ENTRETENIMENTO
15/12/2019 05:00 -03 | Atualizado Há 4 horas

'Watchmen' traz uma visão contundente do trauma negro que todos deveriam assistir

Produção da HBO trata da supremacia branca de uma forma que nenhuma outra série conseguiu até hoje

Mark Hill/HBO
Louis Gossett Jr. é Will Reeves em "Watchmen."

Este texto contém spoilers

No início do sexto episódio de Watchmen, a agente Laurie Blake se debruça para ser ouvida por Angela Abar. Representada com maestria por Regina King, Abar acaba de ingerir “uma dose letal de Nostalgia” e está quase entrando em coma.

“Você não devia ter tomado os comprimidos de seu avô, Angela”, fala Blake e então explica como as cápsulas funcionam. A Nostalgia foi criada para idosos e pessoas com demência. As memórias do avô de Angela Abar foram colhidas e convertidas em um formato de comprimido. Com essas memórias comestíveis, ele nunca se esqueceria de seu passado e poderia transmitir suas recordações a seus descendentes.

“Quem quer estar no presente quando pode viver no passado?” pergunta Blake (Jean Smart) em tom incrédulo, mas talvez seja uma pergunta retórica. Para Abar, viver no passado significa reviver vários acontecimentos sísmicos pelos quais passou seu avô Will Reeves (Louis Gossett Jr.): os horrores do terror racial, a supremacia branca na força policial, o abandono da família e uma experiência de quase morte.

Para o público de Watchmen, também significa ser transportado de volta no tempo para finalmente assistir à grande revelação, aquela que muitos fãs já estavam antevendo. Will Reeves é Hooded Justice (Justiça Encapuzada), super-herói negro que ataca e mata criminosos, racistas e policiais bandidos nas ruas de Nova York. Abar está levando adiante o legado de combate ao crime de seu avô – que ela desconhecia.

Watchmen pediu a muitos espectadores para reviver momentos traumáticos na história americana, para confrontar o racismo sob o disfarce de uma série sobre super-heróis. A série da HBO trata a supremacia branca como vilã de um passado não muito distante, passado esse que está embutido nas instituições de hoje e nas histórias familiares que informam nosso cotidiano. O sexto episódio, em particular, é um olhar pontual e inteligente sobre como gerações de americanos enfrentaram a história racista brutal deste país e como as famílias negras de hoje foram afetadas pelo terror racista de gerações passadas.

A série reimagina a história em quadrinhos de 1986 de Alan Moore e Dave Gibbons. Os protagonistas da HQ combateram o perigo de uma guerra nuclear com a União Soviética, mas o criador Damon Lindelof e a produtora executiva Nicole Kassell voltaram o foco da série atual para a questão racial. Isso ficou claro desde o primeiro episódio, em que Lindelof e Kassell reenceraram o Massacre Racial de Tulsa, de 1921, em que centenas de moradores negros de Tulsa foram dizimados por turbas brancas no bairro de Greenwood, uma comunidade negra próspera. Milhões de espectadores tomaram conhecimento da tragédia através dessa cena.

Lindelof escreveu no Instragram: “Para mim, Watchmen é uma história que fala da América. É sobre ‘heróis’ autodeclarados que combatem um inimigo impalpável e quase impossível de derrotar. Nos anos 1980 esse inimigo era o perigo onipresente de um Armageddon nuclear entre os EUA e a União Soviética. Em 2019, trata-se de um acerto de contas com a história camuflada de supremacia branca de nosso país.”

Intitulado The Extraordinary Being (O ser extraordinário), o sexto episódio é apresentado principalmente em preto e branco. Sob a influência da Nostalgia, Abar primeiramente é levada de volta a 1938, onde seu avô foi aceito no Departamento de Polícia de Nova York, um dos poucos policiais negros dessa força.

Vários de seus colegas policiais são membros do Cíclope, um grupo conspiratório da KKK que faz um sinal de OK que remete à saudação utilizada pelos supremacistas brancos de hoje. Reeves prende um branco chamado Fred por atear fogo a uma delicatessen pertencente a judeus, mas descobre mais tarde que seus colegas brancos soltaram o suspeito. Os policiais brancos não demoram a entender que Reeves se dotou de uma missão: denunciar todos os malfeitos cometidos pela força policial. 

