MULHERES
15/02/2019 08:17 -02

Ela não é 'a única': O antídoto ao sexismo na corrida presidencial nos EUA

Agora que há mais que uma, as candidatas terão a liberdade de ser apenas candidatas?

Illustration: Damon Dahlen/HuffPost; Photos: Getty

Para as pessoas que trabalharam na campanha presidencial de Hillary Clinton em 2016, ficou claro que o sexismo contribuiu para o modo como sua candidatura foi recebida. Analistas se queixavam das expressões faciais dela, de seu tom de voz “estridente” e sua suposta “tendência a gritar” – algo que Donald Trump e Bernie Sanders também faziam frequentemente, sendo sujeitos a muito menos críticas.

“Sorria. Você acaba de ter uma grande noite”, tuitou Joe Scarborough para Hillary em tom paternalista após uma noite importante nas primárias em março de 2016. Boa parte da mídia descrevia Hillary como sendo antipática, pouco autêntica e pouco confiável. Essas avaliações muitas vezes se deviam ao sentimento visceral das pessoas, e não a preocupações concretas com a experiência ou as posições políticas da candidata.

Uma coisa que frustrava especialmente os defensores de Hillary era a dificuldade em chamar a atenção para esse sexismo, porque ela era a única mulher na disputa presidencial. Com isso, as críticas sexistas a ela podiam facilmente ser atribuídas às suas falhas como indivíduo, sem levar em conta os viéses de gênero que influenciam a percepção pública.

“O problema de ter apenas uma [candidata mulher] foi que era fácil descontar o sexismo embutido na cobertura feita de Hillary. Sexismo dos eleitores, sexismo contido no modo como encaramos candidatos. Era fácil atribuir tudo isso ao fato de estarmos falando de Hillary”, disse ao HuffPost a vice-presidente de comunicações do EMILY’S List e ex-vice-diretora de comunicações da campanha de Hillary Clinton, Christina Reynolds. “As pessoas diziam ‘há alguma coisa nela que não gosto’. Falavam ‘eu votaria em uma mulher, mas não nesta mulher.’”

“Em todo o país, pessoas de todas as posições políticas – homens, mulheres, millenials, baby boomers – me disseram que queriam muito uma presidente mulher, só não queriam esta mulher”, escreveu Janet Reitman, da revista Rollling Stone, no setembro que antecedeu a eleição. A atriz Susan Sarandon, que apoiou Bernie Sanders na primária democrata, disse à BBC que não poderia votar em Hillary “porque queria a mulher certa”.

Mesmo Donald Trump repetiu o refrão de que o problema não eram as mulheres em geral; era apenas aquela mulher. Na realidade, ele valorizava as mulheres demais! Ninguém respeitava as mulheres mais que ele! “Quero ver uma mulher virar presidente, mas não pode ser Hillary. Ela é um desastre”, disse Trump para uma multidão reunida em Scranton, Pensilvânia, em julho de 2016, falando de Hillary Clinton.

Rick Wilking / Reuters
Donald Trump e Hillary Clinton debatem em Missouri em outubro de 2016.

Em 2014 Rebecca Traister sugeriu na The New Republic que a disputa política precisava incluir mais mulheres. Ela lamentou o fato de que várias mulheres altamente qualificadas pareciam estar desistindo de concorrer para esvaziar a área e deixar mais espaço para a candidatura de Hillary. “Warren, Gillibrand e Klobuchar melhorariam muitíssimo o tom e o teor do discurso político da esquerda” se concorressem com Hillary, sugeriu Traister, “porque .... quando mulheres disputam umas com as outras em corridas presidenciais e outras ... Isso alivia a pressão de ser a única.”

Fazendo um fast-forward para 2019, duas das mulheres identificadas por Traister, as senadoras Elizabeth Warren (democrata do Massachusetts) e Kirsten Gillibrand (democrata de Nova York) já lançaram suas candidaturas presidenciais sérias, ao lado da senadora Kamala Harris (democrata da Califórnia) e da deputada Tulsi Gabbard (democrata do Havaí). Consta que a senadora Amy Klobuchar (democrata do Minnesota) também estaria estudando a possibilidade de se candidatar.

Essas mulheres cobrem todo o espectro ideológico do Partido Democrata. E é possível que em 2020, o grande número delas fazendo campanha e participando de debates, expressando uma diversidade de opiniões políticas, até mesmo discutindo umas com as outras e exibindo expressões diversas, vai forçar os eleitores a encarar as políticas mulheres como candidatas individuais, não como avatares de 52% da população.

“Quando há apenas uma, essa pessoa carrega toda a carga da representação feminina”, respondeu Traister quando Stephen Colbert perguntou recentemente se é positivo o fato de haver várias mulheres disputando a candidatura presidencial democrata. “Quando se pensa nas parcelas enormes da população que foram deixadas de fora dessas estruturas, é pressão demais para ser suportada por uma candidata apenas.”

