OPINIÃO
29/01/2014 19:52 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Classe média, por que você é assim?

Evelin Fomin

Era um almoço de um domingo quente de janeiro. O lugar era um quilinho ajeitado, um lugar que a gente bate ponto sempre que não está com paciência de cozinhar em casa no fim de semana. Chegamos e saímos rápido e a refeição teria passado despercebida não fosse uma vizinha de mesa.

Cabelos lisos, tipo mignon, cara de intelectual, apesar de estar lendo um livro de capa fácil e autor desconhecido. Ela almoçava sozinha e comia e lia, comia e lia. Houve um silêncio nosso que coincidiu com uma fala dela à garçonete. Ela pediu as opções de sobremesa, perguntou o que era um crème brûlée, interrompeu bruscamente a explicação ao perceber que aquele doce desconhecido não a interessava, pediu um mousse de limão, o café e, já não olhando direito na cara da garçonete, fitou o livro com uma empáfia quase palpável indicando que a comunicação tinha terminado ali. A falta de um "por favor", ao final de todo aquele pedido, me saltou aos ouvidos como se um estrondo ensurdecedor tivesse acontecido bem perto da minha orelha.

Seguimos nosso rumo pela cidade, em busca de um desses gelatos italianos cremosos. E o mais próximo de onde a gente estava fica em uma região difícil de estacionar. Ao passarmos por uma possível vaga, vimos um carro que terminava de parar seu automóvel no que poderia ter sido dois espaços livres. Faceiro, sorrindo, conversando com os outros dentro do carro, um homem tipo pai de família parecia feliz com o tamanho da vaga que tinha acabado de arrematar. Aquele egoísmo disfarçado de desatenção me bateu como uma rajada de vento forte, me socando o peito. Engatamos e saímos dali rumo a outro bairro próximo, já que tudo à nossa volta, inclusive a própria gelateria, estava lotado.

Ao chegarmos até nosso último destino, nos deparamos com uma fila menor e uma bicicleta que fora estacionada na entrada da sorveteria, atrapalhando o caminho. Quem seria o desavisado a deixar sua bike bem ali? Fizemos nossos pedidos, nos deliciamos com os sabores e, sem lugar para nos acomodar, resolvemos ficar na calçada até terminar a parte crítica do sorvete. E o que encontramos no canto da calçada? Um copinho usado deixado ali, largado, como quem não quer nada. Para que voltar à loja e jogar o lixo no lugar certo se é possível deixá-lo bem aqui?

Em um único rolezinho de domingo conseguimos a façanha de colecionar não apenas um mas quatro exemplos de deseducação de gente que, ao menos na aparência, parecia estar no pico da pirâmide social. Gente que cobra educação de quem não teve o mesmo acesso à educação mas que se comporta como se não precisasse realizar as mesmas tarefas que todo indivíduo civilizado deve ter.

Tivemos contato com adultos, já bem distantes da adolescência, circulando por esse shopping a céu aberto que é a cidade de São Paulo, distribuindo pílulas de selvagerias que, no montante final, parece render naquele monstro que resulta em vergonha alheia. Vergonha de gente que viaja para a Europa e EUA e que tenta disfarçar falando inglês para não ser reconhecido pela mesma classe média que não se enxerga e que tem certeza de que é diferente daquele brother brasileiro que está ali viajando exatamente do mesmo jeito que você.

Essa gente toda, que muito provavelmente pertence aos 9% ou 5% da população brasileira, que tem renda mensal familiar entre R$ 3.390 a R$ 6.780 e R$ 6.780 a 13.560 e ainda R$ 13.560 a R$ 33.900, que está no extremo pico da pirâmide social, segundo os dados do Datafolha e que eu li na coluna do Fernando Canzian, que deve ter estudado, ido à faculdade, que tem acesso à cultura, aos livros, mas não está nem aí para o carro de trás e tem preguiça de ligar a seta do carro quando vai entrar à direita ou à esquerda. E daí eu me pergunto: por que essa gente toda é tão egoísta, desatenta, deslavada, irritante e, acima de tudo, mal-educada?

Eu vou descobrir, eu juro.