Opinião

Sobre o aprendizado constante, crises de riso e graxa nas mãos

Precisou de dois minutos, apenas para ela deixar o material dentro de casa, arregaçar as mangas e lançar: "Vamos ter de trocar esse pneu." "Oi? Mãe, pera. Trocar o pneu?" "Já troquei antes, grávida de sete meses. Vamos lá." E fomos. E deitamos no chão. E sujamos as mãos de graxa. E tivemos crises e mais crises de riso. E demoramos um pouco. Mas trocamos o pneu, juntas.
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Cresci numa casa cheia de cores, texturas, sons; vida. Um espaço onde dançavam italianos com nordestinos, cada um com seu par e ritmo, suas tradições, seus contos e causos do passado. Talvez tenha sido essa vivência que resultou na minha curiosidade insaciável por histórias. Acho até que, mais do que histórias, por pessoas, pelo registro de memórias e pelos detalhes. Ah! Sou fascinada por detalhes. Aqueles pequenos, quase imperceptíveis, que transformam o olhar atento em poesia.

São esses detalhes que nos permitem estar em constantes processos de aprendizagem. Basta nos colocarmos disponíveis para isso. "Mas o tempo, a modernidade, o amor, as relações, tudo é liquido, não durável". Daí a importância do toque, do abraço, das rodas onde todo mundo pode se enxergar, das risadas que apaixonam, do cuidado de como a sua atitude pode refletir no outro, dos lugares para simplesmente existirmos - juntos, do convite para a experiência que, no fundo, no fundo, é viver.

Nessa segunda-feira, um desses meus lugares para aprender foi o quintal da casa que guarda boa parte das minhas lembranças, onde moro desde os meus primeiros passos até hoje. É engraçado perceber como essa caminhada pelos anos que acumulamos juntas, a casa e eu, foi o suficiente para colocar ambas em movimento. Cada uma a seu jeito. E se a gente quer ocupar a cidade, acho justo começarmos pelo quintal de casa.

Pois bem. O pneu do carro furou. E agora, José? Tive de me virar para cumprir o compromisso agendado para a manhã e, na volta, fiquei pensando no que fazer. Não, eu nunca tinha trocado um pneu. Minha mãe, que é professora, chegou em casa perto das 11h e me viu lá, no quintal, tentando dialogar com o pneu.

Precisou de dois minutos, apenas para ela deixar o material dentro de casa, arregaçar as mangas e lançar: "Vamos ter de trocar esse pneu." "Oi? Mãe, pera. Trocar o pneu?" "Já troquei antes, grávida de sete meses. Vamos lá." E fomos. E deitamos no chão. E sujamos as mãos de graxa. E tivemos crises e mais crises de riso. E demoramos um pouco. Mas trocamos o pneu, juntas.

"Agora vamos ao borracheiro. Você não pode rodar com o estepe". E fomos. Chegando lá, ela se aproximou de mim e disse: "Ele tem um braço só". "Mas mãe, como ele trabalha de borracheiro com um braço só?!" "Como ele faz, eu não sei. Mas sei que seu pai sempre vem aqui e confia no trabalho dele. Seu pai pediu para virmos aqui porque o moço precisa trabalhar e, se vamos gastar de qualquer jeito, que seja ajudando outra pessoa". Achei tão bonita essa forma de respeitar o outro. De valorizar os recursos. E distribuir as riquezas.

Aprendi no quintal. E com a minha mãe e meu pai, pessoas com quem convivo já há 24 anos. Aprendi a trocar pneu. A exercer a empatia até na ida ao borracheiro. Aprendi com o borracheiro também. Aprendi a resolver os problemas tendo crise de riso. E você, o que aprendeu hoje?

Ana Luíza Vastag se encanta fácil por sorrisos espontâneos e olhos que conversam. Mergulhou no jornalismo ao enxergar uma ferramenta de contação de histórias e uma boa desculpa para um café e uma descoberta silenciosa sobre os vários personagens que encontra pelas andanças da vida. É educadora de Jornalismo & Escrita Criativa na Escola de Comunicação Comunitária da Escola de Notícias, onde ensina e aprende o tempo todo.