OPINIÃO
02/05/2014 17:04 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

As cidades precisam da natureza

Nós, humanos, temos uma necessidade emocional intrínseca de nos conectarmos com a natureza. As cidades também precisam de estruturas urbanas rígidas -- ruas, edifícios e infraestrutura -- em densidade suficiente para alcançar a eficiência ambiental e econômica e alimentar os laços sociais.

Nós, humanos, temos uma necessidade emocional intrínseca de nos conectarmos com a natureza. O eminente biólogo E. O. Wilson chamou isso de "biofilia", e o termo pegou. Mas as cidades também, e fundamentalmente, precisam de estruturas urbanas rígidas -- ruas, edifícios e infraestrutura -- em densidade suficiente para alcançar a eficiência ambiental e econômica e alimentar os laços sociais. Há uma necessidade crítica de incorporar a natureza às cidades, mas devemos fazê-lo de maneira que apoie a urbanidade, em vez de substituí-la.

(Este artigo é um trecho do livro People Habitat: 25 Ways to Think About Greener, Healthier Cities [Hábitat humano: 25 Maneiras de pensar sobre cidades mais verdes e saudáveis], de F. Kaid Benfield, ed. Island Press, 2014).

Na escala do bairro

Lembro-me de um dia feliz em nosso bairro, alguns anos atrás. Quando voltei do trabalho para casa, três novas árvores tinham sido plantadas em nosso quarteirão. É uma coisa pequena, é claro, apenas três árvores de rua. Mas a falta de suas antecessoras havia sido muito sentida durante alguns anos. Quando nos mudamos para o bairro, há pouco mais de 20 anos, um dos maiores atrativos eram as grandes árvores, na maioria carvalhos, em quase todos os quarteirões. O bairro foi formado nos anos 1920, por isso as árvores mais velhas teriam cerca de 70 anos quando nos mudamos para cá.

Os visitantes sempre ficam impressionados por elas, especialmente quando vêm de um subúrbio mais recente. Muitas daquelas árvores antigas permanecem, mas nos mais de 20 anos em que vivemos aqui perdemos algumas por causa de doenças e, principalmente, de temporais. Tenho certeza de que não fui o único que se sentiu reanimado ao descobrir que haviam plantado novas: pesquisadores mostraram que a simples visão de vegetação através de uma janela pode nos dar um reforço psicológico e físico.

De fato, para nossos ancestrais, uma consciência aguda do ambiente natural era essencial para a sobrevivência. Quando somos privados de natureza, perdemos um aspecto básico da humanidade. Quem dentre nós não desfrutou uma caminhada, andou de bicicleta, leu um livro ou uma revista, aprendeu um esporte, se apaixonou, tirou um cochilo ou gozou de outra maneira o repouso e a comunhão com a natureza oferecidos por uma área natural ou um lindo parque urbano? Nas cidades, a presença da natureza -- seja entremeada com as ruas, prédios e quintais, ou mais organizada em parques -- nos conecta com o crescimento e com as estações, fornecendo uma suavidade para complementar o concreto das ruas e calçadas e os tijolos e a madeira das casas.

Entre os parques, adoro os que têm a escala dos bairros. Enquanto grandes espaços verdes como o Central Park em Nova York, o Golden Gate Park em San Francisco ou o Rock Creek Park em Washington são maravilhosos, há uma dimensão mais pessoal naqueles um pouco menores, que fazem mais parte de seus bairros. Na verdade, um de meus favoritos tem apenas cerca de 6 mil metros quadrados. Fica escondido em um bairro de residências em lotes pequenos em Chevy Chase, Maryland, bem no limite entre Chevy Chase e Bethesda e a apenas uma quadra da agitada rua principal de Bethesda.

O Elm Street Park é tão bem dimensionado para o bairro e tem árvores tão belas, grandes e maduras, que faço questão de passar por lá quando estou de bicicleta, o que é frequente. Há pequenos pavilhões, um playground e mesas de piquenique espalhadas, mas fora isso não tem instalações especiais. Apenas está lá, e eu o amo.

