OPINIÃO
05/03/2014 12:33 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

TV Digital x 4G: pesquisa comprova interferências de sinais

Imagine a seguinte situação: você está vendo TV e de repente a imagem paralisa, ou a tela fica preta, impedindo que você acompanhe o programa. Esses são apenas alguns dos problemas possíveis.

loops7 via Getty Images

Quando o sistema brasileiro de televisão digital foi lançado em 2007, um dos benefícios mais divulgados pelo governo era o fato do sinal de transmissão digital permitir que a imagem em alta definição chegasse aos receptores de TV sem qualquer interferência, nada de chuviscos ou ruídos. Pois bem, agora uma pesquisa divulgada pela Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão (SET) mostra que o sinal de banda larga móvel 4G poderá gerar sérias interferências no sinal de transmissão da TV Digital.

Imagine a seguinte situação: você está vendo TV e de repente a imagem paralisa, ou ainda a tela fica preta, impedindo que você acompanhe o programa! Estes são alguns dos problemas que podem atingir milhões de domicílios em todo o país, a partir da introdução da rede 4G na faixa de frequência dos 700MHz (hoje usada pelos canais de TV analógicos, aqueles que você recebe em casa pela antena VHF). Neste ano, a faixa dos 700MHz, que compreende a frequência entre 698 e 806Mhz, será leiloada pelo governo federal às operadoras de telefonia.

O estudo divulgado em 13 de fevereiro pela SET, comprova a existência de interferências entre a rede 4G/LTE (banda larga móvel) e o sinal de TV Digital. Embora emissoras de televisão e operadoras de telefonia não admitem, essa preocupação sobre possíveis interferências já vem sendo colocada em eventos científicos nos últimos anos, sem qualquer atenção efetiva dos órgãos privados e da gestão pública.

A pesquisa, realizada pela SET em parceria com o laboratório de TV Digital da Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo, avaliou os efeitos da implementação do sinal 4G na área da comunicação televisiva. As antenas de celulares 4G irão operar em faixas superiores às dos televisores, o que pode explicar basicamente as interferências.

Num relatório de 144 páginas, SET e Mackenzie demonstram que os sinais de TV e celular, em faixas adjacentes (a transmissão da TV aberta no Brasil ocorre entre 470 a 698 Mhz), sofrerão interferências, sendo necessárias medidas para mitigação desses efeitos por parte das Teles. Foram realizadas 3 mil e 200 medições em aparelhos de TVs fabricados entre 2007 e 2013.

Interferências podem gerar 'apagão' televisivo no Brasil

O estudo foi entregue ao Ministério das Comunicações e à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Para evitar o que chamou de 'apagão' de milhões de residências brasileiras que dependem da TV aberta (gratuita), a Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão sugere à Anatel medidas para mitigação dos efeitos das transmissões paralelas entre sinais 4G e TV digital, como a criação de requisitos técnicos e novas obrigações às operadores de telecomunicações, além da revisão das especificações contidas na Resolução nº 625/2013 da Anatel, que estabeleceu, entre outros pontos, a inclusão do 4G/LTE na faixa dos 700MHz.

Em entrevista divulgada no site da SET, o presidente da entidade, Olímpio José Franco, disse que "os resultados obtidos nos testes realizados pela Universidade Mackenzie mostram que, nos casos críticos, para preservar a qualidade da recepção do sinal de TV, é necessária uma combinação de diversas medidas de mitigação. Entre elas, alterações das antenas, adição de filtros nos televisores e nos transmissores LTE".

Sim, meu caro, se você já investiu naquele super aparelho de TV digital, que tem centímetros de espessura, conversor de sinal embutido e tudo mais, provavelmente terá que investir novamente em antenas adaptadas ou num filtro específico para (talvez - há estudos em andamento) evitar interferências e ruídos nas imagens televisivas.

O assunto é sério e o debate aos poucos vem ganhando novos espaços midiáticos. A sociedade precisa acompanhar esta discussão. Os dados alarmantes colocados em evidência levanta uma polêmica que se for concretizada prejudicará diretamente indústria, comércio e serviço envolvidos - direta e indiretamente - às telecomunicações, assim como prejudicará os milhares consumidores de conteúdos da TV aberta brasileira.

Ainda estamos em tempo de corrigir esta situação. Tudo vai depender da agilidade do governo federal, que num ano eleitoral pode dar a devida atenção. Na quarta-feira, 19 de fevereiro, durante um evento da Converge Comunicação, o secretário executivo de política de telecomunicações do Ministério das Comunicações (Minicom), Genildo Lins, afirmou que o valor mínimo da faixa dos 700 MHz deve ficar em torno de R$ 12 bilhões, o dobro do previsto anteriormente no orçamento da união. A consulta pública deverá ser aberta já no mês de Abril e o leilão previsto para agosto.

De acordo com informações divulgadas pelo site Telesíntese, o secretário Genildo Lins disse ainda que as teles que vencerem o leilão ficarão responsáveis pelos custos da limpeza da frequência e da mitigação de interferências entre as redes 4G e a TV digital. Ele destacou que todos os cuidados estão sendo tomados para evitar custos excessivos para nós consumidores. Fiquemos de olho, afinal, a pesquisa da SET nos permite inferir que corremos o sério risco de termos interferências na TV durante a Copa e nas Eleições!

Para saber mais detalhes veja a pesquisa divulgada pela SET e Mackenzie. Obrigada pela leitura e, se você acredita que este assunto é relevante, compartilhe com seus amigos!