OPINIÃO
11/02/2014 10:10 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Sociedade linchadora

Reprodução/Facebook

As imagens brutais de um adolescente espancado, nu, amarrado a um poste no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, provocaram repulsa em parte da sociedade brasileira. Um observador incauto pensaria que a atrocidade do episódio é suficiente para que esta repulsa se transforme em força mobilizadora. Não. Nossa indignação é volátil. Narcotizados, insensibilizados pela sobre-exposição cotidiana a cenas similares, ensimesmados comentando em nossa rede social um acontecimento mais recente, não somos capazes de fixar nossa vaporosa indignação e fazer dela a mecha da mudança social.

Um jovem linchado por três homens mascarados em moto. Eis o fato e o fato expressa muito sobre nosso modelo social.

O teórico escocês David Garland, que estudou os linchamentos em várias de suas obras, define eles como formas coletivas de realizar a justiça retributiva, restabelecer a honra perdida e reafirmar o poder do grupo.

Comumente o linchamento aparece em sociedades que não confiam em seus organismos punitivos, em seus processos penais. Uma polícia negativamente avaliada, um sentimento de impunidade generalizada, um judiciário percebido como lento e ineficaz, um Estado ausente incapaz de resolver conflitos, um sistema omisso. Quebras diárias de confiança e legitimidade que levam ao linchador a buscar e justificar sua grotesca justiça alternativa.

Mas a sociedade linchadora tem também outras características. É uma sociedade segregada, que guarda nas suas sombras profundas questões raciais não resolvidas, que outorga vida a uns e morte a outros, que joga a uns no centro e a outros nas margens.

Três homens mascarados em moto. O linchamento é um ritual punitivo coletivo, com uma elevada carga emocional, mas também racional, organizado, argumentado. Altamente simbólico, tem um significado claro: que a justiça seja feita, mas uma justiça entendida como sofrimento, como humilhação e degradação a uma condição sub-humana.

Os verdugos adquirem dois papeis: eles representam a sociedade agredida, em seu conjunto, e também as autoridades punitivas, num momento de controle, de poder absoluto.

O efeito pedagógico está claro: agora vocês sabem que nós somos a justiça.

Essa é a lógica perversa do linchamento. Uma lógica com sabor a inquisição, a enforcamento em praça pública. Uma lógica aplaudida por uns, consentida em silêncio por outros.

Um jovem linchado por três homens mascarados em moto. Eis o fato.

Cúmplices, todos. Quem admite e concorda e quem, satisfeitos em nosso papel de cidadãos comprometidos, indignados momentaneamente, já esquecemos.

Depois desse poste, a sociedade foi a segunda vítima linchada.