OPINIÃO
12/07/2014 12:25 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Como a herança arquitetônica forma nossa experiência de lugar

WanderingtheWorld/Flickr
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Venho tentando entender o que faz os lugares históricos tão especiais para tantos de nós. Parte da razão é que eles são relativamente raros nos Estados Unidos, eu acho. Durante várias décadas, nossa nova arquitetura cotidiana - nossas subdivisões, os blocos comerciais, prédios de escritórios - tem sido ao mesmo tempo insossa e mortalmente entediante em sua consistência.

Todos lugares se parecem entre si, ou pelo menos parece ser assim. Apesar de isso não ser literalmente verdadeiro - alguns prédios empolgantes são construídos e erguidos, novos lugares nutritivos estão sendo concebidos --, os nossos melhores prédios e bairros antigos têm uma distinção própria quase automática.

Mas também acho que talvez exista algo mais profundo acontecendo. Gravitamos para lugares antigos porque eles nos colocam no chão temporal e espacialmente. Também há uma literatura emergente nos ensinando que eles funcionam muito bem. Não quero fingir ter todas as respostas, mas eis alguns conceitos que gostaria de trazer para consideração.

Continuidade de lugar

Deixe-me começar com um conceito que vou chamar de continuidade de lugar. Todos tivemos a experiência de estar num lugar que foi bastante transformado - pela demolição de um grupo de edifícios, talvez, ou pela construção de novos prédios - desde a última vez em que ali estivemos. Às vezes a mudança pode acontecer em só uma semana. As coisas parecem meio erradas, fora do lugar. Geram ansiedade, enquanto tentamos nos localizar e procurar na memória como as coisas eram antes. Essa ruptura na continuidade pode ser irritante.

No ano passado, Tom Mayes escreveu um artigo para o Preservation Leadership Forumque considera as associações positivas que temos com a continuidade:

"A ideia de continuidade é que, num mundo em constante mudança, lugares antigos dão às pessoas a sensação de fazer parte de um contínuo necessário para a saúde mental e psicológica. Essa é uma ideia que há muito tempo é reconhecida como um valor subjacente à preservação história, apesar de nem sempre explicado. Em With Heritage So Rich (em tradução livre, com um patrimônio histórico tão rico), a ideia de que a continuidade é capturada na frase 'senso de orientação', a ideia de que a preservação dá "um senso de orientação para nossa sociedade, usando estruturas e objetos do passado para estabelecer valores de tempo e lugar."

Mayes cita um ensaio do internacionalmente conhecido arquiteto Juhani Pallasmaa, que reforça o conceito de tempo em relação à nossa experiência de lugares antigos:

"Temos uma necessidade mental de sentir que temos raízes no contínuo do tempo. Não habitamos somente o espaço, mas moramos também no tempo... Prédios e cidades são museus do tempo. Eles nos emancipam da pressa do presente e nos ajudam a experimentar o tempo lento e saudável do passado. A arquitetura nos permite ver e entender o processo lento da história e participar de ciclos temporais que vão além do escopo de uma vida individual."

Isso soa verdadeiro para mim. Há algo reconfortante em lugares antigos.

Pesquisa sobre ligação a lugares e continuidade

De fato, isso já foi comprovado por pesquisas acadêmicas internacionais. Pesquisando o tópico para este artigo, encontrei um trabalho do professor malaio Norsidah Ujang sobre "Ligação com Lugares e Continuidade da Identidade de Lugares Urbanos"

Ujang argumenta que conceitos uniformes de planejamento e a "comoditização dos lugares" - tudo parecido com todo o resto - enfraquecem a identificação e a ligação com certos lugares. Depois de questionar sistematicamente 330 usuários de três ruas comerciais importantes de Kuala Lumpur, os pesquisadores concluíram que a familiaridade com um lugar contribui para sensações de conforto psicológico, enquanto "desconforto psicológico e fortes expressões emocionais" são "fortemente sentidos como reação contra mudanças físicas e intervenções inadequadas".

O estudo recomenda que planejadores urbanos tomem medidas para reforçar a identidade de lugar e a legibilidade, em vez de rompê-las, e busquem "garantir a continuidade da identidade de lugar por meio do entendimento dos lugares como dimensões físicas, sociais e psicológicas da experiência humana".

