ENTRETENIMENTO
05/07/2019 18:17 -03

'Mundo real sempre será mais estranho, louco e sombrio', diz criador de 'Years and Years'

Russell T. Davies fala sobre série que mistura drama familiar com uma distopia assustadoramente parecida com nossa realidade.

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Drama dos Lyons é contado em paralelo à ascensão da extrema direita no Reino Unido.

Uma das grandes surpresa de 2019, a série inglesa Years and Years - que começou a ser exibida pela HBO no Brasil no dia 28 de junho - vem ganhando corações e mentes do público com sua mistura inusitada de drama familiar com uma distopia assustadoramente possível à laBlack Mirror

A série dividida em seis episódios conta a história da família Lyons durante 15 anos, partindo de 2019. Daniel (Russell Tovey) é casado com Ralph, mas acaba se apaixonando pelo refugiado ucraniano Viktor (Maxim Baldry); Stephen (Rory Kinnear) e Celeste (T’Nia Miller) se preocupam com o futuro de suas duas filhas adolescentes, Rosie (Ruth Madeley) acaba de ter seu segundo filho e está procurando um novo amor, Edith (Jessica Hynes) viaja o mundo envolvida em uma causa humanitária atrás da outra, e Muriel (Anne Reid), a avó deles, vive uma vida tranquila em um casarão que sofre com os efeitos do tempo.

Todas essas histórias acontecem em um mundo onde a extrema direita avança a passos largos para tomar o controle de boa parte do mundo. No Reino Unido, essa nova ordem é comandada por Vivienne Rook (Emma Thompson), uma esperta e desbocada empresária que vira política para concretizar seu grande sonho: se tornar primeira ministra britânica. 

Em entrevista à HBO - disponibilizada com exclusividade ao HuffPost - o criador, roteirista e produtor executivo da série, Russell T. Davies, fala sobre a produção, sua visão de mundo, o carinho que tem com seus personagens e de como se preocupa com os rumos que o mundo está tomando hoje.


Você contou que passou mais de dez anos pensando em escrever esta história. Por que fez isso agora?

O assunto está em ebulição na minha cabeça há muito tempo. Nos últimos anos, o próprio mundo parece estar fervendo mais rápido, estar mais quente e mais selvagem. A época atual é febril: somos ao mesmo tempo mais políticos ou mais descrentes da política do que nunca. Eu acho que, no passado, para a maior parte das pessoas política significava economia, mas agora estamos vendo que é a nossa identidade que está em jogo. Então eu tive que escrever logo, antes que outra pessoa fizesse isso. E estamos exibindo o mais rápido que podemos porque as coisas que estão no roteiro estão acontecendo!

Por que era importante montar a história em torno de uma família?

Essa é a essência. Afinal, é uma série dramática para a televisão e as pessoas ligam para ver personagens, para ver os atores de que elas gostam. Queremos vê-los se apaixonando e se desapaixonando, ver pais e filhos sobrevivendo a vicissitudes, ver amizades ao longo de décadas. Falamos de política em Years and Years, mas o público vai ver a série por causa das pessoas.

Quais foram os desafios de escrever cada episódio para anos diferentes?

Cada episódio se passa mais ou menos em um ano, então isso cria alguns problemas para escrever. Você não pode criar determinados suspenses porque a cena seguinte acontecerá um ano depois! Mas esse recurso de anos diferentes tem sido muito usado nas séries, e com a expansão do streaming e das maratonas estamos nos habituando a isso. Parte do objetivo é mostrar que uma família está basicamente igual depois de um ano.

Você já disse que não está tentando prever o futuro com esta história, mas qual das suas ideias para a nossa sociedade nos próximos 15 anos é a sua favorita?

A minha tecnologia preferida já existe e são os grupos de WhatsApp, especialmente os grupos familiares. A plataforma está transformando a vida das famílias diante dos nossos olhos. Eu tenho sobrinhas e sobrinhos de 21 a 29 anos e há alguns anos, por mais que eu os amasse, escrevia para eles duas vezes por ano: no aniversário e no Natal. Mas agora temos um grupo da família e circulam de 20 a 30 mensagens todas as noites. A tecnologia nos aproximou. E nós vemos isso na família Lyons – eles são um grupo extraordinariamente unido, que se fala o tempo todo. E eu dramatizei isso. Posso afirmar que algumas dessas conversas em grupo são realmente chocantes!

A série tem momentos engraçados. Por que eles são importantes na história?

Eu não posso escrever mais de seis falas sem uma piada. É natural para mim. Eu falo assim também. Eu estou sempre pronto para a piada. A minha mãe também era assim. A piada tradicional dela era ir a um velório e dizer para alguém: “Pensei que tivesse sido você”. Então eu escrevo assim. Eu acho muito humano. Precisamos do riso para sobreviver, para lidar com as coisas, para expressar o amor. E eu queria que fosse uma série marcada pela esperança – acontecem coisas terríveis com a família Lyons, mas eles tocam a vida, se amam e encontram maneiras de sobreviver.

Como você acha que o público vai reagir à família Lyons?

Eu espero que as pessoas gostem deles, que os sintam como companheiros para lidar com esse velho mundo louco. E o elenco é o máximo. Eu tive muita sorte. Com apenas um desses atores você já teria uma grande série. Mas nós temos um monte deles, em um conjunto brilhante. Nem acredito que conseguimos todos eles. Eu acho que o público vai adorar vê-los. Que comparação pode haver com outras sagas de famílias?

Por que Vivienne Rook é importante para a série?

A série mostra a vida da família Lyons enquanto ao fundo vemos grandes mudanças na política e na natureza da Grã-Bretanha. E essa maré que vai crescendo precisa de uma figura de proa. Precisa ser uma pessoa, com um nome, um rosto, um personagem. Ou seja, Mrs. Rook! Quando você faz isso com uma das melhores atrizes britânicas [Emma Thompson], tudo cresce. Espero que as pessoas fiquem fascinadas com Viv. Ela é rebelde, perigosa e imprevisível. Além disso, é muito inteligente, muito mais do que aparenta quando aparece pela primeira vez.

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Emma Thompson como a política Vivienne Rook.

O quanto você acha que estamos perto desse mundo que você criou?

O mundo real sempre será mais estranho, louco, sombrio e ao mesmo tempo mais esperançoso do que qualquer coisa que possamos prever.

O que você gostaria que o público guardasse desta história?

Os personagens. As pessoas. Eu espero que tenhamos tido alguns insights sobre a sociedade, a política e a tecnologia, mas isso é irrelevante em comparação com os personagens. E, tendo a sorte de contar com Anne Reid à frente daquela família, eu espero que isso seja memorável. A vida com a família Lyons.

Você já tinha trabalhado com a RED Production Company várias vezes. O que faz vocês trabalharem tão bem juntos?

Eu tive sorte! Com a Nicola e a equipe dela, nós funcionamos bem. Mas nunca relaxamos. Depois de todos estes anos, eu continuo morrendo de medo quando entrego um roteiro para a Nicola, porque eu odiaria decepcioná-la. Então isso me mantém exigente. E ela criou um ambiente de liberdade em que você pode dizer qualquer coisa. Isso é muito criativo. Em breve vamos começar a nossa décima produção juntos, e eu espero que haja dezenas de outras!