OPINIÃO
10/02/2016 17:17 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Quarta do blues-rock com lançamento do primeiro álbum do Mescalines Duo

Ciganos, índios sul-americanos, povos nômades e xamãs se materializam como referências constantes quando eles falam sobre as inspirações para as músicas. Assim como o próprio som da terra, traduzido em tons mais graves no álbum. "É um disco impressionista", resumem. "A magia está no som."

Davilyn Dourado/ Divulgação

São Paulo é uma cidade multitom, realmente. Se nos últimos dias ela foi o cenário para um número recorde de blocos de Carnaval, nesta quarta de cinzas recebe o lançamento de um expressivo álbum de blues-rock instrumental. Depois de uma série de shows hipnóticos pela cidade, de pequenas casas a ocupações culturais passando por festivais na rua, o Mescalines Duo lança hoje nas plataformas digitais o seu registro de estreia, Serpente de Bronze. E no próximo sábado, 13 de fevereiro, eles apresentam o CD no charmoso Estúdio Lâmina, no centro de São Paulo, às 22h. Quem compra o ingresso de R$ 20 ganha o disco.

Tão abstrata quanto apenas a música instrumental pode ser, a coleção de faixas de Serpente de Bronze tem o poder de transportar para longe, evocando relações telúricas e de paisagens erráticas através de diferentes afinações de guitarra, efeitos trêmulos, doses maciças de slide e batidas poderosas. Na cartela dinâmica de sons do duo, o resgate de raízes do blues dança pela faixa-título, enquanto na segunda música "Solaris" a vocação rocker dá as caras através de riffs vigorosos emoldurados por batidas cheias de punch e viradas energéticas. Já "Pássaro Vermelho I" vai crescendo de blues tranquilo até explodir em uma experimentação de notas e efeitos, criando uma tessitura de reverberações. Uma aventura de timbres marca também a bela "Barko", com ecos de violino pelo uso de um arco no toque da guitarra.

Há algo de mântrico e de primitivo que soa como refresco no cenário atual de superproduções do mainstream e refrões tediosos calculados para grudar no córtex cerebral. A música volta a ser o centro, por mais que isso possa soar redundante. O que foi reforçado pela preocupação em manter a alta frequência de energia que rola nos shows, onde o improviso é a principal fundação. Eles gravaram ao vivo, em apenas cinco horas, no trabalho registrado e mixado por Tomás Oliveira no Estúdio Gerência. Apenas duas ou três músicas não saíram do primeiro take.

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Foi nas encruzilhadas do concreto paulistano que o guitarrista gaúcho Jack Rubens e o baterista baiano Mariô Onofre se encontraram e formaram o Mescalines Duo, em meio a outros projetos musicais paralelos. Tentaram até tocar com alguns baixistas, mas o roçar em uma certa sonoridade pop os levou a adotar de vez a formação enxuta que privilegia o improviso e a experimentação. O que acaba por ser um trunfo sonoro.

"A gravação é crua", fala Rubens, usando um de seus chapéus estilosos, marca registrada em figurinos repletos de veludo, coletes e bordados. Apesar de sua impressionante coleção de violões elétricos antigos, bandolins e guitarras, para essa gravação ele optou por usar apenas uma guitarra Harmony, originária de Memphis e no combate musical há 50 anos. "Já estávamos tocando essas músicas por aí há algum tempo, então elas estavam enraizadas", completa Mariô, que costuma mesclar couro e paletós em um visual que acaba por ressaltar os cabelos black eletrizantes.

Ciganos, índios sul-americanos, povos nômades e xamãs se materializam como referências constantes quando eles falam sobre as inspirações para as músicas. Assim como o próprio som da terra, traduzido em tons mais graves no álbum. "É um disco impressionista", resumem. "A magia está no som."

Deixe-se contaminar e viaje por esse registro, em uma transmutação das cinzas. O álbum também está disponível no Soundcloud do duo, ouça aqui na íntegra.