A ciência da natureza urbana e do hábitat humano

Pesquisas sugerem que tenho razão. Na Universidade de Michigan, um grupo de estudantes que caminhou por um bosque urbano se saiu melhor em testes de memória e humor do que um grupo de controle que caminhou pelas ruas da cidade. Quando os papéis dos dois grupos foram invertidos, uma semana depois, os estudantes que caminharam pelo bosque novamente se saíram melhor. Os pesquisadores sugeriram que as exigências mentais adicionais das ruas -- especialmente a atenção para os veículos -- causa estresse, enquanto na natureza podemos deixar nossa mente divagar, permitindo-nos "descansar a atenção".

De modo mais geral, uma análise acadêmica rigorosa de 86 estudos publicados desde 2000, conduzida por pesquisadores dinamarqueses para a Federação Internacional de Administração de Parques e Recreação, foi publicada em janeiro de 2013. Ela descobriu uma imensa série de correlações entre a natureza e a saúde pública, desde menos dores de cabeça a longevidade:

"A natureza e os espaços verdes contribuem diretamente para a saúde pública, ao reduzir o estresse e os transtornos mentais, aumentar o efeito da atividade física, reduzir as desigualdades de saúde e aumentar a percepção da qualidade de vida e percepção pessoal da saúde. Efeitos indiretos para a saúde são transmitidos ao oferecer áreas e oportunidades para a atividade física, aumentando a satisfação de viver e as interações sociais, e por diferentes modos de recreação...

"Os benefícios diretos para a saúde para os quais encontramos evidências de efeitos positivos incluíam bem-estar psicológico, obesidade reduzida, menos estresse, percepção pessoal de saúde, menos dor de cabeça, melhor saúde mental, menor mortalidade por derrame, maior capacidade de concentração, qualidade de vida, menos Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) -- sintomas cardiovasculares reduzidos e mortalidade por distúrbios respiratórios reduzida, menos queixas de saúde, mortalidade geral, longevidade, peso ao nascer e idade gestacional em população de baixo nível socioeconômico, recuperação pós-desastres e menos hormônio cortisol." [Citações omitidas.]

A evidência dos impactos positivos dos parques urbanos ou da atividade física foi salientada como "forte", com a evidência estabelecida de forma acadêmico apoiando outros efeitos considerados pelo menos "moderados". (De modo contrário, quando a correlação entre parques e saúde era estabelecida de maneira insuficiente na literatura, como com os efeitos sobre câncer de pulmão ou diabetes, os autores o mencionavam.)

Outro grande estudo, relatado em uma monografia publicada pela Associação Nacional de Parques e Recreação em 2010, revelou uma correlação direta entre efeitos para a saúde e a proximidade de parques:

"Cientistas da Holanda examinaram a prevalência de transtornos de ansiedade em mais de 345 mil residentes e descobriram que as pessoas que viviam em áreas residenciais com menos espaços verdes tinham um índice 44% maior de transtornos de ansiedade diagnosticados por médicos do que as que moravam nas áreas residenciais mais verdes. O efeito era mais forte entre as que tinham maior probabilidade de passar o tempo perto de casa, incluindo crianças e pessoas com baixo nível de escolaridade e renda.

"O tempo passado em ambientes verdes luxuriantes também reduz a tristeza e a depressão. No estudo holandês, a prevalência de depressão diagnosticada por médico era 33% maior nas áreas residenciais com menos espaços verdes, comparada com os bairros mais verdes."

O relatório da NRPA cita estudos que encontraram níveis mais baixos de agressividade, violência e crime nos conjuntos habitacionais de Chicago com vista para vegetação do que nos que não a possuíam.

