OPINIÃO
06/01/2015 12:28 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Os cavalos precisamos pensar (ou do quanto o lema "Brasil, pátria educadora" é pernicioso)

O uso feito do termo parece sugerir que, em vez de educar para o pensamento autônomo, o que o governo quer é simplesmente formar consumidores e mão de obra pra indústria.

Lula Marques / Fotos Públicas

1.

O dicionário traz dois sentidos para a palavra "educar" quase antagônicos. Esses sentidos dizem muito dos países que estamos construindo e queremos construir (e a enorme diferença existente entre eles).

Numa primeira acepção, o verbo "educar" significa instruir, transmitir saber ─ mas isso no sentido de "dar a (alguém) todos os cuidados necessários ao pleno desenvolvimento de sua personalidade". Neste modelo, "educar" remete à ideia de autonomia: é o próprio sujeito quem realiza o seu desenvolvimento educacional, e não algum "outro".

Neste modelo, o que o sujeito precisa é apenas que lhe seja garantido o acesso às condições necessárias para realizar o seu desenvolvimento educacional; nada mais do que isso.

Já na segunda acepção, educar significa domesticar, domar ─ e isso no sentido literal de "fazer (o animal) obedecer". (No Houaiss diz-se exatamente isso: "fazer o animal obedecer"). Dessa forma, agora, aqui, remete-se não mais à ideia de autonomia, mas sim a uma ideia de sujeição, obediência, dominação.

Ao contrário de na acepção anterior, agora não é mais o sujeito quem realiza o seu desenvolvimento: algum "outro" o faz por ele. Nesta nova realidade, a sua progressão só acontece em função do domínio, da ordem, da ingerência desse outro.

Neste modelo, a progressão (a educação) visa satisfazer prioritariamente os interesses desse "outro", em vez de focar-se nos interesses do próprio sujeito que é educado.

(Já que aqui o sentido é o de fazer o animal obedecer, uma precisa imagem para tal "ingerência" poderia ser a de um chicote -- tendo em vista que o cavalo que puxa a carroça precisa ser "estimulado").

2.

Pois o lema do novo governo é "Brasil, pátria educadora".

Entre uma pátria que educa e uma pátria que possibilita e fomenta a educação há uma distância abissal.

Esta é a diferença que está expressa nas duas acepções apresentadas no primeiro ato deste texto.

Positivamente, essas duas acepções sugerem propostas distintas, quase antagônicas, de nação (ainda que ambas pautadas pelo mesmo rótulo dourado "educação").

Uma proposta remete a uma sociedade humanista, pensante, crítica. A outra reflete uma visão tecnocrata de mundo, como fizesse uma releitura de princípios fordistas e tayloristas para a dinâmica educacional do século 21.

3.

Não nos encantemos com o uso do termo "educação" no discurso presidencial. Ao contrário, assustemo-nos.

O uso feito do termo parece sugerir que, em vez de educar para o pensamento autônomo, o que o governo quer é simplesmente formar consumidores e mão de obra pra indústria.

De preferência, uma mão de obra acrítica. Bem presa ao cabresto.

4.

Uma primeira versão deste texto circulou no Facebook, previamente.

Nesta versão, o professor da UFMG Wander Emediato, doutor em ciências da linguagem e especialista em análise do discurso, comentou: "a educação só faz sentido se estiver voltada para o desenvolvimento do pensamento crítico".

Na contramão desta ideia, o atual governo parece pensar o processo educacional como uma metáfora das linhas de montagem industriais.

É preciso desconfiar de um governo ao qual o pensamento crítico incomoda. As movimentações sociais dos últimos anos dão clara conta do tamanho desse incômodo.

Assustemo-nos, pois.

5.

Pois a educação é obrigação como política pública. O adestramento social, no entanto, pertence a um departamento completamente diferente.

Este departamento, em última instância, remete ao período mais sombrio da história recente brasileira. Assustemo-nos, pois.

Este e aquele são tempos em que o governo sugere que seu objetivo é educar cavalos para que puxem a carroça. Em vez de educar os cavalos a pensar sobre o que querem para si.

Sim, assustemo-nos. Não nos deixemos enganar.

6.

O Brasil é uma carroça.

Mas os cavalos precisamos pensar.

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