OPINIÃO
06/06/2014 10:58 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

O rock, a cidade e o compasso de 2

É refrescante voltar a essa cidade e me deparar com uma efervescente cena de novas bandas de rock, mais músicos tocando na rua, festas de garagem que propõem descompromissadas jams, incluindo duos que amplificam todo o vigor do estilo.

Divulgação

Talvez apenas uma cidade desoladora como Detroit, nos Estados Unidos, pudesse inspirar o surgimento de uma banda selvagem e niilista como os Stooges. Gosto de pensar em como os diferentes cenários urbanos ou suburbanos inspiram diferentes gêneros musicais, e sobre qual é o tom de cada cidade. Desde que voltei a viver em São Paulo depois de uma temporada de quase um ano em Berlim, eu me lembro de uma antiga conversa com uma amiga em que nos perguntávamos quais elementos-chaves fomentariam cenas de rock. Seriam as fábricas e o ritmo febril de trabalho? A rotação acelerada e frenética da cidade, em que a urgência quase sempre é a regra? Uma reação à sensação de claustrofobia gerada por tantos prédios e confinamentos em espaços fechados? Ainda pesquiso essas relações, mas o fato é que enquanto o rock é tido como algo para coroas em uma série de capitais europeias, em São Paulo ele é um imperativo, parte sonora integrante e indissociável do tecido urbano. Reverenciado a ponto de fazer o sangue de gente de todas as idades coagular, inspirando jovens, gente de meia idade e até bem mais velha - todos seguem ostentando seus tênis de cano alto e camisetas de banda, orgulhosamente.

Nada contra a música eletrônica que define o DNA sonoro da Berlim contemporânea, pelo contrário. Mas depois de assistir a um show fabuloso de Neil Young com o Crazy Horse onde a idade média da plateia era de 55 anos, é refrescante voltar a essa cidade e me deparar com uma efervescente cena de novas bandas de rock, mais músicos tocando na rua, festas de garagem que propõem descompromissadas jams, shows e festivais democráticos nos novos espaços culturais e ocupações que tomam o Centro de São Paulo. Incluindo duos que amplificam todo o vigor do estilo e que chafurdam nas raízes do blues, revitalizando a formação que o White Stripes coroou - quando mostrou que o esquema instrumental enxuto podia injetar aquele elemento áspero que andava esquecido em um cenário de rock limpinho demais.

O Mescalines Duo é um exemplo afiado. No primeiro show em que os vi pensei na expressão 'blues xamânico' para definir aquele poder de, por assim dizer, 'contaminação' da plateia. Maturado na capital paulista por dois jovens músicos identificados com os feitiços sonoros de artistas como Robert Johnson - o guitarrista, violonista e cantor gaúcho Jack Rubens e o baterista soteropolitano Mariô Onofre -, a dupla resgata o espírito do blues, em compassos adubados por riffs poderosos de rock. Como se a tradição de garagem encontrasse a música de lamento americana, em performances contundentes. Com direito ao uso de violões elétricos que reverberam antigos timbres, como o cênico Dobro Metal Body Resonator - um reluzente instrumento prateado, que por acaso aparece na capa do álbum Brothers in Arms, do Dire Straits.

Organizei um encontro musical com a dupla e há poucos dias assisti a um show deles na ocupação da Rua do Ouvidor - um espaço bem voltado ao rock, diga-se de passagem - em que a vibração chegou a um ápice entre a plateia, com Jack Rubens vestido com um saco plástico de lixo, entoando as letras que divagam pela estrada, alcançam a terra e as raízes, e proclamam liberdade na clássica tradição poética do estilo. Aqui um gostinho do som da dupla:

Baquetas certeiras, guitarra e voz também dão a tônica ao Jesus and the Groupies, duo do vocalista e baterista Marco Butcher (ex-Butcher's Orquestra) e do guitarrista Luis Tissot, que flerta com uma sonoridade mais calcada no garage rock e no punk, mas que também arranha o Delta Blues. Butcher costuma tocar a bateria de pé, em performances energéticas em que não raro ele escala amplificadores - eu os vi em uma sensacional festa de garagem em Pinheiros, mas eles costumam se apresentar pelo circuito de casas de rock da cidade. Com dois álbuns lançados, Black Heart Industry (2011) e Hot Chicks and Bad DJs (2013), estão finalizando um novo long play com participação do americano Walter Daniels, que agrega gaitas, saxofone e vocais à fórmula visceral da dupla. Enquanto isso, acabam de lançar o single Boogie Medicine pelo selo Monster Mash, da Holanda. Escute:

Um mais um pode resultar em fórmula explosiva na música, especialmente em São Paulo neste momento. Pode apostar.

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