Outro aspecto importante do nosso legado arquitetônico compartilhado é que ele é, de fato, compartilhado. Nossas experiências e sentimentos de conforto pela continuidade dos lugares antigos são coletivos, não individuais. A praça central e o fórum, talvez também a velha igreja e a antiga escola - até mesmo as mansões vitorianas enfileiradas na rua próxima - nos unem, e essa coesão diminuiria se o lugar mudasse rapidamente. O legado desses lugares e construções não é apenas meu, mas nosso.

Engajamento cultural

Intimamente ligado à continuidade de lugar, mas um pouco diferente, acredito, é algo que chamarei de engajamento cultural. Lugares antigos que não são familiares e com os quais não tivemos continuidade também podem provocar experiências positivas poderosas. Imagine alguém vendo as grandes pirâmides de Gizé pela primeira vez, ou um pueblo de índios americanos. Esses lugares são mágicos justamente porque temos pouca ou nenhuma experiência prévia, ou continuidade, com eles.

Em vez de nos confortar com sua familiaridade, esses lugares desafiam nossa imaginação ao invocar outros tempos e ao nos conectar com culturas passadas de maneiras a que não estamos acostumados. Eles nos educam e nos equipam com uma visão de mundo mais ampla e profunda - uma visão que nos liga com a sabedoria do passado --, a qual podemos então trazer para nossa existência contemporânea.

Tenho um exemplo favorito, mas mais modesto, que coloco em meu novo livro People Habitat: 25 Ways to Think About Greener, Healthier Cities (Habitat das pessoas: 25 maneiras de pensar em cidades mais verdes e mais saudáveis, em tradução livre). A apenas alguns quilômetros da minha casa, logo depois da fronteira de Maryland com Washington DC, há um parque de diversões antigo e parcialmente restaurado, da era Art Déco. O antigo carrossel ainda funciona durante a temporada e deleita as crianças; você ainda pode comer algodão doce por lá. Mas não é mais um parque de diversões - não há montanha russa, e o salão onde ficavam os carrinhos de trombar hoje é usado de vez em quando para shows. Com certeza é diferente de qualquer parque de diversões que eu já vi na vida.

Hoje, ele existe com um lugar de descanso para adultos e de brincadeiras para as crianças e como uma evocação de um parque de diversões, em vez de um parque 100% funcional. Ele desafia o visitante a trazer consigo sua imaginação, para que nos encontremos na metade do caminho: como uma expressão parcial de um passado e uma cultura que não existem mais da mesma maneira. Vou sempre ao Glen Echo Park porque, além de estar no caminho de um dos meus roteiros de treino de bicicleta, eu o amo de um jeito que não amaria se ele fosse novo, mesmo que fisicamente o parque fosse igual. Ele faz uma ligação com conexões culturais que não existiriam se eu soubesse que o lugar não teve uma história anterior para dividir com seus visitantes.

Contribuição para a vitalidade da cidade

Apesar de uma das coisas de que eu mais goste no Glen Echo Park seja o fato de ele ser relativamente quieto (com exceção das crianças brincando) e não particularmente urbano, uma nova pesquisa do National Trust confirma que propriedades menores e mais velhas também são responsáveis por contribuições importantes para a vitalidade urbana.

Com base em análises estatísticas do tecido construtivo de três grandes cidades americanas, a pesquisa (intitulada Mais Velha, Mais Forte, Melhor) indica que bairros estabelecidos com uma mistura de prédios menores e mais antigos têm melhor performance em várias métricas econômicas, sociais e ambientais do que aqueles com estruturas novas e maiores. A chave parece ser a diversidade que prédios mais velhos e menores trazem para os bairros:

"Edifícios de diversas idades e pequena escala oferecem espaços flexíveis e baratos para empreendedores lançarem novos negócios e servem como cenários atraentes para novos restaurantes e para o comércio local. Eles também oferecem opções de moradia que atraem jovens e criam espaços com escala humana para caminhadas, compras e interações sociais."

Em particular, o estudo - conduzido pelo Laboratório Verde de Preservação do National Trust com vários parceiros respeitados - se baseou em análises espaciais para determinar o papel relativo da idade, diversidade de idades e tamanho, além de outras medições. Mais de 40 métricas de performance foram consideradas, entre elas vibração cultural, performance do mercado imobiliário, opções de transporte e intensidade de atividade humana.

