OPINIÃO
08/07/2020 09:58 -03 | Atualizado 17/07/2020 08:10 -03

'Ligue Djá': Doc da Netflix tenta desvendar os mistérios de Walter Mercado

Ator, dançarino, astrólogo, homem, mulher, anjo, picareta... Quem era Walter Mercado?

Ator, dançarino, astrólogo, homem, mulher, anjo, picareta... Ninguém sabia exatamente quem era Walter Mercado. Mas as diretoras Cristina Costantini e Kareem Tabsch tentaram fazer isso em Ligue Djá: O Lendário Walter Mercado, documentário lançado nesta quarta (8) na Netflix.

Será que elas conseguiram?

Figura quase onipresente na América Latina - e comunidade latina nos Estados Unidos - na década de 1990, todo mundo reconhecia a figura exótica de Walter Mercado mesmo sem ter certeza exatamente do que ou quem estavam vendo com os olhos grudados na TV.

Com seu visual que misturava um galã de novela mexicana com uma drag queen apaixonada por pedrarias espalhafatosas e uma tiazinha que dá aulas de crochê, ele fascinava quem quer que fosse enquanto dia após dia fazia a previsão de cada signo do zodíaco em programas espalhados por todo o continente americano.

Mesmo um tanto chapa branca, o filme nos dá, pelo menos, uma boa ideia da história desse porto-riquenho que nasceu em Salinas, um pequeno vilarejo no interior do país, em 9 de março de 1932.

Ainda criança, ele foi considerado pela população local como milagreiro depois que “ressuscitou” um passarinho. Ou seja, logo no seu início, a jornada de Walter Mercado já trazia sua parcela de mistério que o seguiria por seus 87 anos de vida.

Mas a figura andrógina do astrólogo sempre vestindo capas muito coloridas e ostentosas surgiu meio por acaso, quando foi a uma estação de TV em Porto Rico para promover uma peça de teatro em que atuava. Meio que de brincadeira, ele começou a improvisar uma série de previsões astrológicas para a câmera e o sucesso foi imediato.

Divulgação

Mas, afinal, quem era realmente Walter Mercado? O próprio se denominava um “motivador”. Alguém que, por meio da previsão astrológica, passava uma mensagem positiva de amor. Tanto que nos países de língua hispânica ele ficou conhecido pelo bordão “com muito, muito amor”. 

Algo que o Brasil, por conta da barreira linguística e de uma fase mais “sombria” da carreira de Walter Mercado, o astrólogo era famoso pelo bordão involuntário “ligue djá”, em que fazia propaganda de seu serviço (pago) de telemensagem, em que um grupo de “místicos” faziam a previsão dos signos.

Porém, essa passagem polêmica da vida de Walter Mercado, e que seria determinante em seu futuro, é pouco explorada no documentário, que preferia se apegar aos aspectos positivos da mensagem do astrólogo. Com isso, a figura complexa de seu empresário, Bill Bakula.


Bakula foi o grande responsável pelo incrível sucesso, mas também pela decadência de Walter Mercado. Considerado pelo astrólogo como um filho que ele nunca teve, o agente americano o transformou em uma celebridade na América Latina de tamanho reconhecimento que no documentário podemos ver o ator/compositor Lin-Manuel Miranda (hoje bombando com seu musical Hamilton) nervoso e maravilhado ao conhecer Mercado pessoalmente.

Mas foi Bakula também quem decretou o fim de Walter Mercado, tomando tudo que o astrólogo conquistara para si, até seu próprio nome. E é por isso que ninguém mais sabia o que tinha acontecido com Mercado, que vivia uma vida tranquila em San Juan, em uma casa confortável - porém longe dos padrões da época do estrelato - cercado pelo carinho de suas irmãs, sobrinhas e seu fiel assistente Willy Acosta.

E é nesse espírito nostálgico/carinhoso que Costantini e Tabsch optaram por contar a curiosa história de Walter Mercado, que teve um fim no tom positivo que ele merecia, em uma bela homanagem feita pelo Museu de História de Miami. No final das contas, seus mistérios são revelados como ele sempre quis, com muito, muito amor.