OPINIÃO
22/03/2014 13:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

O otimista e o copo meio vazio

Da Grécia antiga até a Revolução Industrial, o povo passou a vida parcial ou totalmente bêbado. Como quase toda água disponível era suja, a única maneira de se hidratar sem risco era tomando vinho. Agora, vamos precisamos de mais do que isso.

Hoje é aquele dia em que nem os mais otimistas diriam que o copo está meio vazio. Para usar a definição dos realistas - já que a dos pessimistas é impublicável - o copo está apenas com a umidade do lodo que ficou no fundo. Uma imagem bem desagradável quando se pensa é dali que você vai beber.

No Dia Mundial da Água, no Sistema da Cantareira, que abastece a principal região metropolitana da América Latina, o nível das reservas é de apenas 14,6%, o menor já registrado. Mas São Paulo é somente uma amostra de um problema que afeta o mundo inteiro: a dificuldade cada vez maior do acesso à água, principalmente água limpa.

A culpa é de muita gente, e não somente dos governos, que obviamente têm muita culpa. Isso porque as últimas gerações foram todas mimadas, mal acostumadas a viver com água de sobra. No século 20 as tecnologias permitiram extrair e purificar o fluxo dos rios e aquíferos subterrâneos, fazendo com que diversas gerações vivessem sob uma abundância que não existiu nunca antes na história deste planeta.

No Brasil, que tem 13% de toda a água potável do mundo, a moleza foi ainda maior e possibilitou até alguns feitos ambientais. Graças a essa água toda, a maior parte da energia elétrica do país é "limpa", ou seja, vem de usinas hidrelétricas, que não consomem combustíveis fósseis.

Mas esse sedentarismo (desculpa, escapou) está cobrando seu preço agora. Uma parcela imensa da água que foi encontrada, canalizada e tratada foi desperdiçada - poluída ou gasta simplesmente de maneira ineficiente - e vai fazer muita falta. No mundo inteiro, a cada dia, cerca de 3.000 pessoas morrem por falta de água limpa. A ONU calcula que, por volta de 2030, metade da população global sofrerá com a escassez de recursos hídricos.

A esta altura aqueles otimistas lá do início vão comemorar o fato de que, no Brasil, fora do Nordeste, é difícil morrer de falta d'água. Mas em diversas regiões ainda se morre de doenças ligadas à falta de saneamento.

Como se resolve esse problema? Pensando em soluções criativas. Nossos ancestrais, por exemplo, descobriram que uma boa idéia era encher a lata. Não de água, claro. Durante boa parte da história da humanidade, da Grécia antiga até a Revolução Industrial, o povo passou a vida parcial ou totalmente bêbado. Como quase toda água disponível era suja, a única maneira de se hidratar sem risco era tomando vinho. Que, pela presença de álcool e leveduras, evitava a contaminação com bactérias nocivas. No Oriente inventaram o chá, onde a água não muito confiável era fervida junto com ervas, até se tornar potável. Agora, vamos precisamos de mais do que isso.

Tecnologias que permitam reduzir o desperdício nas empresas e nas casas. Educação para que as populações não contaminem a pouca água disponível. Incentivos e punições para que as empresas usem responsavelmente seus recursos. E cobrança junto aos governos para que eles adotem políticas hídricas responsáveis.

Exemplos bons existem. Fábricas de cerveja que consumiam 7 litros de água para produzir 1 litro de bebida agora usam menos da metade disso. Plantas automobilísticas que reaproveitam toda a água usada no processo industrial. Países como a Inglaterra, que despoluiu um rio que era um verdadeiro esgoto e cruzava o centro de sua principal cidade (parece algo familiar?) O realista só teme que isso comece tarde demais.