OPINIÃO
31/10/2014 09:17 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

O Terno, em dois tempos

O trio paulistano "O Terno" costura o presente e o passado musical usando uma agulha afiada. Lançado recentemente, o segundo álbum que leva o nome da banda e traz 12 músicas autorais impressiona pela criatividade, letras expressivas, nuances de timbres e atmosferas sonoras.

Diivulgação

O trio paulistano "O Terno" costura o presente e o passado musical usando uma agulha afiada. Lançado recentemente, o segundo álbum que leva o nome da banda e traz 12 músicas autorais impressiona pela criatividade, letras expressivas, nuances de timbres e atmosferas sonoras. A dinâmica que passeia por estilos e intensidades variadas é outro trunfo, apesar de o álbum estar baseado em um certo tom sessentista. Eles vão do sussurro sonoro e das doces harmonias vocais à la Beatles aos riffs pesados, com guitarras encharcadas em fuzz, em músicas vestidas de arranjos versáteis. Gravado com recursos de financiamento colaborativo (crowdfunding), o trabalho registrado digitalmente fez uso esperto de recursos analógicos, alinhavando diferentes universos musicais. O que, diga-se, tem atraído elogios da crítica e cada vez mais público aos shows animados: O Terno é uma das mais bem sucedidas bandas da cena independente paulistana.

Em uma tarde fria de outubro, conversei com o vocalista, guitarrista e principal compositor e letrista da banda, Tim Bernardes, em um café do bairro da Vila Madalena - acabamos falando muito sobre o cinza que é o tema de uma das músicas do álbum e que tem se tornado mais raro como cor do céu em São Paulo. Aos 23 anos, Tim é o autor das letras que visitam imagens, brincam com alguns clichês, retratam o cotidiano da cidade e expõem estados de espírito, com bom humor. Não bastasse tamanha versatilidade no Terno, ele tem prolíficos projetos paralelos: fez os arranjos, produziu e tocou todos os instrumentos no álbum da cantora Andreia Dias; acompanha a cantora Luiza Lian; assume as baquetas na banda de Pedro Pastoriz e esporadicamente toca em um duo folk com o pai Maurício Pereira, entre outras ocupações musicais. Na foto acima, ele segura a casinha que replica parte da pintura da capa do álbum, feita por Renata de Bonis.

Contente com a boa repercussão do álbum e com os shows que eles têm feito por vários estados do país, ele se empolga falando que agora querem ir ao Nordeste, onde ainda não se apresentaram. "Queremos tocar em tudo quanto é canto." A seguir, leia o nosso papo sobre o álbum e os comentários de Tim sobre algumas das faixas. E ouça a playlist exclusiva que ele montou para a gente com as músicas que curte ouvir em dias cinzas, é claro, reproduzida abaixo. "Gosto disso em São Paulo, acho muito legal andar na Paulista num dia horrível ouvindo música, um puta programa. No frio, faz mais sentido ouvir música inglesa, mais intimista. Como ir para Minas e ouvir o Clube da Esquina."

Nesta época em que muitos acreditam que a palavra rock esteja esvaziada de sentido, como definiria a música de vocês? Incorpora a ideia de que fazem um som vintage ou rock retrô?

O rock'n roll já foi expandido para tantos subgêneros que não me sinto confortável em falar que a gente é uma banda de rock. Quando se fala rock, não se entende mais se é Stones, Nirvana ou Capital Inicial, está tudo no mesmo saco. O que a gente sente é que somos uma banda de rock'n roll no jeito de tocar, de atitude e de pressão. Se você assistir a um show do The Who, você sente que é uma porrada. O Terno é mais rock nesse sentido de intenção; não é um som blasé nem pra dentro. Mas não necessariamente todas as músicas vão ser uma porrada, tem música calma, mas que mesmo assim você pode considerar rock'n roll. Mas já não dá mais para se prender numa coisa de gênero, nem numa fórmula de power trio que vai tocar três acordes; a gente adora explorar as harmonias. Por sermos um trio, é legal fazer um arranjo maluco em que cada um está em uma viagem, tocando uma coisa diferente, e com partes em que tá todo mundo fazendo coisas juntos. Dá para explorar gamas de arranjo como trio, sair do feijão com arroz: o lance do Terno são esses contrastes.

