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20/06/2020 16:26 -03 | Atualizado 20/06/2020 16:42 -03

Globalismo, diplomacia, multilateralismo: O que Weintraub precisa saber sobre o Banco Mundial

Ex-diretor-executivo do Bird, Otaviano Canuto explica por que o posto para o qual Weintraub foi indicado é bem diferente do cargo de diretor de banco que o ex-ministro ocupou no passado.

krblokhin via Getty Images
Sede do Banco Mundial, em Washington, que, segundo ex-diretor, tem "pegada globalista".

No vídeo em que anunciou sua saída do Ministério da Educação, ao lado do presidente Jair Bolsonaro, Abraham Weintraub disse que voltaria “ao mesmo cargo”, após ser indicado para o posto de diretor-executivo do Banco Mundial (Bird). Isso porque ele “já foi diretor de um banco no passado”, no caso, o Banco Votorantim.

A diferença do Banco Mundial para um banco convencional, no entanto, é enorme – e Weintraub vai aprender isso assim que assumir.

Para entender o que o cargo vai exigir do agora ex-ministro da Educação, o HuffPost Brasil conversou com Otaviano Canuto, um dos brasileiros com mais experiência no Bird – tendo ocupado por duas vezes (2004 a 2007, e 2016 a 2018) o posto que Weintraub deve assumir em breve, além de ter sido vice-presidente do Banco Mundial e trabalhado por mais de 17 anos no sistema multilateral em Washington.

E o primeiro obstáculo já deve se dar naquela que é apontada por Canuto como uma das duas principais características necessárias para o cargo – a capacidade diplomática. A diplomacia não parece ser um forte de Weintraub, que deixou o governo após gerar uma crise com os outros poderes e é alvo de um inquérito aberto pelo STF (Supremo Tribunal Federal) por suposto crime de racismo contra chineses.

No primeiro caso, ele deu declarações em uma reunião ministerial chamando ministros do Supremo de “vagabundos” e defendendo que eles fossem presos. No outro, ele sugeriu em seu perfil no Twitter que a China sairia ganhando com a crise do coronavírus, e de forma pejorativa, substituiu o “r” pelo “l” no texto, numa alusão de como os chineses falariam o português.

“É preciso [para ocupar o posto de diretor-executivo] uma combinação de dois atributos: capacidade técnica de ler, interpretar e avaliar os projetos e programas de políticas promovidas pelo banco e habilidade de fazer diplomacia”, diz Canuto, que segue morando em Washington e hoje é membro sênior do Policy Center for the New South, e membro não-residente do Brookings Institute.

Segundo Canuto, a diplomacia é fundamental pelo simples fato de que a cadeira que será representada por Weintraub – são 25 no total – não chega a ter 4% do capital do banco. “Historicamente o Brasil sempre teve destaque pela capacidade dos seus representantes de justamente conseguir liderar, aglomerar e ter voz bem maior do que os 4% da cadeira. Gente como Pedro Malan, Murilo Portugal, o embaixador Marcos Caramuru, Antônio Henrique Silveira”, afirma.

“Você tem que trabalhar com os outros, tem que fazer alianças, tem que sempre conseguir construir os argumentos de uma maneira tal que sejam vistos como a direção do consenso. Você tem que ser respeitado, e o respeito depende fortemente da sua demonstração de capacidade técnica, de convencimento, de persuasão”, explica.

ASSOCIATED PRESS
A pouca habilidade diplomática de Weintraub deve ser um dos grandes entraves de sua atuação no Banco Mundial.

O conselho que reúne os 25 diretores-executivos tem responsabilidade de aprovar todas as operações do banco, então tem um grau de envolvimento, no detalhe, que é maior do que o conselho de administração de bancos mais convencionais, explica Canuto. A segunda característica distinta de um banco convencional é que, no caso do Banco Mundial, os acionistas são os governos dos 189 membros do Bird.

A cadeira da qual o Brasil participa reúne ainda Colômbia, Equador, República Dominicana, Panamá, Haiti, Suriname, Trinidad e Tobago e Filipinas. Pelo Brasil ter a maior parcela do capital, ficou acordado, em 2015, que por 12 anos – 6 eleições, a cada biênio –, o país lideraria o grupo. O posto ficou vago em janeiro de 2019, quando o então diretor-executivo Fábio Kanczuk saiu para se tornar diretor de política econômica do Banco Central. Assim, assumiu interinamente a filipina Elsa Agustin, ainda hoje à frente da cadeira.

Weintraub teve o nome indicado pelo governo Bolsonaro para o posto, mas terá também que passar por eleição dentro do grupo. É muito raro que os demais países apresentem objeção ao nome indicado, mas se algum país se opuser, possivelmente deixaria o grupo, enfraquecendo a representação da cadeira no conselho do banco.

