Opinião

Pelo direito de ser periguete

Quando o que nós escolhermos como traje não definir o que somos, aí sim, vamos poder criar nossas filhas sem a preocupação de cobri-las contra uma sociedade que pune a vítima e não o opressor.

Como bem sugeriu um amigo, ao me encaminhar um email com o título "Mad World" ("mundo louco" em português) para me mostrar a última da sociedade brasileira, recomendo que você faça o que eu fiz: entre aqui e seja embalado pela versão mais melancólica da canção do Tears for Fears na voz de Gary Jules. Porque é duro, muito duro engolir a seco o resultado da pesquisa do Ipea que mostra que 65% dos brasileiros "concordam totalmente" com a afirmação de que "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas".

Minha relação com a moda começou muito cedo e senti na pele o que é viver "à altura da sociedade". Especialmente a que eu vivi na minha infância, ao crescer na década de 1980 dentro de uma cultura Batista e frequentando acampamentos para crianças dirigidos por uma família de origem Menonita. Não chegava a ser uma religião que impedisse o corte do cabelo, a depilação, a maquiagem e o uso de acessórios por mulheres. Era pior: não podíamos ser vulgares, um conceito amplo e muito particular que, pregado como uma bandeira das boas maneiras feminina, nos prendia de uma maneira muito mais intrínseca do que as regras dogmáticas e superficiais dos "irmãos" da Assembleia de Deus.

Na piscina do acampamento, as garotinhas desavisadas que traziam na mochila biquínis em vez da peça única do maiô, eram penalizadas e só podiam entrar na água com uma camiseta por cima do traje. Nós, as meninas de maiô, corríamos sãs e salvas - estávamos, afinal, protegidas do julgamento alheio, mesmo ao menor sinal de puberdade.

Enquanto isso, na sociedade da vida real, outras criancinhas como eu assistiam a novelas com personagens que reforçavam o estereótipo da mulher fácil, caricaturadas por um jeito muito próprio de vestir. Eram mulheres de olho em fortunas que seduziam jogadores de futebol com quadris descobertos, mulheres com decotes profundos que seduziam chefes para substituí-los em ambientes corporativos, e, no papel de heroínas, as mulheres recatadas - e cobertas. Formava-se ali mais uma geração de jovens que, anos depois, inculcariam nas pessoas à sua volta que responderiam a uma pesquisa, sem refletir, conceitos que foram sendo ensinadas ao longo da vida.

Você não pode imaginar quantas vezes meu olhar de superioridade teve como alvo garotas curvilíneas e muito, muito gostosas com suas calças coladas e enfiadas na bunda. Mulheres estonteantes que se permitiam mostrar mais do que três terços das pernas, com aquelas minissaias jeans. E as cariocas, então? Eu as fulminava cada vez que via os biquínis asa-delta, especialmente em corpos bem pouco em forma. Pecadoras? Não. Pior: vulgares.

Estive muito do lado de lá para poder estar hoje muito do lado de cá. Quando todas tivermos o direito de sermos periguetes, quando o que nós escolhermos como traje não definir o que somos como mulheres, aí sim, vamos poder criar nossas filhas sem a preocupação de cobri-las contra uma sociedade que pune a vítima e não o opressor.