Vocês estão reciclando referências e inspirações?

A gente ama as bandas dos anos 60, são nossa maior influência. Elas entram na hora dos arranjos, dos timbres, porque pra gente atrai muito mais esse tipo de timbre do que os que a gente ouve hoje em dia do pop mainstream. E o jeito que você mistura as referências acaba sendo nova. Você pode ouvir uma música do Terno que tem um som de baixo de uma música X dos Beatles com um som de guitarra de uma música do Kinks, com um som de bateria de um negócio da Rita Lee. É tudo velho, mas vem nesse tipo de mistura que você ouve e já sabe que é de hoje em dia - você não vai achar que é dos anos 60, são misturas meio improváveis. E nem é tipo, "ai, que genial, eles misturaram isso", mas naturalmente, a gente que não viveu a época está misturando um negócio que é de 1971 com outro de 66 com outro de 61, e daí quando você ouve, mesmo sendo leigo, parece que tem uma coisa errada, que não está em um contexto antigo. E isso é uma coisa que acontece em várias bandas de agora que eu acho da hora, como no Tame Impala, que usa timbres retrô, mas que não soa retrô. E a composição não é feita imitando uma coisa antiga, ela vai naturalmente falando ou da vida ou de qualquer assunto, daí vão entrar essas referências na hora do timbre.

Por falar em timbres, eles foram registrados de uma forma refinada no álbum. Vocês usaram recursos analógicos na gravação?

Sim. Apesar de o disco ter sido gravado no digital, no computador, muitos dos equipamentos são antigos, por a gente buscar esses timbres. Minha guitarra é de 67, uma Hoffner, marca do baixo do Paul. E ela já tem um pedal de fuzz dentro dela. O Peixe [o apelido do baixista, Guilherme D'Almeida] usa um Hoffner também, o Chaves [Victor Chaves, o baterista], usa uma Pinguim que era cópia brasileira da Ludwig. A gente usou eco de fita pra timbrar as vozes. Na hora de mixar muitas músicas a gente pegava a gravação do baixo, que estava no computador, e passava ela pelo gravador de fita para pegar o timbre e depois colocava de volta no computador; ou muitas vezes a gente queria que o som da bateria ficasse mais detonado e então passávamos pelo gravador de cassete e de volta pro computador. Como a gente queria muito a sonoridade dessas coisas antigas, usamos vários recursos. A maioria das músicas foi gravada com o microfone 421, que é dos anos 60. O digital é legal porque você tem o controle total da mixagem. Se fôssemos fazer todas as experimentações de mixagem em mesa analógica iam ter 15 mãos mexendo nela em cada pedaço da música. Fazer esse esquema híbrido de conseguir esses sons analógicos mas com o controle e a minúcia do digital foi o jeito que mais combinou com a sonoridade que a gente estava atrás.

O álbum tem uma dinâmica versátil, tanto nos andamentos diferentes de cada música, como na mescla de diferentes intensidades e estilos musicais.

É uma coisa meio Paul McCartney que fazia parte A e parte B das músicas... Atrai a atenção de quem está ouvindo. A dinâmica é uma forma de experimentar, mas também de comunicar. Desde que começamos a tocar pensamos nessas coisas, percebendo que como trio, se você fica no volume dez o todo tempo uma hora fica chato, e que se você abaixar para o um e depois voltar para o dez, fica muito mais legal. A dinâmica vira uma tática, vira um elemento a mais na banda. Foi legal poder explorar isso nesse disco, no primeiro disco você fica: "ai, quero mostrar quem eu sou, que tipo de compositor eu sou". Mas você tem poucas músicas para fazer isso, e fica tentando condensar muito coisa em pouco material. No segundo disco, é um pouco mais tranquilo e você já pensa, "ah, aqui vou viajar nesse caminho, na outra música é uma coisa de amor simples, sincera e curta, e a outra é uma viagem sobre os sonhos, outra é mais imagem, uma é mais engraçada, outra é mais triste, outra é mais séria". Porque são 12 músicas autorais agora, o primeiro disco tinha cinco músicas autorais e cinco versões, da época em que estávamos tocando também com o meu pai [Maurício Pereira, conhecido por seu trabalho no Mulheres Negras], e parte do trabalho eram arranjos malucos que fizemos para as músicas dele. Esse novo disco se chama O Terno porque é o primeirão que a gente está mostrando a nossa cara mesmo. Todo autoral, gravado do jeito que a gente quis, com toda a calma que a gente precisou.

