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16/06/2020 16:31 -03 | Atualizado 16/06/2020 16:42 -03

Bolsonaro se irrita com operação contra aliados, e demissão de Weintraub deixa de ser certeza

Permanência de Weintraub no governo pode aniquilar tentativa de pacificação. Se ministro não deixar o MEC, STF entenderá que governo não quer diálogo.

Adriano Machado / Reuters
Demissão de ministro da Educação é visto por integrantes do STF como crucial para demonstrar a disposição do Executivo ao diálogo. 

Depois de avisar ao ministro da Educação, Abraham Weintraub, que precisará substituí-lo, Jair Bolsonaro, agora pondera se seguirá com o plano. Uma operação na manhã desta terça-feira (16), que mirou aliados bolsonaristas próximos, porém, deixou o presidente “mais que irritado”, nas palavras de um interlocutor e fez os filhos, aguerridos defensores do chefe do MEC, elevarem os clamores pela permanência do ministro no cargo. Demitir o auxiliar nunca foi do agrado do mandatário, que assim procederia por pressão, agora em especial, do STF (Supremo Tribunal Federal). 

A mando de Alexandre de Moraes, do STF, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços de mais de 20 pessoas, entre elas algumas próximas a Bolsonaro, como o blogueiro Allan dos Santos, e o deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ). A operação ocorreu no âmbito do inquérito que investiga organizadores e financiadores de manifestações antidemocráticas, que pedem o retorno da ditadura militar e até a reedição do AI-5. 

Nas palavras de fontes palacianas ouvidas pelo HuffPost nesta terça, o presidente ficou “furioso” com a ação da PF, que atinge mais uma vez seu núcleo. Aliados do presidente já tinham sido alvo de busca e apreensão, também a partir de um pedido de Moraes, mas no inquérito das fake news. 

A demissão de Weintraub entra nesse cenário como uma moeda de negociação para distensionar a relação entre os Poderes Executivo e Judiciário. Do lado do STF, avalia-se que, a permanência do ministro, o que mais eleva o tom contra a Corte e seus integrantes, é um sinal negativo, de que o Planalto “não quer diálogo”, conforme um interlocutor de um ministro do Supremo. 

Em uma reunião no fim da tarde de segunda (15), Bolsonaro comunicou a Weintraub que, por causa da pressão “enorme” do STF, precisaria substituí-lo. Disse que não o faria ainda, mas seria em breve. E que também não estava procedendo conforme uma vontade sua, que se dele dependesse, o ministro seguiria à frente do MEC. Ouviu então de Abraham Weintraub que, independente de para onde Jair Bolsonaro o mandasse, ele seguiria apoiando seu governo “incondicionalmente”.

O mandatário estuda uma “saída honrosa” para o chefe do MEC, cogitando inclusive uma embaixada para ele. Isso porque alguns ministros do STF avaliam que, se mantiver o discurso de ataques à Corte, Weintraub pode acabar preso. 

Cai, não cai

Há algumas semanas, quando Bolsonaro, por meio de seu núcleo jurídico, deu início a um movimento de aproximação com a Corte, os ministros começaram a cobrar o afastamento de Weintraub. Isso se intensificou, contudo, após a participação dele numa manifestação de apoio ao governo no último domingo (14), quando o ministro verbalizou xingamentos aos integrantes do STF mais uma vez, chamando-os de “vagabundos”. 

O mandatário se irritou com isso. Weintraub havia feito o mesmo xingamento na reunião ministerial de 22 de abril, que se tornou pública após decisão do ministro Celso de Mello, do STF. O governo, no entanto, minimizou, alegou que ocorreu em ambiente reservado e num cenário específico. 

Desde o fim de semana, Bolsonaro tem pedido indicação de nomes para substituir Weintraub. Na lista estão, por exemplo, o secretário de Alfabetização, Carlos Nadalim, e a secretária da Educação Básica, Ilona Becskeházy. Chegou-se a falar ainda no ex-ministro da Educação de Temer, Mendonça Filho (DEM), e no senador Izalci (PSDB). 

Nos bastidores, há uma articulação entre o Planalto e o Supremo para minimizar os atritos, caso seja efetivada a demissão de Weintraub. O inquérito das fake news, um das grandes preocupações do Planalto, pode ter os efeitos amenizados para o gabinete do ódio, onde se aproximaria bastante do clã Bolsonaro, focando em outros elementos.

Após a operação desta terça, porém, fontes do Planalto e próximas ao núcleo de Bolsonaro destacaram ao HuffPost que essas negociações foram colocadas em xeque pela ala ideológica do governo, em especial, os filhos do presidente. E, por isso, a demissão de Abraham Weintraub, até a noite de segunda (15) uma certeza, voltou a ser uma dúvida na tarde desta terça.