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06/04/2020 15:09 -03

Weintraub cria embate com China e há temor que país ignore compras do Brasil na saúde

Nos bastidores, acredita-se que as dificuldades em comprar equipamentos de saúde da China têm influência dos embates diplomáticos e das teorias “conspiratórias” que correm no núcleo bolsonarista.

EVARISTO SA via Getty Images
Ministro da Educação fez postagem considerada "preconceituosa" pela Embaixada da China. 

Um post do ministro da Educação, Abraham Weintraub, no Twitter sobre a China no sábado (4) está preocupando parte do governo. A publicação foi apagada após a repercussão negativa do lado chinês, mas ainda assim teme-se que impacte na venda de insumos de saúde do país asiático ao Brasil. Diversas vezes o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, já alertou que há uma concentração na China da produção de insumos para a saúde, como EPIs (equipamentos de proteção individual) que estão em falta no mundo todo por conta do surto do coronavírus

De forma pejorativa e infantilizada, Weintraub substituiu o “r” pelo “l”, insinuando que se tratava com modo de falar dos chineses, em um texto que sugere que o país asiático tende a sair ganhando com a “clise mundial”. O post foi ilustrado com uma imagem da Turma da Mônica na Muralha da China.

Reprodução
Ministro apagou postagem no Twitter após repercussão negativa.

A Embaixada da China no Brasil classificou a mensagem de Weintraub como “racista” e disse que causou “influências negativas no desenvolvimento saudável das relações bilaterais China-Brasil”. 

Nesta segunda (6), em entrevista ao jornalista Luiz Roberto Datena, na Rádio Bandeirantes, Weintraub condicionou seu pedido de desculpas à venda, pelos chineses, de mil respiradores ao Brasil.  

“Dado que a Embaixada chinesa ficou tão ofendida… Eu sei como é a negociação dos chineses, esse processo cultural… Eu vou fazer o seguinte, meu acordo: Eu vou lá, eu peço desculpas, peço ‘por favor, me perdoem pela minha imbecilidade’. A única coisa que eu peço é que, dos 60 mil respiradores que estão disponíveis, eles vendam mil para o MEC para salvar vida de brasileiros pelo preço de custo. Manda a Embaixada colocar aqui nos meus hospitais [universitários], e eu vou lá na embaixada e falo ‘eu sou um idiota, me desculpem’.”

Negando ter cometido racismo contra os chineses ou sido preconceituoso de qualquer maneira, o ministro voltou a atacar o governo da China. Disse que eles não divulgaram informações sobre a pandemia para poderem, agora que a covid-19 se espalhou por todo o mundo, lucrarem com a venda de respiradores e EPIs.

“O governo da república chinesa, onde começou o coronavírus, poderia ter alertado o mundo inteiro que ia faltar respirador. Que nós teríamos três meses para fazer respirador. Isso não foi feito. Agora, que estamos desesperados correndo atrás de respirador, o que é que acontece? Aparece 60 mil respiradores na China e eles estão leiloando. Aparece um monte de equipamento de proteção, de máscaras, e eles estão leiloando. Então, assim… Teve tempo deles se prepararem para vender para o mundo pelo preço mais alto respirador e máscara”, afirmou o chefe do MEC.

Falta de equipamentos 

Desde fevereiro, o ministro da Saúde tem alertado sobre dificuldades logísticas envolvendo insumos para o sistema de saúde, que incluem falta de matéria-prima, alta de preços e decisões comerciais de países. Ele repete diariamente que a China fechou as exportações em fevereiro e março para atender ao mercado interno, o que impacta no comércio global, uma vez que o país representa mais de 90% da produção mundial dos equipamentos.

Na última sexta-feira (3), Mandetta voltou a criticar decisões comerciais de alguns países. “Estamos vendo retenção sobre produções globais de máscaras. Quase que uma coisa assim: ‘isso era global, agora é só pra atender o meu país’. Nós estamos dialogando com os países no sentido de ter um mínimo de racionalidade nesse momento, para podermos achar um ponto de equilíbrio”, disse.

No mesmo dia, o ministro admitiu que foi frustrada uma compra de 680 respiradores para o Nordeste. “Continua muito difícil em temos de abastecimento”, disse. De acordo com o Consórcio Nordeste, grupo que reúne os nove governadores da região, a carga ficou retida no aeroporto de Miami, nos Estados Unidos. No sábado (4), a Embaixada dos Estados Unidos negou que o país tenha bloqueado a compra de material ou equipamentos médicos da China feita pelo Brasil.

Na quinta-feira (2), Mandetta comentou outro episódio de compra frustrada com o país asiático, envolvendo 200 milhões de equipamentos de proteção. “Hoje os Estados Unidos mandaram 23 aviões cargueiros para a China para levar o material que eles adquiriram. As nossas compras, que nós tínhamos expectativa de concretizá-las para poder fazer o abastecimento, muitas caíram”, disse.

Nos bastidores, há a convicção de que, mais do que uma questão comercial, a situação de semana passada pode se repetir e teve influência dos recentes embates diplomáticos com a China provocados pelo próprio governo brasileiro e as teorias “conspiratórias” que correm no núcleo bolsonarista.  

Crises diplomáticas com a China

Este não é o primeiro embate diplomático criado com a China em meio à crise do coronavírus. Há três semanas, uma postagem do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) que coloca o país asiático como culpado pela pandemia de coronavírus. Também naquela ocasião o perfil da Embaixada da China no Brasil foi rápido na resposta e disse que Eduardo, “ao voltar de Miami, contraiu, infelizmente, vírus mental, que está infectando a amizades entre os nossos povos”.

A mensagem do filho 03 de Jair Bolsonaro acabou virando uma crise de proporção tamanha que o ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, foi acionado para apagar as chamas. Mas acabou por piorar a situação ao divulgar uma nota em que exigia da China desculpas ao presidente. “Temos expectativa de uma retratação por sua repostagem ofensiva ao Chefe de Estado”, disse o chanceler. “Cabe lembrar, entretanto, que em nenhum momento ele [Eduardo] ofendeu o Chefe de Estado chinês”, escreveu Araújo. “A reação do embaixador foi, assim, desproporcional e feriu a boa prática diplomática”, destaca o texto do chanceler. 

Na época, os chineses avaliaram esse tipo de insinuação como desrespeitosa e na contramão do que os quadros técnicos do governo tem afirmado. O próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, já havia desautorizado culpar qualquer país pela pandemia.