OPINIÃO
07/04/2014 14:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

Sustentabilidade? <em>Show me the money!</em>

Quem pensa na carteira antes de pensar no planeta pode se tornar um grande advogado da sustentabilidade. O raciocínio se aplica à grande maioria dos executivos preocupados com o bônus do ano que vem.

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Quem pensa na carteira antes de pensar no planeta pode se tornar um grande advogado da sustentabilidade. Sério. É claro que isso não se aplica a um psicopata corporativo, uma daquelas figuras que buscam o resultado do trimestre a qualquer custo, mesmo que seja vendendo produtos cancerígenos às crianças. O raciocínio se aplica, simplesmente, à grande maioria dos executivos com formação financeira ou de gestão, que estão, sim, preocupados com o bônus do ano que vem, mas também não querem ser engolidos por catástrofes como a explosão, no ano passado, de uma fábrica em Bangladesh que era fornecedora de JC Penney e Walmart. "Sustentabilidade", entre outras coisas, significa trabalhar com menos risco, reduzir desperdícios e reciclar insumos ao máximo, coisas que qualquer gestor eficiente fazia muito antes que esse conceito tivesse sido inventado.

Certa vez um CEO, apresentando o diretor de sustentabilidade de sua empresa a um colega, disse ironicamente que ele havia sido contratado "dentro da cota de inclusão de hippies". Hoje, pelo olhar que o mercado financeiro dedica às empresas, essa cota deve aumentar muito. Cada vez mais a demanda por informações de ambientais e sociais faz parte do dia a dia de analistas, administradores de fundos e investidores profissionais. A Bloomberg, maior rede mundial de informações econômicas, armazena dados de sustentabilidade das 10 mil maiores empresas do planeta. Onde os hippies corporativos falavam com palavras do jargão verde, como "pegada de carbono", "questões de gênero" e "trabalho digno", os financeiros e jurídicos traduzem esses termos para sua língua, como "gestão de riscos", "processos por assédio" ou "crise de reputação".

Um analista de mercado comentou recentemente que faz comparação entre empresas do mesmo setor usando os relatórios de gases de efeito estufa. Esses relatórios não são considerados importantes para os resultados desse setor da indústria, mas ele explica: "empresas que controlam suas emissões são empresas bem geridas, e é isso que eu preciso". É por esse mesmo raciocínio - e por medo do risco - que fundos de aposentadoria do primeiro mundo, que movem quantias gigantescas, passaram a exigir investimento responsável. "Quantos? 89% dos investidores me questionam sobre isso", disse no ano passado Steve Waygood, diretor da Aviva Investors, um grande gestor de fundos britânico. Essa preocupação também levou grandes empresas como IBM, HP, SAP e Pepsico a investir em programas para treinar seus executivos em sustentabilidade. Entre as boas novidades dessa tendência está um programa de sabáticos corporativos, para que eles possam se dedicar a projetos ligados ao ambiente e ao social.

Ou seja, quando alguém perguntar a você porque se preocupa com sustentabilidade, pode responder: porque eu gosto de dinheiro. Não será mentira.

(Texto publicado originalmente no Meio&Mensagem)