Comparados com distritos dominados por prédios mais novos e maiores, aqueles com edifícios menores e mais velhos têm várias vantagens, de acordo com o estudo:

. Distritos mais antigos têm maior densidade populacional e mais negócios por metro quadrado comercial;

. Prédios menores e mais antigos sustentam a economia local com mais negócios locais e menor presença de grandes cadeias;

. Distritos mais antigos oferecem mais oportunidades para o empreendedorismo, incluindo para mulheres e negócios cujos donos pertencem a minorias;

. Há mais espaços culturais em bairros antigos e de uso múltiplo (residencial e comercial);

. Os índices de Walk Score e Transit Score são melhores;

. Edifícios antigos atraem mais jovens e têm mais diversidade de faixas etárias;

. Há mais vida noturna em ruas com prédios de diferentes idades.

De fato, pode-se dizer com base nesses resultados que os bairros mais antigos, com prédios de variadas idades e tipos são mais urbanos, pelo menos no sentido tradicional, que aqueles onde há prédios maiores e mais modernos. A metodologia parece ter sido rigorosa e eu aconselho os leitores interessados a mergulhar no estudo completo, que tem cem páginas e muitos apêndices.

Contribuição para a sustentabilidade ambiental

Quando se trata de sustentabilidade - pelo menos no sentido literal - não precisamos de dados para demonstrar a performance de edifícios mais velhos: sua existência continuada prova que eles, de fato, se sustentam ao longo do tempo. Dito isto, temos dados, pelo menos no que diz respeito à sustentabilidade ambiental.

Em particular, outro estudo do Laboratório Verde de Preservação, lançado dois anos atrás, concluiu que pode demorar entre 10 a 80 anos para que um edifício novo e eficiente do ponto de vista energético supere os impactos causados por sua construção. A pesquisa considerou seis tipos de prédios em quatro cidades americanas de climas diferentes: Portland, Phoenix, Chicago e Atlanta.

Os dados foram compilados e analisados para os seis tipos de uso dos edifícios (ou reuso, no caso de prédios mais antigos), incluindo residências de uma só família, prédios com mais de uma família, edifícios de escritórios, edifícios de uso misto, escolas fundamentais e armazéns convertidos. O estudo examinou o papel de geografia, performance energética, tipos de energia utilizada, tipo de construção e tempo de vida da construção na performance ambiental geral quando comparados prédios antigos reutilizados e novas construções.

As principais conclusões do estudo incluem:

. A reutilização de edifícios tipicamente oferece mais ganhos ambientais de curto prazo que demolições e novas construções. Para cinco dos seis tipos de prédios avaliados no estudo, o prazo para superar os impactos ambientais negativos relativos à construção podem levar de 10 a 80 anos, caso o novo prédio seja 30% mais eficiente que um edifício existente de performance energética mediana;

. Os benefícios são maximizados se a reutilização é praticada em escala. Por exemplo, adaptar, em vez de demolir e construir, apenas 1% dos prédios de escritório e residenciais na próxima década ajudaria a cumprir 15% das metas de redução de emissões de CO2 do condado de Multnomah para os próximos dez anos;

. Os maiores benefícios do reuso são obtidos com a minimização do uso de novos materiais de construção.

Eu acrescentaria que edifícios antigos, desenhados e construídos antes do que meu amigo e arquiteto Steve Mouzon chama de "era do termostato", costumavam ser planejados com mais atenção às condições climáticas do que as construções atuais. Medidas como paredes mais grossas, pés-direitos altos, ventilação adequada e orientação dão a essas construções as "propriedades verdes" que ajudam a economizar energia e evitar emissões de gases causadores do efeito estufa.

Mude, mas faça as perguntas certas

Para concluir, devo acrescentar enfaticamente que, apesar de tudo, não quero dizer que os lugares não devam mudar ou evoluir. Seria hipocrisia da minha parte, como um defensor da revitalização, sugerir o contrário. Devemos abraçar as mudanças para melhor -- uma mudança que, como sugere o professor Ujang, não borra a distinção de lugar, mas sim acrescenta a ela. O que é importante é termos consciência: admito que não é fácil discernir com antecedência quais mudanças serão positivas e quais serão negativas com relação a nossa experiência de lugar, mas os bons planejadores sempre têm de fazer essa pergunta. E temos sempre tentar o nosso melhor para garantir que as mudanças nutram, e não diminuam, a experiência humana.

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