OPINIÃO
15/07/2015 12:35 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

'Durante dez anos e meio fui induzida a idealizar uma carreira brilhante para quando eu crescesse'

As notas não nos dizem nada. Todos nós, sem exceção, somos bons. Só precisamos ter a chance de mostrar a nossa competência naquilo que realmente nos satisfaz.

Petro Feketa

Quisera eu (e todos aqueles que já passaram por conflitos internos) que na escola fosse ensinado aquilo que precisamos ao sair dela. Não que não seja útil saber o resultado de um mais um ou a diferença entre objeto direto e indireto, mas acontece que na vida o que sucede ultrapassa os parênteses das expressões numéricas e a pontuação gramatical.

Durante o terceiro ano do ensino médio, eu me dei conta de que metade dos exercícios de Física e Química não me fariam uma pessoa melhor caso deixasse de lado os debates das aulas de Filosofia. Aprender sobre planícies, planaltos, citologia e genética me fez conhecer algumas das infinitas faces que constituem o mundo, decorar a descrição da Teoria da Gravidade na véspera da prova mensal de Física para que eu pudesse me safar da recuperação, serviu para que eu entendesse que todos os corpos que sobem, descem. E só. Desenhar na cartolina branca o mapa do Brasil e colorir os estados de acordo com as suas principais produções, me rendeu nota dez no seminário, mas no dia seguinte já não me lembrava de nada. Saber a respeito das leis, entender a economia e poder diferenciar a multiplicação da divisão com certeza me fez uma aluna exemplar, mas, hoje, eu preciso de mais.

Na escola não me disseram que eu poderia passar no vestibular e desistir da faculdade por não saber ao certo se aquilo era o que eu queria para o resto da vida. Espera! Para o resto da vida? Porque me disseram que a faculdade me tornaria uma coisa só pelo resto da vida? Não pode ser. Na verdade, não é! Durante dez anos e meio, dos meus dezoito, fui induzida a idealizar uma carreira brilhante para quando eu crescesse. A escola me deu tantas informações, tantos conselhos a respeito da minha profissão, tantas dicas de cursos e maneiras diferentes de estudar que ainda me lembro da voz da minha professora de Química dizendo que, se não estudássemos, não seríamos nada. Concordo, o estudo é necessário, a única coisa que me trava a garganta é o conteúdo. Ler um milhão e meio de livros didáticos pode me ajudar a entrar na melhor faculdade pública de São Paulo, mas quando penso em me tornar um ser humano melhor, não me espelho nos exercícios de Matemática.

O que eu quero dizer com tudo isso e com o que ainda não está escrito é que nós, alunos, precisávamos de algo que ficasse... Algo que fosse além das broncas pelo celular em mãos, conversa paralela e olhos focados nas árvores que víamos pela janela. Precisávamos ter noção da liberdade que é a vida caso nos arriscássemos a vê-la, senti-la e vivê-la. Sim! Há liberdade! As coisas não são tão complicadas, nem todas as pessoas apontam o dedo para você te julgando como um nada por não ter vontade de ingressar na melhor faculdade da cidade. Você consegue trabalhar e fazer outras coisas diferentes de passar um fim de semana sem ver a cor do céu, com os olhos mergulhados nas palavras que prometem fazer de você um profissional reconhecido.

Agradeço imensamente a todos os envolvidos no meu processo educacional, mas hoje percebo que o que eu aprendi na escola não é um terço de tudo o que é e do que há pela frente. Tem gente que nos ensina a obedecer e outros nos ensinam a ser. Meu desejo é que as pessoas passem a reconhecer a importância que assuntos do nosso desenvolvimento como seres humanos têm, acima de qualquer matéria, e que, um dia, esses tópicos sejam tratados abertamente dentro das escolas, como quando nos pedem a solução das listas de exercícios. Assim não haverá necessidade de prender nossas crianças, não haverá necessidade sequer de falar sobre isso, porque neste dia entenderão que o respeito pelo próximo é, dos bens, o mais precioso.

As notas não nos dizem nada. Todos nós, sem exceção, somos bons. Só precisamos ter a chance de mostrar a nossa competência naquilo que realmente nos satisfaz.

Encerro este desabafo agradecendo por todo o processo desde o início, se não fosse toda a pressão dentro das quatro paredes da sala de aula, as idas à diretoria por discordar dos professores e, sem esquecer daqueles que fogem do padrão, que agem e ensinam de acordo com o coração e não seguem a grade das obrigações à ferro e fogo, os incríveis mestres que nos permitiam e incentivavam, e que, sem eles, metade deste texto não estaria escrito. Ver é natural. Necessário é enxergar e isso precisa ser ensinado.

Mariana Cortez, 18 anos, participou da oficina de Vídeo (Cinema e TV) da Escola de Notícias em 2014. Paulistana apaixonada pela leitura, pela estrada e por todas as pessoas que a vida põe em seu caminho, extraindo de cada uma apenas o melhor. Acredita na troca de ensinamentos e no coração acima de qualquer razão.