OPINIÃO
12/02/2015 18:05 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:53 -02

O lobo do Jabour: quem é o brasileiro que quer dominar o futebol nos EUA?

divulgação/facebook

O meio do futebol e as pessoas que o acompanham mais de perto começam a se familiarizar com um nome, o qual há mais ou menos um ano passou a ocupar espaço considerável na mídia especializada. Trata-se de Flávio Augusto da Silva, empresário dono - detém 87% das ações - do Orlando City Soccer Club, time da Liga Americana de futebol, a MLS, mais conhecido por aqui como o novo time do Kaká.

Flávio Augusto é o mais perto a que o Brasil já chegou de ter o seu Jordan Belfort, personagem vivido recentemente no cinema pelo Leonardo de Almeida DiCaprio, que nem ganhou o Oscar. Se Belfort foi o Lobo de Wall Street, Flávio Augusto é o Lobo do Jabour.

O Jabour, pra quem não conhece, é uma espécie de sub-bairro de Senador Camará, que fica pros lados de Bangu e Campo Grande, zona oeste do Rio. O local tem fama de ser barra pesada. Ali a galinha cisca pra frente, meu amigo. Não é lugar pra amadores. Os territórios que ainda não foram tomados por milicianos são dominados por traficantes. Quem cresce no Jabour aprende desde muito cedo que a vida é dura. E também não demora a descobrir que o melhor que pode lhe acontecer é sair logo de lá.

Aprender as coisas cedo talvez seja a maior virtude do Flávio, que montou seu primeiro empreendimento, a escola de inglês Wise Up, aos 20 e poucos anos, usando o cheque especial da esposa, Luciana, com quem é casado até hoje e tem três filhos. A idéia surgiu pouco depois de começar a trabalhar numa escola que tinha proposta parecida.

A história do cheque especial, aliás, era uma das duas sobre a trajetória do Flávio e da Wise Up que a gente mais ouvia. A outra era a da primeira reunião que ele deu pra uma meia-dúzia de abnegados que toparam ouvir as idéias daquele garoto com cara de rato, que de cima de um latão de tinta Suvinil, vestido com terno e gravata baratos, batia no peito e prometia que todos ali dentro ficariam ricos vendendo curso de inglês em 18 meses pra pessoas com pressa de aprender o idioma. Só o que tinham de fazer era acreditar nele e o seguir no matter what. Nunca soube se essas histórias eram mesmo verdadeiras, ou se eram enredos construídos pra dar uma incrementada no barato, tipo sucos Do Bem e sorvetes Diletto. As duas, contudo, eram repetidas tantas e tantas vezes, que, se não eram reais, passaram a ser.

Comprar o discurso do Flávio era tão fácil quanto assinar um contrato no fim de uma "entrevista", processo pelo qual o "candidato a aluno" passava antes de ser "aprovado pra uma vaga" no curso. Reuniões eram realizadas todas as manhãs e quem as dava costumava caprichar no tom motivacional/pentecostal da parada. Lembravam muito aquilo que o Zé Roberto fez antes da estréia do Palmeiras no Paulistão desse ano.

As tais entrevistas não eram muito diferentes das reuniões. Ambas apelavam fortemente pro emocional de quem se submetia a elas. Dava certo por um tempo, mas maioria "quebrava" assim que as primeiras dificuldades apareciam. Do mesmo jeito que havia alunos que ficavam pelo meio do caminho por não gostarem do método, ou por falta de tempo, ou de grana, pra gente os maiores problemas eram os "não" seguidos, os esporros que tomávamos por não termos batido as metas e a pressão que tudo isso gera. Os gerentes comerciais, no nosso caso, e os operacionais, no caso dos alunos, precisavam ser tão bons em vender de novo quanto eram em vender. Era preciso "reverter" o sujeito. Quando não dava, era a derrota suprema. Você, teu chefe, o chefe do teu chefe e quem mais estivesse ligado direta ou indiretamente àquele revés iam pagar o pato.

As reuniões podiam ser bem pesadas, às vezes. Mas a maioria era até bem engraçada. Uma vez, o vice-presidente do grupo, um tal Mário de Almeida Magalhães, sujeito com cuja a cara eu não ia de jeito nenhum, assumiu nossa equipe, que vinha mal das pernas. Após mais um dia em que ninguém arrumou nada, o Mário entrou na sala de reunião aparentando um bom humor nada espontâneo, deu bom dia a todos e então virou-se pra um dos gerentes, que estava sentado em frente a ele, na primeira fila, fitou-o bem dentro dos olhos, e, sorrindo, perguntou se estava tudo bem. Fazia séculos que aquele cara não matriculava ninguém. Era a imagem da derrota. Gente das outras equipes do Brasil inteiro ligava pra zoar o coitado. Até trainees tiravam sarro do homem. Ele e todo mundo ali naquela sala sabiam que tinha coisa muito perversa escondida atrás daquele sorriso falso. Quase que sem conseguir emitir som, ele finalmente respondeu que sim, que estava bem. Aí o Mário emendou, dessa vez falando alto, a voz rouca já assumindo o tom arrogante que lhe era tão comum: "Mas tá bem como, meu querido? Bem como, me diz? Tá bem, bem, mesmo, ou tá que nem o cara lá que fez o Super-Homem?".

