OPINIÃO
01/06/2015 11:26 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

A verdadeira superquarta do futebol

YASUYOSHI CHIBA via Getty Images
A man reads front pages of newspapers at a kiosk showing FIFA officials arrests including former president of the Brazilian Football Confederation (CBF) and current member of the FIFA's organizing committee for the Olympic football tournaments, Jose Maria Marin, accused of corruption yesterday in Rio de Janeiro, Brazil, on May 28, 2015. AFP PHOTO / YASUYOSHI CHIBA (Photo credit should read YASUYOSHI CHIBA/AFP/Getty Images)

Já virou clichê. Basta que uma quarta-feira seja recheada de jogos - e nem precisa que sejam tão importantes assim - pra que narradores, comentaristas, repórteres e apresentadores esportivos acrescentem o prefixo "super" a ela. Poucas vezes, porém, a expressão que dá título a este texto fez tanto sentido quanto na semana passada, quando alguns altos dirigentes da Fifa, dentre eles o ex-presidente e atual primeiro vice-presidente da CBF, José Maria Marin, foram presos na Suíça em ação deflagrada pelo FBI e a polícia daquele país.

Internamente, não me recordo de quando foi a última vez em que se viu tanta comoção e felicidade sendo proporcionadas pelo futebol. Mas não foi só no Brasil, não. Contudo, é certo que aqui na Propinolândia as comemorações e a repercussão dessa operação foram bem mais efusivas do que em outros cantos. Também não era pra menos, né? Olha quanto tempo se passou até que finalmente alguém pusesse as mãos em gente que há mais de quatro décadas vem fazendo mal a milhares, roubando medalha de jogador junior e até surrupiando energia elétrica por meio de "gato" instalado na casa do vizinho.

O fato de tudo ter se dado bem longe de Roubalhópolis não serviu pra diminuir a euforia popular. Tampouco surpreendeu. Já estamos pra lá de acostumados a ver essa turma pintar o sete, sambar nas nossas caras, rir às nossas custas e sair livre, leve, solta e toda serelepe por aí. No fundo, no fundo, ninguém esperava que alguma coisa que partisse daqui pudesse de fato afetá-los, O Brasil é um paraíso para canalhas, calhordas, bandidos, mafiosos e larápios do mundo inteiro desde os tempos de Cabral. E não é muito diferente na vizinhança. De Ronald Biggs a Cesare Battisti, passando ainda por Josef Mengele e Pasquale Scotti, o País sempre foi um porto seguro pra esses caras. Não só não temos a capacidade de cuidar do nosso lixo, como ainda topamos numa boa receber o dos outros.

Também não apareceu ninguém pra questionar as reais intenções dos estadunidenses. Pra imensa maioria, seja lá quais tenham sido os motivos que os levaram a agir, apesar do quase nenhum interesse deles pelo esporte em questão, certamente eles se justificam. Por mais questionáveis que possam ser as motivações ianques, existe um consenso de que nada pode ser pior do que o que temos hoje. E há razões de sobra pra pensarmos assim. Uma ação que leva à cadeia os membros dessa quadrilha e os afaste em definitivo do futebol, mesmo que motivada por algo que ainda desconhecemos, já é melhor do que ação nenhuma.

A farra desses velhos babões e ladrões simplesmente precisa parar. Mas não pode ficar só nisso. É essa a promessa dos líderes da operação, os quais garantem que a brincadeira está apenas começando.

Já sofri um bocado nas mãos desses malditos. Foi tanta coisa, que não tive outra escolha e precisei me afastar provisoriamente do futebol por não conseguir trabalho, pois quem poderia me contratar ficava sempre com o receio de que minhas posições e opiniões pudessem afugentar possíveis patrocinadores, prejudicando assim o bom andamento dos "negócios". Agora renovo minhas esperanças em dias melhores pro esporte que amo e ao qual venho dedicando uma parte considerável da minha vida já há uns bons anos. Entretanto, não tenho a ilusão de que a faxina será completa, nem que o futebol ficará definitivamente livre da corrupção, da roubalheira e das sacanagens, pois enquanto houver dinheiro - e tem muita grana envolvida nessa parada - haverá sempre o risco de tudo isso voltar a acontecer.

É preciso que os autores ao menos sintam que não estão mais tão à vontade pra agir como bem entendem e que, caso apanhados, sofrerão as pesadas conseqüências. Quando a casa cair, não vai ser retirando o nome de um dos safados da fachada de um prédio que se conseguirá varrer a sujeira pra debaixo do tapete. A hora não é de pisar no freio, mas sim de acelerar ainda mais e passar o carro com tudo em cima da canalhada, estejam eles onde estiverem, sejam eles quem forem. A cartolagem nunca esteve tão fragilizada e cambaleante quanto agora. E como diria minha avó, exímia exterminadora de bichos de peçonha, cobra não se aleija, mata-se. De preferência, cortando a cabeça, que é pra ter certeza de que não vai mais dar trabalho.

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