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18/06/2020 16:24 -03 | Atualizado 18/06/2020 17:42 -03

Após meses na corda-bamba, Weintraub anuncia saída do MEC em vídeo ao lado de Bolsonaro

Demissão do ex-ministro quase foi adiada, mas Planalto decidiu manter os planos iniciais para desviar de noticiário negativo da prisão de Fabrício Queiroz.

Adriano Machado / Reuters
Ministro Abraham Weintraub foi demitido nesta quinta-feira (18).

A saída de Abraham Weintraub do Ministério da Educação foi confirmada na tarde desta quinta-feira (18) por meio de um vídeo publicado nas redes sociais, mesmo modelo usado pelo governo para anunciar o afastamento de Regina Duarte da Secretaria de Cultura. Balançando no cargo e já avisado desde segunda (15) que seria desligado do cargo, o ex-auxiliar, como já havia dito reservadamente a Jair Bolsonaro, afirmou que seguirá “apoiando” o governo. 

Weintraub disse ter recebido um “convite” para o Banco Mundial e que, assim, se sentirá mais “seguro”. “Eu, minha esposa, nossos filhos e até a minha cachorrinha, a Capitu, a gente vai poder ter a segurança que hoje está me deixando muito preocupado”, destacou o agora ex-ministro.  

“Estou fechando um ciclo, presidente, e começando outro, e é claro que sigo apoiando o senhor como fiz nos últimos 3 anos. Nesse período virei um patriota que defende os mesmos valores: família, liberdade, honestidade, franqueza e Deus no coração”, completou.  

Bolsonaro pediu a palavra em seguida, dizendo ser um “momento difícil”, afirmando ainda que é necessário “confiança”. “Nunca deixarei de lutar por liberdade”, afirmou o presidente.

A demissão já estava planejada para esta quinta, mas com a manhã conturbada, chegou-se até a pensar em adiá-la. Contudo, com o noticiário unificado em torno da prisão de Fabrício Queiroz em um sítio pertencente ao advogado do presidente e seu filho Flávio, Frederick Wassef, o Planalto manteve o plano original de tirar Weintraub do governo. A intenção é tentar desviar o foco do turbilhão que preocupa a família Bolsonaro. Entre políticos, o anúncio hoje é tratado como “cortina de fumaça”. 

Pressão de diversos lados contra Weintraub

A saída de Weintraub era uma reivindicação antiga do núcleo militar do governo e também de parlamentares, em especial do centrão, pelo menos desde novembro. Porém, Bolsonaro começou a se convencer do afastamento do auxiliar após o STF (Supremo Tribunal Federal) começar a pressionar pela saída dele.

Isso porque o ex-ministro já é investigado no inquérito das fake news, que corre na Corte, por se referir aos integrantes do STF como “vagabundos”. Ele, porém, voltou a se manifestar nesses mesmos termos no último domingo (14), quando participou de um protesto pró-governo em Brasília. 

“Já falei minha opinião, o que faria com esses vagabundos”, afirmou o ex-ministro referindo-se ao pedido de investigação feito pelo presidente do STF, Dias Toffoli, dos atos ocorridos no sábado (13) contra a sede da Corte. Na manhã de segunda, participantes da referida manifestação, que disparou fogos de artifício contra o prédio do Supremo, foram presos pela Polícia Federal.

Até então, o Palácio do Planalto vinha tratando a primeira fala de Weintraub como um caso específico, que ocorreu em uma reunião fechada. Porém, a declaração do titular do MEC no fim de semana ocorreu justamente no fim de semana em que Jair Bolsonaro não compareceu às manifestações em Brasília, como o mandatário se acostumou a fazer nos últimos meses. Bolsonaro não gostou da atitude do subornidado e, em entrevista, disse que o ministro “não estava representando o governo; estava representando a si próprio”.

Em troca da demissão de Weintraub, chegou-se a falar em uma espécie de acordo com o Supremo: saindo Weintraub do governo, que já é alvo do inquérito das fake news, a investigação poderia tomar um rumo mais ameno para o lado do gabinete do ódio. 

No Supremo, a avaliação é de que, se mantiver o tom elevado contra a Corte, Abraham Weintraub corre o risco de ser preso. O líder da Rede no Senado, Randolfe Rodrigues (AP), apresentou um pedido de prisão do ex-ministro ao STF. Esse é um dos motivos pelos quais se negociou para ele um cargo fora do País. O ministro da Economia, Paulo Guedes, estaria envolvido na negociação, apurou o HuffPost.

O ex-ministro é também alvo de uminquérito por racismo, após sugerir, em um post que apagou de seu Twitter pouco depois de publicar, que chineses poderiam se beneficiar da pandemia do coronavírus:

Reprodução Twitter
No tuíte que foi apagado, ministro da Educação troca "r" por "l

Popstar bolsonarista

Weintraub assumiu o MEC em abril do ano passado, após a saída de Ricardo Vélez Rodríguez, um indicado de Olavo de Carvalho. Na ocasião, Weintraub integrava a equipe de Onyx Lorenzoni, então na Casa Civil. 

Uma de suas últimas atuações à frente do MEC, como registrou o UOL, foi revogar uma portaria de 2016 que estabelecia cotas para negros, indígenas e pessoas com deficiência em cursos de pós-graduação. Autônomas, contudo, as universidades federais têm autonomia para seguir ou não a determinação.

A pressão pelo afastamento de Weintraub do governo teve início no ano passado, com a elevação do tom do ex-auxiliar. No fim do ano, Bolsonaro chegou a mandá-lo sair de férias. A situação se seguiu no início do ano, com os problemas na correção do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). 

O ex-auxiliar, contudo, ficou muito popular entre os apoiadores do governo, em especial nas redes sociais, uma espécie de popstar. Além disso, sempre contou com apoio irrestrito dos filhos do presidente. Eles recuaram desde o fim de semana com a fala do ministro nos atos antidemocráticos. Também foram convencidos pelo pai, conforme interlocutores destacaram ao HuffPost, que Weintraub estaria se tornando mais popular nas redes que o próprio pai. 

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