Mark Hill/HBO
Will Reeves, à direita, representado por Jovan Adepo, entra para o Departamento de Polícia de Nova York.

Esse desequilíbrio de poder – um homem negro infiltrando o “clubinho” de brancos – é o mesmo tipo de narrativa que desencadeou milhares de linchamentos nos Estados Unidos nos séculos 19 e 20.

A jornalista e ativista dos direitos civis Ida B. Wells escreveu em seu diário que encarava os linchamentos como uma maneira usada pelos brancos para “se livrarem de negros que estavam adquirindo dinheiro e bens, para com isso conservar os negros aterrorizados e ‘botar os pretos para baixo’”. O impacto de Ida Wells como ativista contra os linchamentos entremeia sutilmente todo o episódio; June, a esposa de Reeves, é jornalista do Amsterdam News, de Nova York, e há um retrato de Ida Wells na parede da casa dos Reeves.

Em Tulsa (Oklahoma), Rosewood (Flórida) e Elaine (Arkansas), todas as três cidades marcadas por massacres racistas, moradores negros viviam em enclaves que promoviam sua prosperidade e força. Pelo menos 200 negros foram assassinados cem anos atrás em Elaine depois de serem espalhados boatos infundados de que meeiros negros estariam arquitetando um levante contra seus vizinhos brancos.

O episódio tem uma cena dolorosa em que os colegas policiais do jovem Will Reeves (Jovan Adepo) o penduram pelo pescoço por um laço, simulando um linchamento. A platéia assiste ao momento pela ótica de Reeves e vê o terror racial pelo ponto de vista das vítimas. E Angela, em seu torpor induzido pela Nostalgia, vivencia tudo também.

Para o produtor executivo Stephen Williams, que dirigiu o sexto episódio, foi importante tratar a história hedionda dos linchamentos de maneira correta e não fazer uma exploração sensacionalista. A cena com Reeves foi filmada em Macon, Geórgia, em Bibb County, palco de sete linchamentos sabidos entre 1877 e 1950. Nesse mesmo período ocorreram 594 linchamentos racistas sabidos no estado da Geórgia e mais de 4.000 em 20 estados, segundo a Equal Justice Initiative, organização sem fins lucrativos que combate a desigualdade racial.

Stephen Williams visitou o Museu do Legado da EJI em Montgomery, Alabama, que trata da escravidão, dos linchamentos, segregação racial e encarceramento em massa na América. O museu fica a poucas quadras de distância do monumento nacional às vítimas do terror racial.

“Procuramos mergulhar o espectador na experiência subjetiva real do terror”, disse Williams, que trabalhou com Damon Lindelof em Lost, falando ao HuffPost. “Nunca vou me esquecer da sensação de estar ali no Sul do país nos lugares onde esses fatos aconteceram realmente não tanto tempo atrás e de tentar retratá-los de modo autêntico, verídico e honesto.”

O episódio foi co-rescrito por Lindelof e o jornalista e roteirista de televisão Cord Jefferson. Este, que já escreveu roteiros de SuccessionThe Good PlaceMaster of None e outras séries de TV de grande audiência, disse que sua experiência de jornalista o ajudou e ajudou outros roteiristas a tratarem de modo considerado e questionador “as grandes ideias que procuramos explorar na série: reparações, violência racial, trauma transgeneracional, etc.”.

“Este episódio – sobre as feridas que não abandonam uma pessoa e que você pode sem querer transmitir para outros – teve grande significado para mim”, disse Jefferson ao HuffPost. “Espero que outras pessoas talvez sintam o mesmo.”

Como sobrevivente do Massacre Racial de Tulsa, Reeves carrega consigo o sentimento de revolta que muitas vezes acompanha as vítimas de tragédias. Ele não quer confrontar o passado, e é por isso que sente tanta raiva, lhe diz June (Danielle Deadwyler).

Oklahoma Historical Society via Getty Images
Prédios destruídos pelo fogo após o Massacre Racial de Tulsa, Oklahoma, em junho de 1921.

Kimberly Ellis, que comanda debates em todo o país sobre o Massacre de Tulsa, disse que quando uma série de televisão mostra essa tragédia para milhões de espectadores, “é uma forma de narrar a história que é ímpar na história moderna”. Como Jefferson, ela vê a importância de lançar luz sobre o trauma intergeneracional em famílias negras descendentes do terror racial.