O mandato de Weintraub também será apenas até outubro, quando se encerra o iniciado por Kanczuk, mas é esperado que ele seja novamente indicado pelo governo brasileiro, por meio do ministro da Economia. E então, deverá passar por uma nova eleição dentro do grupo. “Eu quero crer que ele não viria [para Washington] se não tivesse um compromisso [de que será indicado novamente em outubro]”, diz Canuto, destacando que não dá pra fazer praticamente nada em quatro meses. “Você nem se muda direito.”

Neste sábado (20), menos de 2 dias depois de Weintraub anunciar sua saída do ministério, o MEC divulgou que ele já deixou o Brasil e está em Miami. Sua exoneração foi oficialmente confirmada neste sábado no Diário Oficial da União.

Na sexta, ele havia postado em seu Twitter que estava “saindo do Brasil o mais rápido possível (poucos dias)”. Weintraub repetidamente diz ser vítima de ameaças no País. Também na sexta, o senador Fabiano Contarato (Rede-ES) havia protocolado um pedido de apreensão do passaporte de Weintraub, já que ele está sendo investigado em inquérito no STF.

Se confirmado no cargo, Weintraub terá visto diplomático nos Estados Unidos.

Um banco globalista e multilateral

Mas não é só a exigência de capacidade diplomática que parece não encaixar Weintraub no perfil da vaga que ele está prestes a ocupar em Washington. 

O economista era um dos mais fortes nomes da ala ideológica do governo Bolsonaro, que é avessa a muitos dos temas que são caros para o Banco Mundial.

“O banco tem uma pegada globalista, tem uma pegada multilateral”, diz Canuto. ”É um banco que tem entre os nortes os objetivos de desenvolvimento sustentável [da ONU], é um banco onde se acredita que a mudança climática é um fenômeno real – e que se pode fazer alguma coisa para mitigá-la. É um banco onde se acredita, tecnicamente, que igualdade de oportunidade entre gêneros é algo que favorece o crescimento econômico e o desenvolvimento de um país. Onde o grosso dos acionistas não quer o banco fomentando investimentos em carvão. É um banco onde a preservação de florestas é algo compreendido como objetivo do conjunto de países”, enumera.

Reprodução/ Twitter
O brasileiro Otaviano Canuto, que foi vice-presidente do Banco Mundial, duas vezes diretor-executivo no Banco Mundial e diretor-executivo no FMI.

Canuto afirma que a “visão multilateral está presente na maior parte das discussões do conselho, porque os projetos que lá chegam fomentam isso”. Ele cita como exemplo uma exigência feita em 2018 por países escandinavos e pela Alemanha de ter uma parcela da carteira do banco para projetos na área de mudanças climáticas.

“Basta você olhar os objetivos de desenvolvimento sustentável [da ONU] – o banco tem uma pegada em quase todos eles”, diz.

O ex-diretor-executivo do Banco Mundial e também do FMI não quis opinar sobre a escolha de Weintraub para o posto. Questionado se poderia haver espaço para visões diferentes sobre esses temas no Bird, Canuto disse que “do ponto de vista de opinião, sim”, pode até haver espaço para o contraditório. “Mas do ponto de vista de reorientação da carteira de projetos e do conjunto de programas da instituição, duvido muito”, completou.

Canuto destaca que, após eleito, o diretor-executivo do Brasil fica “intocável” pelo resto do seu mandato de 2 anos no Banco Mundial – ou seja, não poderia ser retirado se mudar o ministro da Economia ou o próprio presidente, a não ser “em casos extraordinários”. “Não é cargo que você demite na caneta. Tanto que a pessoa é votada.”

O banco tem uma pegada globalista, tem uma pegada multilateral. É um banco onde se acredita que a mudança climática é um fenômeno real – e que se pode fazer alguma coisa para mitigá-laOtaviano Canuto, ex-diretor-executivo do Banco Mundial

Weintraub, contudo, estará sujeito a um código de ética no que diz respeito à conduta na relação com os demais funcionários do escritório e demais membros do conselho, e a uma eventual divulgação de informações de natureza confidencial. “Quando uma pessoa é punida, por exemplo, pelo Comitê de Ética, e um ‘board’ corrobora a punição da comissão de ética, começa um processo de comunicação com o governador [ministro] correspondente para que ele tome providências”, explica Canuto.

A chegada iminente de Weintraub já tem causado furor na capital americana. Canuto diz ter recebido uma “avalanche de comunicações de ex-colegas” desde que começou a circular o boato de que o então ministro seria indicado para o banco. “Tem um interesse, uma curiosidade. Uma curiosidade maior até do que outras experiências no passado. As pessoas não sabem como formar expectativas [sobre Weintraub]”, diz.

Entre os que o procuraram estão representantes de países além da cadeira que o Brasil ocupa. “A geometria variável faz com que, em determinados momentos, seja interessante para a cadeira liderada pelo Brasil operar junto com outros BRICs. Em outros momentos, torna conveniente para o Brasil trabalhar com outros parceiros da América do Sul. Às vezes os parceiros no hemisfério”, observa. “Muitas dessas pessoas já entraram em contato comigo, porque elas sabem que vão ter que operar com o brasileiro que se sentar lá.”