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24/03/2020 13:45 -03

Em telefonema a Xi Jinping, Bolsonaro tenta desfazer crise criada por Eduardo

Ligação foi intermediada por diplomatas depois de o filho 03 do presidente acusar a China de produzir a pandemia de coronavírus.

Adriano Machado / Reuters
Jair Bolsonaro telefonou na manhã desta terça para o presidente chinês para desfazer crise criada pelo filho. 

Depois da crise diplomática criada por seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que acusou a China de criar a pandemia de coronavírus com interesses econômicos, o presidente Jair Bolsonaro telefonou, na manhã desta terça-feira (24), para o presidente do país asiático, Xi Jinping. A ligação foi intermediada por diplomatas que entraram em campo para apaziguar os ânimos dos chineses.

Aliados comerciais do Brasil, os chineses se sentiram extremamente ofendidos com as afirmações feitas pelo deputado e também com as respostas brasileiras que se seguiram.

O embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, que passou dois dias em embates diretos com Eduardo Bolsonaro pelas redes sociais, disse que a conversa ocorreu em “ambiente muito cordial e amistoso”.  

O diplomata destacou, ponto a ponto, sobre o que tratou a conversa entre os chefes de Estado. Mencionou a “estabilização e ampliação da parceria comercial”. 

Wanming ressaltou ainda que “os dois presidentes reforçaram a necessidade de aumentar a cooperação no combate e controle da pandemia covid-19, inclusive nos materiais médicos”. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, já vinha negociando com os chineses compra ou doações de materiais médicos para auxílio nas ações contra o coronavírus, como máscaras, luvas, ventiladores e respiradores. 

Entenda a crise

O conflito começou na quarta passada, 18 de março, quando o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) comparou o comportamento do governo chinês ao do partido soviético durante a crise do acidente nuclear de Chernobil, na Ucrânia. Em 1986, a antiga União Soviética escondeu e manipulou informações para a população e para o mundo sobre a gravidade do vazamento de um reator da usina. O acidente dizimou milhares de vidas.

Vale destacar que a China é o maior parceiro comercial do País, só em 2019, o país asiático importou US$ 63,3 bilhões do Brasil. 

Seguiram-se dias de tensão. O embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, e a Embaixada da China responderam prontamente a Eduardo. Houve uma onda nas redes sociais contra e a favor à tese do 03, que já era propagada em grupos de WhatsApp por bolsonaristas e, inclusive pelo próprio clã Bolsonaro. 

“Não deixa de ser uma imitação dos seus queridos amigos. Ao voltar de Miami, contraiu, infelizmente, vírus mental, que está infectando a amizades entre os nossos povos”, publicou o perfil da embaixada. 

“As suas palavras são um insulto maléfico contra a China e o povo chinês”, completou o embaixador ainda na quinta (19). 

Enquanto autoridades do Legislativo brasileiros se desculpavam com a China, o ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, entrou em contato com Wanming e disse que o fato de a embaixada ter replicado postagens de pessoas agredindo o governo brasileiro ofenderam o presidente Bolsonaro e que o mesmo exigia retratação. Essa cobrança veio em uma nota divulgada mais tarde, na qual, em vez de o governo brasileiro se desculpar pela postura do filho do presidente, reiterou o sentimento do mandatário.

O embaixador chinês voltou às redes sociais, sem aceitar a resposta do governo brasileiro. Na sexta, de acordo com o Valor Econômico, o presidente Bolsonaro já havia feito uma primeira tentativa de contato com Xi Jinping, sem sucesso. Até o contato desta terça, foi necessário um trabalho de diplomacia intenso. 

Da parte dos chineses, não apenas houve desrespeito dos brasileiros, como também a compra, sem senso crítico do discurso norte-americano de Donald Trump do que a pandemia de coronavírus representa. 

Semana passada, o Ministério da Economia revisou o PIB (Produto Interno Bruto) para 0,02% por conta dos efeitos do coronavírus. Houve receio do governo brasileiro de retaliações por parte dos chineses, em especial pela contundência das respostas do embaixador do país asiático no Brasil. 

Além das negociações no âmbito da Saúde, há em andamento conversas avançadas em agronegócio e investimentos em energia.