As pessoas apreciam intuitivamente esses benefícios e, em consequência, se dispõem a pagar um valor significativo para viver perto da natureza. Segundo um relatório de 2006 publicado pelo Fundo para Terra Pública (TPL na sigla em inglês), uma revisão de 25 estudos que investigaram se os parques e os espaços abertos contribuíam para os valores dos imóveis vizinhos revelaram valor maior em 20 dos estudos. Esses benefícios também afetam as municipalidades:

"O maior valor dessas residências significa que seus proprietários pagam impostos de propriedade mais altos. Em alguns casos, os impostos sobre propriedade adicionais são suficientes para pagar os valores anuais da dívida dos títulos usados para financiar a aquisição e o desenvolvimento dos parques. 'Nesses casos, o parque é obtido sem custo em longo prazo para a jurisdição', escreve o professor John Crompton [da Universidade Texas A&M]."

O relatório do TPL cita evidências corroborativas da Universidade do Sul da Califórnia de que o investimento em um parque de bolso em um bairro de densa urbanização seria amortizado em 15 anos em consequência da maior receita fiscal.

Serviços ambientais fornecidos pela natureza urbana

Voltando às árvores do meu bairro, eu as amaria sem saber por quê, mas em meu emprego como advogado é muito útil saber que a ciência pode revelar alguns dos motivos. Além do que elas podem fazer por mim, as árvores também oferecem serviços ambientais mensuráveis para suas comunidades. Se você estiver interessado em saber mais sobre os benefícios das árvores, visite os sites da Fundação Nacional Dia da Árvore e o Serviço Florestal dos EUA.

Entre os detalhes que descobri em um desses sites estão:

  • O efeito líquido de resfriamento de uma árvore jovem e saudável equivale a dez aparelhos de ar-condicionado funcionando 20 horas por dia
  • Se você plantar uma árvore hoje no lado oeste de sua casa, em cinco anos sua conta de energia deverá diminuir 3%. Em 15 anos, a poupança será de quase 12%
  • Aproximadamente 4 mil metros quadrados de floresta absorvem 6 toneladas de dióxido de carbono e produzem 4 toneladas de oxigênio
  • Diversos estudos demonstraram que os agentes imobiliários e compradores de residências atribuem entre 10 e 23% do valor da residência às árvores que houver no terreno
  • Pacientes de cirurgia que podiam ver um trecho de árvores decíduas se recuperaram mais depressa e exigiram menos remédios contra a dor do que pacientes semelhantes que só viam paredes de tijolos
  • Em um estudo, fileiras de árvores reduziam as partículas em 9 a 13%, e reduziam a quantidade que chega ao solo embaixo de 27 a 42%, em comparação com uma área aberta

Vários anos atrás, o guru das caminhadas Dan Burden, que fundou o centro de informação para pedestres e bicicletas, escreveu uma monografia detalhada, com o título de 22 Benefits of Urban Street Trees [32 benefícios das árvores em ruas urbanas]. Entre outras coisas, Burden calculou que "para um custo de plantio de US$ 250 a 600 (incluindo os três primeiros anos de manutenção), uma única árvore urbana retorna mais de US$ 90 mil em benefícios diretos, sem incluir estéticos, sociais e naturais) no período de vida da árvore". Ele cita conclusões de que as árvores urbanas geram velocidades de trânsito mais lentas e apropriadas, aumentam a atração dos clientes pelas empresas e reduzem os altos custos de infraestrutura de drenagem. Segundo pelo menos dois estudos recentes (relatados depois da análise de Burden), as árvores seriam responsáveis pela redução da criminalidade.

Burden resume as funções biológicas e emocionais das árvores:

"As árvores urbanas fornecem uma abóbada, estrutura de raízes e ambiente para importantes insetos e vida bacteriana abaixo da superfície; um lugar para animais de estimação e pessoas românticas pararem para suas respectivas finalidades; elas atuam como ambientes essencialmente espaçosos para aves canoras, sementes, nozes, esquilos e outras formas de vida urbana. Na verdade, as árvores urbanas definem tão bem a vida urbana confortável e natural que é improvável que um dia vejamos a publicidade de qualquer produto urbano comercializado, incluindo carros, que não apresente árvores urbanas fazendo a declaração visual predominante sobre o lugar."

Isso foi muito bem colocado.