“Na história da tragédia de Tulsa de 1921, temos uma representação física e extremamente palpável de trauma que é transmitido de geração em geração”, disse ao HuffPost Ellis, que é autora, oradora e produtora. “Houve o trauma físico do deslocamento completo e total de muitas famílias, que passaram meses depois do terror vivendo em barracas da Cruz Vermelha, e o de muitos outros que podem ter retornado a Tulsa e reconstruído suas casas, mas não conseguiram recriar a riqueza recebida de gerações anteriores.”

Ellis disse ainda que a “cultura de silêncio” entre gerações é prejudicial aos jovens, que não entendem como a riqueza de seus antepassados lhes foi roubada. Brenda Alford, cujos avôs sobreviveram ao massacre de Tulsa, disse este ano à WBUR que sua família era dona de uma loja de calçados, uma loja de discos, um clube de dança e um rinque de patinação no distrito de Greenwood, em Tulsa. Os estabelecimentos foram incendiados e destruídos nos tumultos, e a história foi varrida debaixo do tapete por muitos anos.

“Nossa comunidade não pôde transmitir seus bens para a geração seguinte”, explicou Alford à WBUR. “Eu acompanhei meu tio, filho do meu avô, que seguiu os passos deste e se diplomou em fabricação de sapatos, eu o acompanhei tentando relançar o negócio da família na década de 1970, mas não conseguindo. E vimos o efeito que isso teve sobre ele. Foi horrível.”

Apesar de explorar a história dos EUA com tanta maestria, Watchmen também trata do nosso momento político e cultural atual.

O sexto episódio inclui referências a figuras reais do tempo atual: Fred, o racista detido por Reeves, tem o mesmo nome que o pai do presidente Donald Trump, que era dono de uma mercearia em Queens na década de 1930. Este ano, pela primeira vez, o Congresso americano discutiu um projeto de lei para a criação de uma comissão para estudar os efeitos da escravidão e considerar reparações para afroamericanos. E quase um ano atrás o governo federal pela primeira vez reconheceu o linchamento como crime federal. Em outubro o presidente Donald Trump descreveu a investigação do impeachment dele pela Câmara como um “linchamento”, reacendendo a questão de que o uso desse termo como metáfora passa por cima da história de violência racista nos Estados Unidos.

Mark Hill/HBO
Will Reeves (Jovan Adepo) como o Justiça Encapuzada.

O simbolismo do laço – que foi dissecado inúmeras vezes durante a saga infame de Jussie Smollet, este ano, quando o ator alegou ter sido vítima de um crime de ódio – persiste até hoje, na medida em que o laço tem reaparecido em campi universitários e locais de trabalho, como ameaça de vida a negros. (Vale destacar que o episódio foi escrito muito antes de a história de Smollet chegar às manchetes, segundo Jefferson.)

A ideia de que um capuz e um laço pudessem representar o visual adotado por um justiceiro que combate a supremacia branca é provavelmente a revisão mais radical já feita na televisão de símbolos historicamente racistas. E o fato de o Velho Reeves usar capuz é a homenagem perfeita a Trayvon Martin e ao movimento Black Lives Matter, formado depois de o racista George Zimmerman ter sido absolvido de todas as acusações pela morte de um jovem negro desarmado de 17 anos na Flórida.

“Não é com um distintivo da polícia que você vai conseguir justiça, Will Reeves”, June lhe fala depois que ele é atacado por seus colegas. “É com um capuz.”

Na cena final do episódio, Reeves está sentado em sua cadeira de rodas depois de ter atraído o chefe de polícia Judd Craw para uma árvore no meio da noite.

“Você tem uma roupa da Ku Klux Klan em seu guarda-roupa”, diz Reeves.

“Foi do meu avô”, responde Crawford. “Tenho direito de guardá-la. É o legado que recebi.”

“Se você sente tanto orgulho do seu legado, por que o esconde?”, pergunta Reeves, e então ilumina Crawford com um farolete que o hipnotiza, convencendo-o a enforcar-se.

De fato, o Justiça Encapuzada iluminou a verdade, uma verdade que sua memória não o deixaria esquecer jamais.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.