OPINIÃO
23/11/2015 11:18 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

A escola não é só um prédio

Para Mayara, as escolas precisam de uma reorganização, mas não da forma como está acontecendo. "Não é assim, fechando as escolas, demitindo professores, fazendo alunos irem pra longe de casa, já que não vai ter vaga perto para todos."

Foto: Bluno Souza

Foi por meio de boatos de professores que Mayara Leite de Melo, estudante da Escola Estadual Professora Neyde Apparecida Sollitto, soube que a sua escola iria fechar. "Fiquei sem acreditar que isso pudesse acontecer. É uma escola de muitas gerações e com estrutura muito boa", disse. Ela é uma das jovens participantes da ocupação da sua escola.

A seguir, você verá depoimentos de pessoas envolvidas com a questão da educação e que fazem parte da nossa rede Escola de Notícias. Elas falam não só de escolas, mas principalmente de diálogo.

Sobre a organização dos alunos

Para Mayara, as escolas precisam de uma reorganização, mas não da forma como está acontecendo. "Não é assim, fechando as escolas, demitindo professores, fazendo alunos irem pra longe de casa, já que não vai ter vaga perto para todos."

A estudante acredita que o governo deveria ter pesquisado escola por escola, bairro por bairro para saber onde cabia a reorganização e onde não seria viável. As escolas devem ser sacudidas e mudar em vários aspectos, contando com a ajuda e a opinião dos alunos. E não com autoritarismo, como está acontecendo. Atividades em conjunto com a comunidade podem estimular os alunos à quererem estar na escola. Perguntá-los sobre o que deveria ser feito e colocar em prática o que prometem, ajudaria a melhorar as nossas escolas. A nossa ocupação está sendo feita para mostrar que não estamos contentes com a reorganização que mudará as nossas vidas, dos nossos pais e professores. Eles nem nos consultaram."

Camila Andrade Vaz, educadora da Escola de Notícias, postou um texto no seu perfil do Facebook contando como se sente diante de toda a situação. Para ela, a decisão de mudar a vida de 300 mil alunos de escolas estaduais de São Paulo vai além do espaço físico.

"Acho que já fazem três ou quatro horas que estou vendo reportagem, vídeos, depoimento, planilhas, matérias sobre ocupação nas escolas. Em muitas delas, vi pai, mãe, professor, aluno, aluna cuidando do espaço de maneira organizada e essa organização significa simplesmente fazendo comida na cozinha da escola, organização do espaço para todos dormirem, varrendo, limpando os pátios, se protegendo e protegendo a escola da chuva. Dessa vez, isso mexeu com a Camila de muitos anos atrás, que passava horas na escola porque queria estar ali, porque via razões, movimentações, projetos que faziam a escola deixar de ser prédio e virar só...escola. Acredito que tem muito menino, menina se vendo como ponto de luz e significando a comunidade como responsável por aquele espaço que, com certeza, nesse momento não é só prédio."

A educação pode, sim, ser divertida. Os próprios alunos provam isso durante as ocupações que têm organizado tanto a parte estrutural, com a reforma das escolas feita em mutirões, quanto a parte educacional mesmo, com atividades culturais e aulas que enriquecem ainda mais esse movimento, com mobilização da sociedade. Os estudantes estão sendo claros na mensagem, de que a educação pode ser coconstruída com a comunidade.

Qualquer pessoa pode apoiar uma escola ocupada. Uma das formas é doando uma aula. Para saber mais, veja essa iniciativa que quer criar colaborativamente um banco de aulas e oficinas com voluntários que se disponham a ir a uma das escolas ocupadas.

A importância do diálogo

Pedagogicamente falando, como enxergar a falta de diálogo com a comunidade escolar? Para isso, Kamila Modesto, coordenadora pedagógica da Escola de Notícias, cita a seguinte frase do educador Paulo Freire: "Ensinar exige disponibilidade para o diálogo, viver a abertura respeitosa ao outro".

Entre as justificativas do governo para este cenário, ela é objetiva. "Não existe educação onde não há diálogo. Se torna inadmissível a justificativa de que separar as escolas em ciclos melhoraria a qualidade da educação se entendemos que esta se constrói na escuta, no respeito e na empatia, quando as pessoas diretamente envolvidas - alunos, professores e família - não tiveram direito de fala. Se é papel fundamental da educação garantir que as pessoas sejam protagonistas de suas vidas e da construção de uma sociedade democrática e solidária, a melhoria do ambiente educativo só poderia se dar com o acolhimento desses valores. Impor uma decisão de forma tão autoritária é contraditório e violento. Um erro gravíssimo."

Educação é diálogo, é coconstrução. O trecho seguinte do Manifesto de Propósito da Escola de Notícias representa claramente aquilo que nós, da Escola de Notícias, acreditamos de verdade.

"Queremos todos nós, como educadores e alunos, merecedores de atenção qualificada, de olhares atentos, o tempo todo, a todo o tempo."

Elza Maria Albuquerque sempre foi fascinada por pessoas e pela potência que a comunicação tem de transformar vidas. Aprendeu na prática que a felicidade vem também quando damos felicidade ao próximo. É jornalista e, na Escola de Notícias, faz parte da equipe de Comunicação Institucional.

Karol Coelho não sabe se descrever, nunca desejou ser gente grande, mas não tem síndrome de Peter Pan. Na Escola de Notícias ela faz parte da equipe de Comunicação Institucional. É jornalista e nas horas vagas (ou não) canta e explora a poesia.

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