OPINIÃO
30/03/2015 12:24 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

O que Firmino nos ensina sobre futebol no Brasil

Por que Firmino precisou aparecer tão longe de casa? A resposta a essa pergunta é tão simples quanto preocupante: porque os clubes brasileiros, salvo em casos cada vez mais raros, não estão empenhados em formar jogadores, mas sim em vendê-los. A necessidade de fazer caixa se sobrepõe ao planejamento e, principalmente, ao bom senso, o qual, se existisse, faria com que os clubes mantivessem esses jogadores por mais alguns anos aqui e os vendessem por valores semelhantes ao que passam a valer após uma ou duas temporadas na Europa.

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Roberto Firmino, nascido em Maceió há 23 anos, apareceu para o futebol em 2009, quando disputou a Série B do Brasileiro pelo Figueirense e ajudou o time a subir para a Série A. Cerca de um ano depois, foi contratado pelo TSV Hoffenheim, clube minúsculo da Alemanha, que já há alguns anos está consolidado na primeira divisão daquele país, a qual disputa sem grandes ambições, porém também sem correr riscos de reabaixamento. Fica sempre ali pelo meio da tabela.

Não demorou muito pra que o alagoano começasse a mostrar aos alemães que a aposta feita por eles tinha sido acertada. Mas foi só na temporada 2013-2014 que o futebol de Firmino explodiu de vez na terra do salsichão. Os 16 gols e as 12 assistências naquela temporada lhe renderam o prêmio de melhor jogador estrangeiro da Bundesliga, um novo contrato e, no fim do ano, a primeira chance na Seleção. Justificando a fama de aproveitar bem as oportunidades que a vida dá, entrou no segundo tempo de um jogo complicado contra a Áustria e fez o gol que garantiu a vitória do time do Dunga. Um gol muito bonito, diga-se de passagem.

A atual temporada de Firmino na Alemanha está sendo um pouco mais modesta do que a anterior, é cerdade. O que não quer dizer, entretanto, que ele está mal. Mas a questão que gostaria de levantar aqui, é: por que Firmino precisou aparecer tão longe de casa? A resposta a essa pergunta é tão simples quanto preocupante: porque os clubes brasileiros, salvo em casos cada vez mais raros, não estão empenhados em formar jogadores, mas sim em vendê-los. A necessidade de fazer caixa se sobrepõe ao planejamento e, principalmente, ao bom senso, o qual, se existisse, faria com que os clubes mantivessem esses jogadores por mais alguns anos aqui e os vendessem por valores semelhantes ao que passam a valer após uma ou duas temporadas na Europa. Perder esses talentos para os europeus é coisa que a gente não tem muito como evitar. Todo mundo quer ir jogar lá. Mas é possível, sim, evitar que essa saída seja tão precoce quanto tem sido nos últimos anos e que se pague tão pouco por elas.

Notem também que tem caído ano após ano a idade média dos jogadores que saem do País. Se até o começo deste século a maior parte deles ia embora ali pelos 20 e poucos, agora vê-se que o interesse dos europeus se limita aos que sequer chegaram aos 20. Não é por acaso. Há um consenso entre os times de lá de que o Brasil forma muito mal seus jogadores, permitindo que cheguem ao profissional com uma série de defeitos, carências e vícios, os quais passam a ser muito mais difícies de serem consertados depois de certo tempo. Quando a gente olha para um Paulo Henrique Ganso, por exemplo, e constata que ele está pelo menos uns 30 anos atrasado em relação ao que o futebol de hoje exige, começa a entender melhor as razões dos gringos. Por fim, tem ainda a questão da adaptação ao novo país. Quanto mais cedo saírem, maiores as chances de sobreviverem às "crises" do feijão preto e da falta de pagode e de ultrapassarem a barreira do idioma.

O exemplo do Firmino há muito que já deixou de ser novidade. Na Seleção, além dele, ainda temos David Luiz, Gabriel Paulista, Filipe Luis, Luiz Gustavo, Fabinho e Marquinhos. Isso para ficar somente nesses de quem a gente nunca tinha ouvido falar até que aparecessem numa convocação. Mas ainda tem os que apareceram e seis meses depois já estavam indo embora, como Phillippe Coutinho, Marcelo, Willian e Douglas Costa. Entre os que jogaram a Copa, vale ainda lembrar do Dante, do Daniel Alves e do Hulk. Todos esses estão aí para provar que o problema da falta de ídolos e até de bons jogadores atuando dentro do País não está ligado ao fato de não produzirmos mais esses bons talentos. O que não temos tido é competência, paciência e também uma boa dose de vergonha na cara para mantê-los aqui por mais algum tempo. E o que mais me deixa indignado é saber que vendemos esses meninos a preço de banana na feira e pagamos salários milionários a jogadores sem a mesma qualidade e/ou já na reta final de suas carreiras.

Quem é que pode sair ganhando numa operação que envolve vender barato o que se tem de melhor e comprar caro o que é inferior? É claro que tem gente levando alguma vantagem nessa brincadeira. Não é o tocedor, não são os clubes, muito menos é o futebol do Brasil. Mas que alguém está tirando uma baba nessa história, isso é certo. E aí voltamos àquele ponto comum a qualquer discussão que envolve o caráter do brasileiro, um ser que traz o apreço e a vocação para o errado, o desonesto e o antiético no seu DNA.

Os problemas que vemos no futebol em nada se diferem daqueles que vemos em praticamente todos os outros setores da nossa sociedade, que parece ser dividida entre corruptores e corrompíveis. A mim me parece meio óbvio que nada vai mudar enquanto não forem mudadas essas práticas e, mais importante, essa cultura. Mas como nem à distância se consegue enxergar algum sinal de que essas mudanças estão para ocorrer, é melhor a gente se convencer logo de que vai ter que ficar cada vez mais ligado no que rola na Alemanha, Espanha, Inglaterra, França, Portugal, Itália e até na Ucrânia se quiser ver o que o futebol brasileiro de fato tem produzido de bom.