Quais são as bandas que mais influenciam O Terno?

Daria pra dizer Beatles e Mutantes, que são unânimes entre nós três. Cada um tem também as suas influências favoritas. O Terno surgiu quando eu conheci o Peixe, o Guilherme [o baixista], a gente começou a tocar juntos na oitava série, quando a gente estudava no colégio Santa Cruz, com outro baterista, um colega nosso. Estávamos pirando nos anos 60 e descobrimos os Nuggets. Começamos a procurar uns lados Bs, que é um jeito que é retrô mas que é de hoje em dia, como um jeito indie de ouvir música velha hoje, conhecendo os lados Bs - tipo o hipster que procura a banda que foi lançada ontem e quer conhecer hoje. Rolou uma loucura quando descobrimos Sly and the Family Stone, ficamos meses só ouvindo isso. Também piramos com o Racional, do Tim Maia, e suas guitarras com Fuzz e Phaser, que, aliás, o Tame Impala usa em 90% de suas músicas. Não que tenham ouvido o Racional, mas são timbres que foram voltando. A gente também amava Spencer Davis Group, descobrimos no colegial e até hoje o Steve Winwood é meu cantor favorito. Também adoramos bandas novas que têm esse pé no antigo, desde o álbum [Brothers], do Black Keys, até o Tame Impala, Mac Demarco, Dirty Projectors, Grizzly Bear.

As letras do Terno expõem estados de espírito, revelam imagens da cidade, brincam com clichês. Gostaria que comentasse algumas delas.

"Vanguarda?"

"Um pouco depois do primeiro disco, quando eu ainda estava na faculdade, rolou um papo sobre os 'filhos da vanguarda'. Quando saiu nosso primeiro álbum, a imprensa começou a dizer que éramos parte dessas bandas filhos da vanguarda paulista, e eu me perguntava se eles tinham ouvido o disco. Achei que aquilo era uma ânsia por catalogar. É um termo meio arrogante e não é um rótulo atrativo."

"O Cinza"

"Letra que é mais imagética, tem a ver com um clima e influenciou o todo disco. Tem uma atmosfera que sugere uma coisa concreta da cidade e uma coisa aérea, um estado que o cinza te leva. Uma das músicas mais calmas e ao mesmo mais pesadas do trabalho. Alguns falam que parece Clube da Esquina, outros Tame Impala, é legal como as referências se misturam. Lembro de criar a parte lenta antes, a parte rock'n roll rápida eu criei depois com o Victor [o baterista do Terno]. Foi uma coisa de estar no quarto em um dia cinza e ficar criando riffs e viajando nessas imagens da cidade, esse clima que é como um clarão que invade o olho, é um cinza mas é também um branco estourado."

"Brazil"

"Foi uma letra que veio sobre o contexto do Terno e o que vale a pena fazer no Brasil. Queríamos comunicar uma coisa mas não de uma forma neotropicalista, mas como o Terno. Então tem o inglês, a experimentação sonora, a zoeira, a visão gringa. Ela tem uma coisa aérea, uma coisa meio Pet Sounds [do Beach Boys], com desenvolvimento vocal."

"Quando Estamos Todos Dormindo"

"Fiz antes do nosso primeiro disco, a letra é uma viagem. Piramos na mixagem, o Marcelo Jeneci gravou o órgão Farfisa, que os Mutantes costumavam usar."

"Medo do Medo"

"É uma viagem mais pessoal. Quando você está meio na noia, se você deitar, vão rolar ideias erradas. O arranjo foi criado para intensificar o clima assustador e pensamos que seria ótimo ter o Tom Zé falando coisas assustadoras, e ele topou!"

Texto publicado originalmente no Napster.

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