OPINIÃO
18/01/2015 12:10 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Briga pelo jogador Dudu expõe todo o amadorismo dos dirigentes do futebol brasileiro

Analisados os dados, concluímos que as motivações para a contratação do Dudu não foram somente esportivas. De novo assistimos aos empresários darem uma aula sobre como arrancar mais dinheiro dos cofres para lá de vazios dos nossos endividados clubes se aproveitando do amadorismo daqueles que os dirigem.

Corinthians e São Paulo travavam um duelo sangrento nos bastidores para ver quem iria ficar com Dudu, a jovem promessa e um dos destaques do Grêmio no ano passado. Depois de semanas de arrastadas negociações com os dois lados e também com o Dynamo de Kiev, clube que até então detinha os direitos do jogador, o martelo foi batido no último domingo: Dudu vai jogar no Palmeiras.

O Verdão ganhou a parada sem fazer alarde. Deu uma de João-sem-braço o tempo todo, se fez de morto e, correndo por fora, deu um "belíssimo chapéu", como classificou Valdívia pelo Twitter logo após o anúncio da contratação, nos dois rivais e levou o moleque para a Acedemia.

No decorrer da novela, Dudu chegou a declarar publicamente, que sua vontade era de ir para o Corinthians. Aquilo deixou o SPFC irado. O clube se pronunciou e disse que estava fora da disputa. Mas não demorou a retornar a ela. Mesmo preterido, voltou à carga assim que se soube que as negociações com o Corinthians emperraram. O presidente corintiano, Mário de Almeida Gobbi, logo comunicou, de forma oficial, que o Timão saía do páreo. O motivo? Os altos valores envolvidos na transação. Segundo Gobbi, cujo mandato está prestes a acabar - as eleições estão marcadas para 7 de fevereiro -, sua prioridade é acertar as pendências que o clube tem com jogadores e demais funcionários antes de passar a caneta ao sucessor.

Novela terminada, destinos selados, fica a pergunta: Afinal de contas, esse tal de Dudu vale tanto a pena assim?

É claro que só com o passar do tempo e os jogos é que a gente vai poder dizer se foi um bom ou mau negócio. Fato é que o garoto é bom jogador, jovem e fez uma temporada satisfatória no ano passado. Tudo isso o credenciaria para vestir qualquer uma das 3 camisas. O que estranha é a novela em que se transformou a negociação, que muito lembrou aquela do início de 2011, envolvendo Ronaldinho Gaúcho, Flamengo, Grêmio e o próprio Palmeiras.

A impressão que a gente tem é a de que não foram exatamente os números do jogador que o fizeram ser tão cobiçado por três gigantes do futebol brasileiro. Tomando como base apenas as estatísticas, o frenesi do trio de ferro paulistano é injustificável, para dizer o mínimo. Confere aí embaixo os dados do Dudu no Brasileirão passado:

Fonte: Footstats

Se compararmos o desempenho dele ao do Marcelo de Almeida Cirino, recém contratado pelo Flamengo junto ao Atlético Paranaense e que tem a mesma idade do novo meia palmeirense, logo vemos, que, à luz fria das estatísticas, o Rubro-Negro fez um negócio com possibilidades de sucesso idênticas, porém investindo menos e sem ter precisado se envolver numa negociação de folhetim. Se liga nos números:

Fonte: Footstats

Analisados os dados, concluímos que as motivações para a contratação do Dudu não foram somente esportivas. De novo assistimos aos empresários darem uma aula sobre como arrancar mais dinheiro dos cofres para lá de vazios dos nossos endividados clubes se aproveitando do amadorismo daqueles que os dirigem. Pior: nesse caso, especificamente, ainda acharam tempo para tirar um sarro da cara de corintianos e são-paulinos, mostrando que não só não possuem qualquer ligação sentimental com esse ou aquele, mas que também se sentem poderosos o bastante para desdenhar e tripudiar de quem quer que seja. E o fazem tranquilamente, pois sabem que são eles, hoje, o elo mais forte dessa corrente. Podem pintar e bordar, que sempre vai haver um presidente, gerente de futebol, CEO ou seja lá qual for o nome que derem ao cara que vai bater à porta desses empresários com o pires na mão e implorar por jogadores e até mesmo por um empréstimo para resolver pendências mais urgentes. Acontece o tempo todo. Eles, os agentes, é que são os verdadeiros donos do negócio. São eles que determinam os rumos das conversas e têm as rédeas nas mãos. E todos têm total consciência disso.

Em vez de se juntarem para dar um fim a essa bandalheira e colocar as coisas nos seus devidos lugares, o que fazem nossos dirigentes? Tal e qual moleques na hora do recreio, brigam por coisas pequenas, permitindo que a vaidade, o clubismo e o orgulho entrem nas negociações.

Levam tudo para o lado pessoal, transformando o que deveria ser um ato profissional como outro qualquer em questão de vida ou morte, alimentando a rivalidade de uma maneira estúpida e elevando ainda mais a já alta tensão entre as torcidas, pois transferem para um terreno completamente equivocado uma situação que deveria existir apenas nas arquibancadas e dentro de campo. Não pensam em nada, só em "dar um chapéu" no rival. Que se dane quanto isso irá custar! Não importa se as chances de o jogador dar certo são grandes ou pequenas, nem se ele quer mesmo atuar pelo clube. Só o que importa é ganhar do outro, levar vantagem, dar uma satisfação para torcida e coisas do tipo. Burros e irresponsáveis, é tudo o que são. Enquanto isso, do outro lado, empresários e seus clientes, os atletas, riem à toa vendo a conta bancária crescer a cada nova nova novela que se encerra.

Os casos de boa gestão esportiva no Brasil, principalmente no futebol, são raros e dependem única e exclusivamente da vontade individual de cada gestor. Não existe uma unidade de trabalho.

O sentido de coletividade é zero. Não se caminha junto, nem se rema para o mesmo lado. É cada um por si. E, sempre que possível, é recomendado "pernar" alguém, pois em algum momento vão fazer o mesmo contigo. Outra vez mais o futebol retrata com competência a face mais sinistra de ser brasileiro.

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