OPINIÃO
16/03/2015 14:07 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Em meio a tanto protesto, faltou foco no que de fato importava

BRUNO DE LIMA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

O domingo foi marcado pelos protestos contra tudo que está aí. Liderados por Wanessa de Almeida Camargo, Lobão, Luciano de Almeida Huck, moleque Caio Castro e família Bolsonaro, coxinhas de todo o país foram às ruas vestindo suas camisas da seleção do 7 a 1, brasão da CBF no peito, e, entoando cânticos de "sou brasileiro com muito orgulho e muito amor", bateram em panelas que eram carregadas por suas empregadas e babás e exigiram um basta nessa sacanagem generalizada que a Globo mostra no Jornal Nacional todos os dias. A paciência da galera que adora um pau de selfie e não dispensa umas comprinhas em Miami com o PT e a presidente Gilma parece ter ido de vez pras cucuias. Eu, que tô que nem o vice-governador da Bahia, caguei e andei pra histeria coletiva da turminha do sapatênis e da camisa pólo de brasão aveludado e preferi me concentrar no que de fato teve importância no fim de semana: a atuação de Marcelo Cirino diante do Tigres do Brasil.

Marcelo de Almeida Cirino nasceu em Maringá, interior do Paraná, há 23 anos. Revelado pelo Atlético Paranaense, onde apareceu com destaque na ótima campanha que o clube fez no Brasileiro (3º colocado) e na Copa do Brasil (vice-campeão) em 2013. Depois de um 2014 não tão bom assim, desembarcou no Rio no início desse ano pra jogar no Flamengo. Vários, eu incluso, apontam-no como a grande contratação da temporada. Seus oito gols e a artilharia isolada no atual Carioquinha dão alguma sustentação a essa tese. Mas é só alguma, mesmo.

Apesar dos gols e das boas partidas, é muito cedo pra tirar qualquer conclusão a respeito do garoto. A verdade é que esses jogos de estaduais, com exceção dos clássicos - o Fla jogou apenas 1 até agora, contra o Botafogo (1 a 0 pro Bota), e Cirino não foi bem -, não servem pra gente avaliar coisíssima alguma. A não ser quando algum time ou jogador vai muito mal. Porque ir mal contra esse bando de mortos de fome, sim, é sinal de que tem coisa bastante errada acontecendo. Ir bem, invariavelmente, não é mais do que mera obrigação.

Entendam que não estou sendo injusto, tampouco quero parecer ser exigente demais. Cirino é bom jogador. Acontece que é mesmo impossível medir a real capacidade de alguém pelo desempenho que esse alguém tem diante de adversários tão miseravelmente ruins quanto esses que disputam o Euricão. Porém reconheço que o rapaz tem feito sua parte. E o faz muito bem, diga-se.

Se as boas atuações não iludem, sua aplicação, a seriedade com que joga, seu vigor físico, sua velocidade e sua disposição singular de querer evoluir, algo que vem demonstrando desde o primeiro dia no clube, chamam a atenção. Pode até ser que daqui a três ou quatro meses a coisa mude de figura. Até aqui, porém, ele tem tido uma conduta quase que incompatível com a de vários outros jogadores da mesma faixa etária em atividade no Brasil. O Flamengo mesmo se cansou de ver promessas até bem menos badaladas se perderem por muito menos. Estão aí Negueba, Diego Maurício, Matheus, Thomás, Adryan, Fabiano Oliveira, Vinícius Pacheco, Rafinha e tantos outros mais pra comprovar o que digo. A diferença entre todos esses e Cirino, é que só o atual camisa 7 não foi feito na Gávea. Ao que parece, isso é um bom sinal.

Não desprezo os números do Marcelo. Apenas acho que são menos simbólicos do que as demonstrações que ele vem dando de ser um cara 100% comprometido em se tornar um jogador de ponta. Ele não parece ter entrado no futebol só pra ficar rico e famoso. Ao contrário de muitos dos seus colegas de geração, talvez até a maior parte deles, parece entender que essas são conseqüências do seu trabalho e não a finalidade dele. E isso é ótimo!

Se quiser se firmar e se afirmar, o novo candidato a ídolo dos Rubro-Negros vai ter que repetir em jogos contra grandes o que tem feito contra pequenos. Após a derrota e a atuação meia-boca diante do Botafogo, no domingo que vem ele terá outra chance de se provar num clássico, dessa vez contra o Vasco, líder e único invicto no campeonato. Que melhor oportunidade pode haver pra mostrar que estão no caminho certo os que apostam que ele estará entre os grandes nomes do futebol brasileiro no final de 2015? O começo tem sido promissor. Mas a hora da verdade ainda não chegou. Portanto, meu caro rubro-negro,é melhor conter sua euforia.