o ~escrete canarinho~ já não desperta grandes interesses há muito tempo. E esse é um problema que vai deixando de ser em relação apenas à seleção e passa a ser de todo o futebol do Brasil, que vê o torcedor cada vez mais afastado e menos envolvido. Os mais novos, então, nem se fala.

Muito tempo e grana alta foram investidos na propagação da idéia de que eram absurdas as alegações de quem afirmava que o futuro do futebol brasileiro se anunciava tenebroso. Tinha gente muito boa falando disso bem lá atrás. A minoria, verdade seja dita, na chamada mídia especializada tradicional. Mas mesmo lá já havia quem avisasse que o bicho era bem mais feio do que alguns diziam ser. Contudo, tamanha competência para manter as aparências só foi possível graças a uma forcinha providencial de alguns importantes "amigos", em especial os da política ("bancada da bola"), e da imprensa, via Globo, principalmente, que ao longo da história sempre se posicionou muito mais como aliada do status quo do que como sua crítica ou contestadora. Nem poderia ser diferente, visto que ela é parceira comercial da CBF e principal financiadora do futebol nacional. Como qualquer outra empresa que tem ou banca um produto, a Globo faz de tudo para vender o seu como sendo o melhor que existe no mercado, o último biscoito do pacote. É preciso convencer as pessoas de que ele é, independentemente de isso ser ou não verdadeiro. Talvez ela entenda ser mais fácil e menos caro agir dessa forma do que tentar melhorar o tal produto.

Os políticos são a outra engrenagem que faz essa máquina (não) funcionar. Graças também a eles, vai ser preciso bem mais do que um 7 a 1 e uma eliminaçãozinha para o Paraguai para que os caras larguem o osso.

Por enquanto, apesar de alguns tremores, as bases por aqui seguem mantidas. Enquanto for assim, todo o sistema vai operar da maneira como sempre operou. É máfia! M-Á-F-I-A. Eles exploram, monopolizam, se mancomunam com outros poderosos, vendem proteção contra eles mesmos, se revezam e se perpetuam nos cargos, formam grupinhos, favorecem os amigos... enfim, fazem tudo conforme reza a cartilha mais básica e antiga da cosa nostra. Já passou da hora de a gente parar de ter receio de usar as palavras certas. Passou da hora de tratarmos essa gente como gângsters, pois é isso que eles e todos os que com eles se juntam são.