ENTRETENIMENTO
22/10/2019 04:00 -03

Wasp Network: Novo (e controverso) filme de Assayas retrata cubanos nos anos 1990

"A gente não fez esse filme para dar uma resposta à esquerda ou à direita", diz o produtor Rodrigo Teixeira.

A recepção a Wasp Network, 19º longa da carreira do experiente diretor francês Olivier Assayas, no Festival de Veneza, nos últimos dias de agosto, não foi das melhores. Tanto que o cineasta voltou à mesa de edição e acrescentou mais alguns minutos ao filme. Mas também, pudera, além de ser baseado em um livro com uma trama de espionagem complexa, Wasp Network (ainda sem título em português) lida com um assunto delicado no fraturado mundo atual: a disputa ideológica entre direita e esquerda.

O livro em questão é Os últimos soldados da Guerra Fria (2011), do jornalista brasileiro Fernando Moraes, que conta a história de 10 dissidentes cubanos que deixaram suas família para trás e fugiram da ilha de Fidel Castro na década de 1990 para tentar uma “vida melhor” nos Estados Unidos.

É claro que a história é muito mais complicada que isso e gera uma bela virada no meio da trama, mostrando que os dissidentes eram, na verdade, espiões cubanos que montaram uma rede para impedir ações de inimigos de Fidel exilados em Miami.

“Por um lado eu estava muito preocupado, porque a dificuldade que ele [Assayas] teve e que solucionou dando um ‘cavalo de pau’ ali no meio do filme, eu também encontrei para conduzir a narração do livro de uma maneira que você, até o limite do possível, mantivesse o leitor compartilhando o ‘segredo’. Eu apanhei muito para conseguir isso, e, na minha opinião, ele resolveu muito bem”, contou Fernando Moraes com exclusividade ao HuffPost, que assistiu ao filme na abertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo.

“Gostei muito do filme. Acho que ele conseguiu juntar duas coisas muito difíceis em histórias como essa: a humanidade com a atividade. Fiquei muito feliz com o resultado”, completou.

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Pôster do filme "Wasp Network".

Assim como transparece em seu filme desde os primeiros minutos, Assayas, na verdade, quer mais é se descolar da questão ideológica. Segundo ele, Wasp Network é muito mais um drama histórico do que um thriller de espionagem. “O que me interessa na história é o aspecto humano dos personagens”, disse o diretor ao HuffPost.

Mesmo assim, é impossível escapar de debates políticos quando se fala em Cuba e no regime de Fidel Castro. O próprio governo cubano não gostou muito da ideia e chegou a quase inviabilizar a produção, que teria boa parte de suas filmagens na ilha caribenha. 

Mas o filme também mostra o “outro lado”, deixando muito claro o papel de organizações de exilados cubanos em Miami em uma série de atentados em hotéis e resorts cubanos, e, por isso, acabou sendo autorizado a utilizar instalações do governo que nenhuma outra produção internacional já conseguiu.

“Para mim, como venezuelano, a relação entre o governo venezuelano e Cuba foi problemática. Foi desafiador filmar em Cuba. Principalmente porque filmamos lá em um momento de muita turbulência em meu país. É inegável que o nível de influência da inteligência cubana contribuiu para a devastação de meu país. Então, foi difícil. Foi muito difícil estar em Cuba. Mas nós, eu, Olivier e todos os envolvidos no filme queríamos investir no lado humana da história, independente de questões ideológicas e políticas”, admitiu ao HuffPost o ator Edgar Ramírez, que interpreta um dos protagonistas da história, René González.

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Edgar Ramírez como o piloto cubano René González.

Mas o fato de filmar em Cuba, é claro, exaltou os ânimos de cubanos contra o regime da ilha, que passaram a criticar veementemente o filme nas redes sociais. “Cada um vai puxar a sardinha para seu lado e isso é problema deles, não nosso. A gente não fez esse filme para dar uma resposta à esquerda ou à direita. Levamos muita porrada via Twitter de quem nunca leu o livro ou viu o filme. Dizendo que nunca mais voltaríamos para Miami. Mas é tudo balela, porque 95% desses tuítes eram feitos por perfis falsos, de pessoas que nem existem. Pura intimidação”, desabafou o produtor brasileiro Rodrigo Teixeira ao HuffPost.

“A ignorância hoje tem sido a tônica nos dois lados, e com ignorante não dá para falar. Mas essas coisas são cíclicas. Em algum momento esses imbecis que nos cercam agora serão ridicularizados. E isso não vai demorar muito não”, acrescentou.

Uma trama com um olhar distinto

Wasp Network recria um caso real de um grupo de cubanos que se passaram por dissidentes e criaram uma célula de contraespionagem na Flórida. A missão era se infiltrar em organizações anticastristas e desbaratar planos que envolviam atentados.

Desse grupo, o filme se concentra mais na história de dois pilotos de avião: René González (Edgar Ramírez), que deixa a mulher Olga (Penélope Cruz) e a filha para trás sem maiores explicações; e Juan Pablo Roque (Wagner Moura), que pediu asilo na base americana de Guantánamo.

No entanto, Assayas surpreende ao dar bastante espaço para as esposas de González e Roque. Principalmente para Olga, interpretada com muita paixão pela espanhola Penélope Cruz.

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Penélope Cruz como Olga Ramírez.

“A ideia do espelho me agrada muito. De que em uma parte do filme você vê um lado do espelho e no momento seguinte você vê outro. De que, de repente, todo o mundo que cerca o filme é uma ilusão. Mas o principal é que você esteja na mesma posição que Olga. Ela é o fio condutor do filme. É ela quem está na primeira e na última cena de Wasp Network. Nós vivenciamos a história pelos olhos dela”, explica Assayas.

O fato, aliás, chamou atenção de Moraes, que, sabendo das dificuldades que é passar um livro como Os últimos soldados da Guerra Fria para a tela, viu uma grande sinergia entre as duas obras exatamente nessa opção narrativa utilizada pelo cineasta francês.

″É curioso. Embora isso não apareça no livro, as minhas primeiras fontes foram as mulheres, porque eles estavam todos presos e algumas prisões nos Estados Unidos não permitiam visita de não familiares. Eu começo o livro com o René por causa da Olguita. No fundo, tudo é um pouco o ponto de vista dela [Olga]. Eu acho que embora isso não tenha sido combinado, tem um pouco a ver com o fato das minhas primeiras fontes para o livro serem as mulheres”, conclui.

Além do venezuelano Edgar Ramírez, da espanhola Penélope Cruz e do brasileiro Wagner Moura, o elenco estelar e multinacional de Wasp Network ainda conta com o mexicano Gael García Bernal, o argentino Leonardo Sbaraglia e a cubana Ana de Armas.

De acordo com Teixeira, o filme terá exibição no circuito brasileiro, mas ainda não há uma data fechada. Wasp Network ainda terá mais uma sessão na 43ª Mostra Internacional de Cinema, no próximo sábado (26), às 21h10, no Cinesesc, em São Paulo. Veja a programação completa no site do festival