OPINIÃO
08/05/2015 16:58 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:03 -02

Minha mãe me ensinou a conviver

Ainda em sua barriga, Graça começou a me apresentar para as pessoas quando deixava a mão de alguém tocar seu ventre. Entre estas mãos estava a do meu pai. Nasci e ela começou a compartilhar comigo a sua comunidade, seus costumes da terra quente do nordeste de me deixar andar descalça por ai. Ela, que cresceu com doze irmãos, me ensinou a dividir com o meu irmão tudo, começando pela amamentação. Fui entendendo o que significa viver junto a partir da minha convivência com ela: minha mãe.

Ainda em sua barriga, Graça começou a me apresentar para as pessoas quando deixava a mão de alguém tocar seu ventre. Entre estas mãos estava a do meu pai. Nasci e ela começou a compartilhar comigo a sua comunidade, seus costumes da terra quente do nordeste de me deixar andar descalça por ai. Ela, que cresceu com doze irmãos, me ensinou a dividir com o meu irmão tudo, começando pela amamentação. Fui entendendo o que significa viver junto a partir da minha convivência com ela: minha mãe.

Ela me ensinou que conviver é cuidar. Sempre trabalhou à noite e quando chega pela manhã, antes de dormir, arruma a mesa do café - inclusive, me ensinou que um bom café da manhã pode ser o maior presente para si mesmo. Quando meu irmão tinha ataque de bronquite, ela me mostrou como passar a pomada no tórax dele - "com carinho", ela explicava. Meu pai, até hoje, encara horas e mais horas de trabalho, e ela prepara cuscuz, o prato preferido desse pernambucano, para ele jantar. Quando alguém da família ou amigo liga em seu celular, antes do "alô" pode-se ouvir o versinho "formosa minha, amada minha, jardim fechado és tu". O cuidado está nos detalhes que nem todos enxergam, aprendi.

Ela me ensinou que conviver é respeitar. Com Graça aprendi um jeito de ter fé e de enxergar a vida. Mas ela também me mostrou que não devo diminuir o outro que crê diferente. Certa vez uma amiga foi proibida de andar comigo porque eu não seguia uma regra específica. Minha mãe nunca me proibiu de ter qualquer amigo, por mais que de vez em quando algum a preocupe. Ela procura saber por que eu gosto das minhas companhias e sempre procura respeitar minhas escolhas.

Talvez a mãe do meu vizinho seja, na verdade, a avó ou o pai - e não importa o motivo. Mas todo mundo tem alguém em sua vida que é o pioneiro em mostrar ao coração a importância e o melhor jeito de viver em comunidade, pois a gente existe quando encontra o outro.

Ainda que em certa altura da vida nós tenhamos vontade de nos isolar dos nossos grupos de convívio, antes os experimentamos. Com meu trabalho e amigos queridos entendi que comunidade é um grupo de pessoas que se organiza sob o mesmo conjunto de combinados, possivelmente vivem no mesmo local, sob o mesmo governo ou compartilham do mesmo legado cultural e histórico. Do ponto que nos inspira, uma comunidade está caminhando para objetivos comuns para todos os seus participantes. Logo, nossa família é nossa primeira comunidade. Não a escolhemos, nascemos nela. Logo, entendo minha mãe como minha comunidade número zero. Não escolhi, nasci dela e existo através dela: minha Graça.

Karol Coelho não sabe se descrever, nunca desejou ser gente grande, mas não tem síndrome de Peter Pan. Na Escola de Notícias ela faz parte da equipe de Comunicação Institucional. É jornalista e nas horas vagas (ou não) canta e explora a poesia.