Como sabem, o ator Cristopher Reeve, famoso por interpretar o Superman no cinema, ficou paraplégico depois de cair de um cavalo e quebrar a espinha, mas sempre que aparecia na mídia procurava mostrar que estava numa boa. Cerca de 20 pessoas gargalharam às custas do pobre do gerente por uns bons 5 minutos. Depois disso, foi patada pra cima de todo mundo até o final da reunião.

O Flávio não ia muito por esse lado, não. Quando Mário e ele estavam juntos, era seu o papel do "policial bom", aquele que se faz de amigo do suspeito, enquanto o outro é o que ameaça dar tapão no ouvido, bota a arma na cabeça e baba em cima de você feito cachorro raivoso. Entretanto, o objetivo de ambos era exatamento o mesmo: convencer você a se entregar, ou, nesse caso, fazer matrículas.

Meu primeiro contato pessoal com ele foi durante um café da manhã no Hotel Guanabara, no Centro do Rio. Ele estava acompanhado do diretor pedagógico da escola, Sérgio Barreto, o cara mais criativo que já conheci no mercado e o "pai" do método Wise Up. O convite pro café veio depois de algumas semanas em que matriculei feito louco, tendo, inclusive, estabelecido umas marcas que demoraram um bom tempo pra serem batidas. Quando voltei pra firma, em 2006, descobri que minha primeira passagem ainda servia de tema pra várias reuniões, tanto as que falavam de quem tinha dado certo na empresa quanto as que falavam de quem não tinha.

Apesar de os discursos motivacionais de que o Flávio gosta tanto nunca terem surtido grandes efeitos em mim, ainda assim o admirava e o respeitava pela sua ousadia, sua capacidade de farejar bons negócios e sua incrível habilidade pra liderar pessoas. Depois de construir um verdadeiro império no mercado de idiomas sem falar nenhum outro além do seu próprio, ele agora se aventura no futebol sem jamais ter chutado uma bola. Assim como percebeu rápido que os brasileiros não queriam mais passar 10 anos de suas vidas pra aprender inglês, notou que o interesse pelo jogo mais popular da Terra nos Estados Unidos é crescente e é cada vez maior o número de crianças, grande parte delas filhas de imigrantes latinos, africanos, europeus, árabes e até coreanos e japoneses, povos apaixonados pelo soccer/, batendo pelada nas escolas, universidades e parques espalhados pelo país.

Estratégico, planejador e com senso apurado como só ele consegue ter, certamente também levou em consideração o aumento vertiginoso da audiência dos jogos transmitidos pela TV, a força da indústria americana do esporte e do entretenimento e a capacidade absurda que aquela gente tem pra transformar qualquer coisa num grande e lucrativo negócio. Um cenário que ele próprio já reconheceu não haver no Brasil e que por isso não tem a menor intenção de investir em futebol por aqui, no que faz muito bem.

Lá, sim, é a terra dos Flávio Augustos. Ele e outros como ele não apenas se deram conta do potencial que o país tem, como já estão dando vida àquele que dentro de alguns anos deverá ser um dos 3 centros mais importantes do futebol mundial e destino certo de técnicos renomados e jogadores com bagagem internacional, os quais chegarão lá no auge de suas carreiras e não mais no fim delas, como agora. Não se trata de algo que pode vir a acontecer. Já está acontecendo. E o "lobo", mais uma vez, se ligou nisso antes de qualquer outro.

As coincidências com a personagem interpretada pelo menino Leo param por aí. Enquanto Belfort mantinha um estilo de vida nada convencional, Flávio Augusto, mantém a fama de ser um muito bom marido e pai de família. No tempo em que fiquei na Wise Up, jamais soube de qualquer coisa que desmentisse essa fama. Nenhuma fofoquinha sobre cantada em estagiária, secretária, tia do café... nada! Em todos os outros trabalhos que tive, sempre rolava uma conversa ou outra sobre supostas traquinagens e derrapadas dos chefes. Do Flávio, nunca.

Pro meu gosto pessoal, confesso ser mais afeito ao jeito Jordan Belfort de ser. Cada um a seu modo, porém, ambos chegaram ao topo e escreveram histórias que serão contadas por muito e muito tempo e influenciarão gerações de executivos, empresários e empreendedores. Só torço pra que a do Flávio, se virar filme um dia, também seja pelas mãos de um Scorsese da vida, e não de um Daniel Filho, Toniko Melo Mauro Lima ou qualquer outro desses cineastas brasileiros com habilidade ímpar pra estragar a biografia de qualquer um, não importando o quão incrível ela seja. Que o diga o mestre Tim Maia.