É possível que em 2020, o grande número delas fazendo campanha e participando de debates, expressando uma diversidade de opiniões políticas, até mesmo discutindo umas com as outras e exibindo expressões diversas, vai forçar os eleitores a encarar as políticas mulheres como candidatas individuais, não como avatares de 52% da população.

Uma batalha dinâmica entre várias candidatas democratas também pode ajudar o país a mudar sua visão coletiva de como é um político ou uma política “presidencial”. Em 1987, quando a então deputada Pat Schroeder (democrata do Colorado) explorou a possibilidade de se candidatar à presidência, ela topava com essa crítica o tempo todo. As pessoas a achavam qualificada, simpática e dotada de muito conhecimento, mas diziam que ela simplesmente não tinha uma vibe presidencial.

“As pessoas me diziam: ‘Gosto de tudo em você, mas você não soa como os outros candidatos, não tem a mesma cara que eles’”, Schroeder contou ao HuffPost recentemente. “O problema é que você não tem aparência presidencial.”

Outro problema é que quando mulheres se candidatam aos cargos políticos mais elevados, muitas vezes são retratadas como sendo ambiciosas demais, implacáveis demais, menos simpáticas. Hillary Clinton, por exemplo, sempre era mais popular quando estava exercendo outro papel (por exemplo quando foi senadora por Nova York ou secretária de Estado) ou quando estava ajudando um homem mais poderoso (por exemplo quando foi primeira-dama ou secretária de Estado). Quando ela deixou o gabinete de Barack Obama, em 2013, Hillary era a política mais popular do país, com índice de aprovação popular de 69%. Mas quando ela ousou pedir mais poder, seu índice de popularidade caiu tremendamente. Em fevereiro de 2016, em meio à sua candidatura presidencial, seu índice de aprovação era de pouco mais de 40%.

Quando mais de uma mulher pede para ser eleita para um cargo de poder, torna-se mais difícil reagir a essa ambição com críticas sexistas. Elizabeth Warren foi a primeira mulher a anunciar-se oficialmente candidata à presidência na eleição de 2020; quando ela o fez, sua popularidade foi posta em questão muito rapidamente. (Ironicamente, na eleição de 2016 muitas pessoas tinham dito que Warren seria o antídoto natural a Hillary, justamente por ser vista como simpática, enquanto Hillary era vista como antipática.) “Eu direi: Elizabeth Warren não é simpática”, declarou Matt Lewis no The Daily Beast. “Como Warren pode fazer para evitar seguir o mesmo caminho que Hillary – ser tachada de antipática demais antes de sua campanha sequer decolar?”, indagou a Politico. “Elizabeth Warren é realmente ‘antipática’?”, perguntou a Vanity Fair.

Mas, agora que há pelo menos 4 mulheres na corrida, as críticas sem fundamento parecem ter diminuído – pelo menos temporariamente. A mídia se apressou a criticar um comentário (favorável!) sobre a simpatia de Gillibrand no primeiro evento de imprensa após o anúncio da candidatura dela. E o anúncio da candidatura de Kamala Harris não foi seguido por comentários da imprensa sobre sua ambição ou até que ponto é fácil ou não gostar dela. (Que avanço!)

Resta ver como a questão de gênero vai se desenrolar na primária democrata. As mulheres que atuam na esfera política ainda receiam que a mídia tente retratar debates sadios entre candidatas mulheres como algum tipo de “cat fight” (“briga de gatas”, ou briga de mulheres. Um termo pejorativo para designar uma briga entre mulheres com puxões de cabelo, baixarias e pouco espírito esportivo.) E Reynolds disse ao HuffPost que o EMILY’s List já recebeu perguntas sobre se as mulheres candidatas não irão simplesmente roubar votos umas das outras.

Se, no final, for uma mulher a enfrentar Trump na eleição geral, certamente ainda existe a chance de que o sexismo possa prejudicar ativamente as chances de essa mulher derrotá-lo. Afinal, a masculinidade tóxica descarada do presidente sem dúvida é um dos elementos da atração que ele exerce sobre sua base. Mas esses momentos históricos de transição, difíceis de serem percorridos, são necessários para aumentar a representação feminina na política no longo prazo. Não vamos criar uma visão mais ampla de como pode ser um presidente e quem deve ser autorizado a desejar esse cargo até que mais pessoas que não se enquadram nesses moldes se apresentem para ser candidatas.

“Nós [do EMILYs List] acreditamos profundamente que toda mulher que se candidata a um cargo eleito facilita a candidatura da próxima mulher”, disse Reynolds, “em parte porque sua candidatura muda o modo como encaramos os candidatos políticos.”

E porque muda a visão que temos do que é um candidato.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.